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Existe vacina meia-boca?

Antes de discutir terceira dose, é preciso terminar de imunizar a população-alvo desta primeira vacinação

Gonzalo Vecina*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 05h00

Esta pandemia tem sido reveladora. Para aprovar as vacinas, construímos uma regra que diz que elas devem ter eficácia acima de 50%. Realizamos as pesquisas clínicas e aprovamos os imunizantes. Um deles, da chinesa Coronavac, revelou uma eficácia de 50,3%. Outros atributos em relação a proteger contra casos graves foram apresentados de forma confusa por ocasião da publicidade dos dados. E essa confusão não foi positiva e necessitou de explicações adicionais. Mas a regra combinada mundialmente dos 50% foi aceita e a vacina recebeu o aval da Anvisa.

Agora está em discussão a efetividade. A eficácia é um fenômeno individual e a da vacina em questão é de 50,3%. Ou seja, dos vacinados essa é a porcentagem dos que desenvolverão anticorpos e proteção contra a doença. E os restantes? Serão protegidos pelos vacinados! Esse é um conhecimento prévio e reconhecido desde que começamos a vacinar nossas populações e é conhecido como efetividade. Alguns teóricos insistem em falar que a efetividade tem a ver com um mundo real não alcançado pelo conceito de eficácia. Mas na verdade estamos falando de dois fenômenos - o individual é a eficácia e o coletivo é a efetividade. E o conceito é que a efetividade fala da imunidade coletiva. Se a população for coberta pela vacina, ela estará protegida, foi alcançada a efetividade, dada a eficácia inicialmente planejada e a cobertura da população vacinada. E é isso que buscamos com outras vacinas como a da gripe, que também tem uma baixa e conhecida eficácia. Nenhuma vacina é 100% eficaz, mas dada uma ampla cobertura do processo de vacinação, ela protege a população.

Mas neste momento da pandemia estamos começando a analisar os dados produzidos sobre o que vacinamos. E nos encontramos com o conhecido fenômeno da imunossenescência. Sim, nosso sistema imune envelhece e se torna menos competente, como de resto todas nossas outras funções. E identificamos em estudos de eficácia que indivíduos com média de idade de 76 anos apresentam proteção em apenas 42% dos vacinados! Os idosos não estão protegidos? Individualmente não estão, porém coletivamente estarão quando a população estiver vacinada! Durante todo o tempo temos a consciência de que a vacina não é a bala de prata. Que a doença continua a circular e podem aparecer novas variantes que sejam inclusive resistentes às vacinas existentes hoje. Necessitamos manter os comportamentos seguros de isolamento, uso de máscaras e higiene. Só com a população vacinada e com a redução da circulação do vírus poderemos mudar comportamentos.

O que deve ser feito então? Com todo respeito aos cientistas que têm opinião diferente, antes de discutir terceira dose, é preciso terminar de imunizar a população-alvo desta primeira vacinação. Qualquer medida diferente, a meu ver, significaria furar a fila de uma política pública que, no meio da balbúrdia em que o País se transformou, foi aprovada pelo SUS.

Neste momento, temos de ter coerência com o conhecimento que acumulamos sobre vacinação. E, sim, continuar aprendendo e estudando e pesquisando alternativas diferentes que sejam mais efetivas. Não se justifica sair negando as difíceis alternativas que conseguimos construir para garantir acesso à imunização em um momento de escassez de vacinas. Por vezes perdemos a capacidade de analisar fenômenos complexos como o da efetividade e como consequência levamos insegurança a população. Não se trata de esconder ou maquiar dados. E sim de procurar levar o melhor conhecimento a todos.

*É MÉDICO SANITARISTA E PROFESSOR DA FACULDADE DE SAÚDE PUBLICA DA USP

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