Experiência do médico vale mais que recomendação de pesquisas

Num momento em que a indicação de tratamentos de saúde passa a ser norteada cada vez mais por estudos estatísticos e por manuais feitos por especialistas, um estudo realizado pelo Instituto do Coração (Incor), do Hospital das Clínicas de São Paulo, vai justamente na direção contrária e diz o que, até há alguns anos, parecia óbvio: quem sabe o que é melhor para o paciente é o médico. "Medicina não tem de ser baseada em evidências, mas em experiência", afirma o coordenador do projeto batizado de MASS 2, Whady Hueb, numa provocação a uma corrente da medicina que defende que somente remédios e terapias comprovados em diversos estudos podem ser considerados seguros e eficazes. A pesquisa do Incor, que promete causar muita discussão, foi tema do editorial da edição de setembro da revista da Sociedade Americana de Cardiologia. "É claro que estatísticas são importantes. Mas as pessoas estão se esquecendo de que medicina não é uma ciência exata", completa Hueb. O estudo integra o projeto MASS, uma série de trabalhos iniciada na década de 90 e que tem cadastrados 22 mil pacientes do Instituto do Coração. Para o trabalho, feito pelo cardiologista Alexandre Pereira, foram escolhidos 611 pacientes que apresentavam os mesmos problemas cardíacos. Eles tinham lesões graves em duas ou três artérias e uma obstrução cardíaca de até 70%. Os protocolos médicos dizem que, para pacientes com esse perfil, há três possibilidades de tratamento, com resultados idênticos: angioplastia, controle com medicamentos ou cirurgia. "Teoricamente, qualquer das três pode ser usada", explica Pereira. Mas não foi o que mostrou o estudo. Cada paciente teve seu tratamento definido por sorteio. Antes disso, Pereira pediu aos médicos que anotassem qual tratamento indicariam, se isso fosse possível. Cinco anos depois, foi feita a comparação. "Nos casos em que houve coincidência entre o sorteio e a terapia indicada pelo médico, os pacientes apresentaram uma qualidade de vida significativamente melhor", afirma. Lições A vendedora Gislene Calpacci, de 54 anos, foi sorteada para ser submetida ao tratamento indicado pelo seu médico, com medicamentos. "Completamente diferente do que outro médico tinha me indicado. Antes de ir para o Incor, haviam dito que eu precisaria ser operada." Como seu filho menor também seria submetido a uma cirurgia ortopédica, ela resolveu procurar outro hospital. "Quando cheguei ao Incor, perguntaram se não queria participar do estudo. E então passei a tomar os remédios." Integrante de uma família de cardíacos, Gislene conta que seu único "defeito" hoje é trabalhar. "Minha atividade é muito pesada. Ando de carro, carrego mercadoria. Mas não fumo, procuro manter uma boa dieta e não descuido dos remédios", conta ela. Ditadura dos protocolos Hueb avalia que o estudo traz duas lições. Para a comunidade médica, não superestimar a importância de protocolos - consensos com recomendações de tratamento feito por especialistas. Para pacientes, procurar sempre a opinião de um médico experiente. "Dificilmente o grau de acerto dos médicos obtido nesse estudo poderia ser repetido, por exemplo, entre médicos de atendimento menos especializado", afirma. "Mas o que vale é o seguinte: é preciso sempre procurar uma segunda, uma terceira opinião antes de tomar uma decisão." O cardiologista do Instituto do Coração afirma que o desejo do paciente, no momento da escolha, pouco deve importar - algo difícil, numa era em que as informações médicas se disseminam. "Ele pode aceitar ou não o que propomos. Mas não deve influenciar a decisão. Tratamento não é mercadoria." Hueb considera indispensável a realização de estudos semelhantes, em outras áreas da medicina. "Os exemplos são inúmeros. Muitas vezes há uma série de tratamentos possíveis - incluindo a simples observação do paciente."

Agencia Estado,

09 de setembro de 2006 | 10h40

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