REUTERS/Francis Mascarenhas
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Nocauteada pela covid, Índia não consegue cumprir a promessa de 'salvar a humanidade' na pandemia

O Serum Institute prometeu proteger o país do coronavírus e inocular os pobres do mundo, mas a crise forçou uma mudança de planos

Emily Schmall e Karan Deep Singh, The New York Times

10 de maio de 2021 | 11h00

NOVA DELHI - Adar Poonawalla fez grandes promessas. Aos 40 anos, o chefe do maior fabricante de vacinas do mundo prometeu assumir um papel de liderança no esforço global para inocular os pobres contra a covid-19. Seu império baseado na Índia assinou acordos no valor de centenas de milhões de dólares para produzir e exportar doses para países em sofrimento.

Mas essas promessas se desfizeram. Envolta em uma segunda onda de coronavírus, a Índia está reivindicando as vacinas do instituto. Outros países e grupos de ajuda agora estão correndo para encontrar doses escassas em outros lugares.

Dentro do país, os políticos e a população vêm censurando Poonawalla e sua empresa, o Serum Institute of India, por aumentar os preços em meio à pandemia. O Serum teve problemas de produção que o impediram de expandir a produção em um momento em que a Índia precisa de cada dose. Poonawalla foi criticado por partir para Londres em meio à crise, embora tenha dito que era apenas uma viagem rápida. Ele disse a um jornal britânico que recebeu ameaças de políticos e de alguns dos “homens mais poderosos” da Índia, exigindo que ele lhes fornecesse vacinas. Quando retornar à Índia, viajará com guardas armados designados pelo governo.

Em entrevista ao New York Times, Poonawalla defendeu sua empresa e suas ambições. Não havia escolha a não ser entregar as vacinas ao governo, disse. Ele citou a falta de matéria-prima, a qual atribuiu parcialmente aos Estados Unidos. A fabricação de vacinas, disse, é um processo trabalhoso que requer investimentos e grandes riscos. Ele disse que voltaria à Índia quando concluísse seus negócios em Londres. E ignorou seus comentários anteriores sobre as ameaças, dizendo que não eram “nada que não possamos enfrentar”.

Mas ele também reconheceu que o Serum Institute sozinho não tem capacidade para vacinar a Índia tão cedo, muito menos arcar com o fardo de inocular os pobres do mundo.

“O problema é que ninguém correu o risco que eu corri no início”, disse ele. “Eu gostaria que outros tivessem corrido esse risco”.

Sua posição representa uma reviravolta dramática para o Serum e o governo indiano. Em janeiro, quando a Índia lançou seu próprio programa de vacinação enquanto também iniciava as exportações, o primeiro-ministro Narendra Modi prometeu que suas vacinas “salvariam a humanidade”.

Em vez disso, o desenrolar da tragédia deixou claro que a Índia - mesmo com o maior fabricante de vacinas do mundo à sua disposição - não conseguiu salvar a si mesma.

As perspectivas de vacinação de longo prazo da Índia melhoraram depois que o governo Biden, na quarta-feira, apoiou a renúncia à proteção de propriedade intelectual para vacinas, o que pode facilitar sua produção pelas fábricas indianas. Ainda assim, isso não ajudará na atual crise da Índia, que até sexta-feira havia ceifado mais de 230 mil vidas - um número que provavelmente representa uma grande subnotificação.

O Serum ganhou a simpatia de Modi em parte porque se encaixa na narrativa do governo de uma Índia autossuficiente e pronta para ocupar seu lugar entre as maiores potências do mundo. Agora, tanto o governo Modi quanto o Serum foram humilhados e suas ambições estão sendo questionadas.

“Nossa capacidade é extremamente fraca”, disse Manoj Joshi, membro da Observer Research Foundation em Nova Delhi, que se concentra na formulação de políticas indianas. “Somos um país pobre. Espero que possamos trazer um pouco de humildade para o sistema”.

Uma década atrás, Poonawalla assumiu as rédeas do Serum Institute das mãos de seu pai, Cyrus, um criador de cavalos que se tornou bilionário com vacinas. Antes da crise, ele era elogiado na mídia indiana como exemplo de uma nova classe de jovens empreendedores globais. Fotos dele e de sua esposa, Natasha, eram uma referência nos cadernos de moda.

No ano passado, o Serum fechou um acordo com a AstraZeneca para produzir 1 bilhão de doses de sua vacina Oxford-AstraZeneca - chamada de Covishield na Índia. O Serum recebeu uma doação de US$ 300 milhões da Fundação Gates para fornecer até 200 milhões de doses de Covishield e outra vacina em desenvolvimento para a Gavi Alliance, a parceria público-privada que supervisiona o Covax, o programa de doação de vacinas a países pobres.

Entre janeiro e março, o Serum se comprometeu a vender cerca de 1,1 bilhão de doses de vacinas nos próximos meses, de acordo com uma análise dos acordos de compra fornecidos pelo Unicef. Quando a Índia em grande medida interrompeu as exportações de vacinas, o Serum havia exportado apenas cerca de 60 milhões de doses, cerca da metade para a Gavi. A Índia reivindicou mais de 120 milhões.

O mundo está lutando contra o efeito cascata. Um porta-voz da Gavi disse que a decisão da Índia de priorizar as “necessidades domésticas” está desencadeando “um efeito dominó em outras partes do mundo que precisam desesperadamente de vacinas”. Ainda assim, em um sinal da falta de opções para obter imunizantes, a Gavi fechou nesta quinta-feira um acordo de compra com a empresa americana de vacinas Novavax que inclui doses a serem fabricadas pelo Serum.

O Nepal, vizinho da Índia ao norte, mudou sua lei de compras para pagar ao Serum um adiantamento de 80%, ou cerca de US$ 6,4 milhões, para comprar 2 milhões de doses de Covishield. O Serum administrou o primeiro milhão de doses, mas está oferecendo ao Nepal seu dinheiro de volta pelo segundo milhão, disse o diretor do departamento de saúde do Nepal, Dr. Dipendra Raman Singh. O Nepal recusou, na esperança de obter mais doses, pois a catástrofe indiana vem atravessando a fronteira.

Alguns dos problemas indianos foram provocados pelo próprio país. A Índia está fabricando apenas duas vacinas, a Covishield do Serum e um imunizante desenvolvido nacionalmente. Um acordo do governo para produzir a Sputnik V da Rússia na Índia ficou emperrado na burocracia. Se outros fabricantes tivessem começado antes, disse Poonawalla, o Serum não enfrentaria tanta pressão.

Poonawalla também citou o fornecimento de matérias-primas. Em abril, ele pediu ao presidente Joe Biden no Twitter para “levantar o embargo” à matéria-prima usada para fazer as vacinas contra a covid-19. Funcionários da Casa Branca disseram que Poonawalla caracterizou erroneamente sua situação. Ainda assim, os Estados Unidos disseram que enviariam matéria-prima para o Serum Institute aumentar sua produção de vacinas, embora Poonawalla afirme que os insumos ainda não chegaram.

Poonawalla também está sob escrutínio por cobrar preços diferentes do governo central, dos estados da Índia e dos hospitais privados. Duas semanas atrás, o Serum disse que cobraria dos governos estaduais cerca de US$ 5 por dose, US $ 3 a mais do que cobra do governo de Modi.

Na semana passada, após críticas, Poonawalla baixou o preço para US$ 4. Ainda assim, os críticos apontam para uma entrevista em que Poonawalla disse que estava lucrando mesmo com o preço cobrado do governo central.

Poonawalla disse que o Serum podia vender a um preço mais baixo ao governo central da Índia porque este estava encomendando volumes maiores.

“As pessoas não entendem”, disse Poonawalla ao New York Times. “Elas simplesmente veem as coisas isoladamente e depois difamam você, sem perceber que essa mercadoria é vendida a US$ 20 a dose no mundo e que a fornecemos a US$ 5 ou US$ 6 na Índia. As críticas e reclamações não têm fim”.

Sua presença em Londres só alimentou os críticos, que reclamam dos aumentos de preço do Serum. Sunil Jain, o editor-chefe do jornal The Financial Express, twittou que a partida de Poonawalla para Londres foi “vergonhosa” e que ele deveria reduzir os preços.

O Serum Institute está planejando uma grande expansão na Grã-Bretanha, investindo quase US$ 335 milhões em pesquisa e desenvolvimento para financiar testes clínicos, construir seu escritório de vendas e possivelmente construir uma fábrica, disse o escritório de Poonawalla.

“Todos dependem de nós para fazer esse milagre com uma capacidade quase infinita”, disse Poonawalla. “Há uma pressão tremenda dos governos estaduais, dos ministros, da população, dos amigos, todo mundo quer a vacina. E estou só tentando distribuí-la da maneira mais equitativa que consigo”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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