Bo Amstrup|Reuters
Crianças têm aula de música ao ar livre em Randers, na Dinamarca. País é o primeiro da Europa a relaxar a quarentena Bo Amstrup|Reuters

Crianças têm aula de música ao ar livre em Randers, na Dinamarca. País é o primeiro da Europa a relaxar a quarentena Bo Amstrup|Reuters

Experiências globais de ‘flexibilização’ trazem lições ao Brasil

Com início da ‘reabertura’ em vários Estados e municípios, exemplos de 10 países podem contribuir para alívio seguro da quarentena

José Fucs , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Crianças têm aula de música ao ar livre em Randers, na Dinamarca. País é o primeiro da Europa a relaxar a quarentena Bo Amstrup|Reuters

Na Itália, um dos países mais atingidos pelo coronavírus, as pessoas já podem ir a lavanderias e livrarias. Na China, em Wuhan, epicentro da pandemia, os pedestres e os veículos voltaram às ruas. Na Alemanha, os pequenos negócios reabriram as portas. Em Seul, na Coreia da Sul, os cafés e parques estão cheios de novo.

Aos poucos, muitos países estão começando a aliviar a quarentena imposta à população para enfrentar o vírus. A vida, lentamente, começa a voltar a certa normalidade, se é que se pode falar nisso no atual cenário, em meio às milhares de baixas causadas pela pandemia e às previsões sombrias para a economia em todo o mundo. Apesar da ansiedade geral pelo fim das medidas de isolamento social, a tendência global é a de promover a retomada em fases, com a flexibilização progressiva das restrições, levando em conta, em alguns casos, a forma como o coronavírus atingiu as diferentes regiões de cada país.

Para evitar uma possível segunda onda de contágio, caso o relaxamento seja feito de forma açodada, vários países só pretendem realizar a reabertura total, com a volta de grandes eventos culturais e esportivos, dentro de alguns meses. Na Dinamarca, por exemplo, o plano é só liberar os grandes eventos e concentrações de pessoas em agosto. Na República Checa, os shopping centers e hotéis só voltarão a funcionar em 8 de junho.

Pressão de empresários

“Nós não devemos perder de vista que ainda estamos no início da pandemia e longe de ver a luz no fim do túnel”, afirmou a chanceler alemã, Angela Merkel, numa entrevista na semana passada. “Não devemos baixar a guarda acreditando que podemos retomar nossas vidas no dia a dia como eram antes”, disse a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, ao anunciar as primeiras medidas de relaxamento da quarentena.

Com o objetivo de dar uma contribuição para uma saída segura do País do isolamento, o Estado realizou um levantamento de como a reabertura está sendo feita em dez países – Argentina, Alemanha, China, Coreia do Sul, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Itália, Noruega e República Tcheca.

Os exemplos de outros países podem oferecer lições preciosas, no momento em que alguns Estados e prefeituras se preparam para flexibilizar a quarentena, enquanto outros já vêm retomando suas atividades.

Com a economia em marcha à ré no País, o desemprego em alta e a renda em queda, muitos empresários estão impacientes com a extensão do confinamento, que em muitas cidades, como São Paulo, já dura mais de um mês. “Há muita pressão do setor produtivo para acelerar a reabertura”, afirma a economista Zeina Latif, colunista do Estado. “Agora, o quanto isso está impactando o processo decisório a gente não sabe.”

Uma reabertura precipitada, que não leve em conta a reversão das curvas de contágio e de morte e a capacidade de atendimento da rede hospitalar, poderá provocar, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), um recrudescimento da pandemia. Para evitar esse risco, que o País não pode correr, convém conhecer melhor as experiências de ‘reabertura’ pelo mundo.

Argentina

Ao contrário do Brasil, a gestão da crise está sob o comando do governo federal e não de Estados e municípios. O presidente Alberto Fernández anunciou no sábado, 25, a prorrogação da quarentena obrigatória até 10 de maio e um tímido alívio nas restrições, conforme o porte da cidade e o nível de contágio. Nas cidades menores, que atendam aos critérios definidos pelo governo, a flexibilização poderá ser autorizada pelas autoridades da província. Em Buenos Aires e outras grandes cidades, as medidas de isolamento vão continuar.

A partir desta segunda-feira, as pessoas em todo o país poderão sair por uma hora, guardando distância de até 500 metros de suas casas. No dia 18, em algumas províncias, já havia sido autorizada a reabertura de 11 atividades, como óticas, escritórios de contabilidade, consultas médicas agendadas e fabricação de produtos para exportação. O transporte interurbano continuará proibido. Não há previsão para retorno às aulas. Shoppings, restaurantes e museus seguirão fechados.

Alemanha

O país, que aplicou testes em massa para reduzir o risco de contágio e tratar rapidamente os infectados, começou a reabertura na semana passada. As lojas de pequeno porte e as concessionárias de veículos voltaram a funcionar. As escolas do ensino básico e fundamental deverão retomar as aulas a partir de 4 de maio, mas as creches e universidades continuarão fechadas. Até lá, a proibição de reuniões em público com mais de duas pessoas seguirão em vigor. Bares, restaurantes, cinemas e hotéis permanecem fechados. Grandes eventos culturais e esportivos, além de serviços religiosos, só deverão ser liberados em setembro.

China

Isolada do mundo em 23 de janeiro, Wuhan conteve a propagação do vírus e começou a flexibilizar o confinamento a partir de 8 de abril. Os transportes rodoviários e ferroviários foram liberados. Para deixar a cidade, porém, os moradores têm de apresentar um código QR atribuído pelo governo pelo celular, para atestar sua boa condição de saúde. No fim de março, os ônibus urbanos e o metrô já haviam voltado a operar. Escritórios e lojas estão reabrindo gradualmente e veículos e pedestres voltaram às ruas.

Coreia do Sul

Sem impor restrições draconianas de circulação, graças à produção e à aplicação de testes em massa, ao isolamento e ao rastreamento de contatos infectados, o país está voltando aos poucos à normalidade. No começo de abril, os estudantes mais velhos voltaram às aulas virtualmente, embora algumas escolas públicas não tenham os equipamentos necessários. Os parques, cafés, shoppings e restaurante estão cheios de novo, com o relaxamento das regras de distanciamento. Muitos escritórios, lojas e hotéis estão usando câmeras térmicas para identificar quem está com febre. Alguns restaurantes medem a temperatura do cliente antes de liberar a entrada.

Dinamarca

A Dinamarca foi o primeiro país da Europa a autorizar a volta às aulas após a quarentena, na quarta-feira passada. Inicialmente, só estudantes do maternal e do ensino básico retornaram , mas muitos pais resistiram e criaram um grupo no Facebook com 40 mil participantes. Na segunda-feira passada, os pequenos negócios, como salões de beleza e autoescolas, também voltaram a funcionar. Igrejas, cinemas e shoppings continuam fechados. Como em outros países, os grandes eventos e concentrações de pessoas permanecem vetados e só deverão voltar em agosto.

Espanha

A quarentena vai continuar até 9 de maio, mas muitos trabalhadores de setores não essenciais voltaram ao serviço depois da Páscoa em todo o país. As indústrias estão retornando à ativa. As construtoras, também, mas só em locais distantes de áreas residenciais. Após cinco semanas confinadas, as crianças estão finalmente podendo sair de casa. Lojas de supérfluos, restaurantes e bares continuam fechados. A polícia está distribuindo 10 milhões de máscaras em pontos de ônibus e estações de metrô e trem.

Estados Unidos

Como no Brasil, também são os Estados que estão definindo as medidas de restrição e o ritmo da reabertura e não o governo federal. O presidente Donald Trump, porém, está estimulando a retomada e elaborou um roteiro de três fases para balizar o processo. Enquanto alguns Estados mantêm as restrições, como Nova York e Califórnia, outros, especialmente no sul do país, aceleram o processo.

Na Georgia, o governo liberou a reabertura de pequenos negócios, como salões de beleza boliches e academias, no sábado, 24. Restaurantes e cinemas deverão voltar a funcionar nesta semana. Na Carolina do Sul, praias e lojas reabriram na semana passada, com adoção de medidas de distanciamento. No Tennessee, a maioria das atividades deverá reabrir nesta semana, com a não renovação do período de isolamento.

Itália

O país, o primeiro da Europa a impor o confinamento e um dos mais atingidos pela pandemia, programou um plano de três fases para voltar à ativa. Lojas de roupas infantis, lavanderias e livrarias voltaram a funcionar em 14 de abril em algumas regiões, com limites para atendimento de clientes. Também foram liberadas para operar lojas de máquinas, serviços hidráulicos, empresas de jardinagem e paisagismo, fábricas de computadores e indústrias de papel e celulose.

Neste domingo, 26, o governo anunciou novas medidas para a fase 2 de relaxamento da quarentena, a serem implementada a partir de 4 de maio, quando serão liberadas visitas a familiares e reabertos parques para prática de esportes individuais, desde que respeitada a distância de dois metros entre os praticantes.

Noruega

Na segunda-feira passada, teve início o alívio na quarentena, com a reabertura das escolas do maternal. Nesta semana, estudantes do ensino básico também deverão voltar às aulas. Foram liberadas também as viagens de lazer para chalés nas montanhas, mas o governo alertou sobre possíveis riscos de contágio. Estrangeiros ainda não podem entrar no País, exceto cidadãos da União Europeia que trabalham em setores considerados essenciais, como agricultura e petróleo. Eventos esportivos e culturais estão parados até 15 de junho.

República Checa

O país, que impôs uma dura quarentena e parece ter obtido bons resultados na contenção do vírus, autorizou a reabertura de lojas de equipamentos, móveis e bicicletas, além de instalações esportivas ao ar livre a partir de 6 de abril. Também foi liberado o funcionamento de feiras livres e concessionárias de veículos, além da realização de casamentos com até dez pessoas. Na semana passada, teve início a volta gradual às aulas em escolas do ensino fundamental e universidades. A liberação de bares, restaurantes, salões de beleza, museus, galerias e zoológicos com áreas externas está prevista para 25 de maio. A partir de 8 de junho, será a vez de shopping centers.

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Qual é a hora certa de relaxar a quarentena por causa do coronavírus?

Para cientistas, iniciar ‘reabertura’ sem reverter curva da pandemia pode levar à 2ª onda de contágio

José Fucs, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 14h18

Depois de mais de um mês de quarentena por causa do coronavírus em quase todo o País, a maioria dos Estados e municípios começa a planejar o relaxamento das restrições. Alguns se adiantaram, acelerando a “reabertura” e autorizando até o funcionamento de shopping centers e outras atividades que geram aglomerações.

Embora boa parte da população se mostre temerosa em relação à possibilidade de contrair o vírus e à sua letalidade, em linha com os alertas dos cientistas e profissionais de saúde, muitos brasileiros parecem seguir com a vida normalmente, como se nada estivesse acontecendo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, o Brasil é o segundo país com maior descrença no isolamento social, ao lado da Alemanha e abaixo apenas da Índia. Pelo levantamento, 54% dos entrevistados no País afirmaram acreditar pouco nas medidas de confinamento, enquanto na Índia o índice chega a 56%.

‘Corda bamba’

Ainda assim, diante da perspectiva de reabertura generalizada nas próximas semanas, algumas questões vêm à tona. Será que é hora de começar a relaxar a quarentena? Como fazer a liberação das atividades em segurança? Quais os riscos que o País corre se a reabertura for feita de forma precipitada?

As respostas a essas perguntas são fundamentais para definir o momento certo e o ritmo da flexibilização. Um erro no cronograma pode ter um custo muito alto, multiplicando o contágio e o número de mortes e comprometendo a capacidade de atendimento do sistema de saúde. “Isso será como andar na corda bamba”, disse Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, que iniciou a reabertura na semana passada, em entrevista coletiva “Nós precisamos dar um passo de cada vez.”

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é preciso cumprir seis pré-condições para flexibilizar a quarentena. Em resumo, o roteiro diz que, para aliviar as restrições, é preciso ter adotado medidas preventivas, que permitiram o controle do contágio, e ter condições de aplicar testes em massa e capacidade do sistema de saúde para atender a população. A antecipação da reabertura, sem a reversão das curvas de infectados e de mortes, pode levar, segundo a OMS, a uma segunda onda de contaminação até mais forte que a primeira.

No exterior, com raras exceções, a maioria dos países está seguindo o protocolo da OMS. Em geral, as primeiras experiências de reabertura pelo mundo estão se dando em países que alcançaram bons resultados na contenção da pandemia. O relaxamento nas restrições está sendo feito em fases, para ir calibrando o ritmo conforme a evolução dos casos, levando em conta também, algumas vezes, as diferenças regionais (leia o texto acima).

Para deflagrar o processo de alívio na quarentena, o ideal, de acordo com recomendações de epidemiologistas, é que ele esteja baseado em dados sólidos, que permitam uma visão relativamente precisa do quadro.

O problema é que, no Brasil, faltam números confiáveis. Muitos analistas dizem haver uma subnotificação significativa de casos, tanto de contaminação quanto de morte, em razão da falta de testes. Além disso, as curvas de contágio e mortes ainda não mostram sinais de queda nas notificações.

Mas, apesar de navegar na escuridão, o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, anunciou que deverá apresentar nesta semana um guia para nortear a flexibilização da quarentena no País, para evitar que cada Estado e cada município adotem uma receita própria.

“Se o melhor para a sociedade for o isolamento, é o que vai ser”, afirmou Teich na semana passada. “Se puder flexibilizar, dando uma autonomia e uma vida melhor para as pessoas, e isso não influenciar na doença, é o que vou fazer”, disse o ministro.

Como o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que os Estados têm autonomia para adotar medidas contra o coronavírus, porém, o roteiro deverá servir apenas como referência. De qualquer forma, com a falta de protocolo nacional para reger o isolamento e promover a reabertura no País, já será um avanço.

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