Paul Rogers/The New York Times
Paul Rogers/The New York Times

Falando sobre tontura

Embora a grande maioria dos pacientes atendida não tenha um problema sério, os médicos devem estar sempre alertas para uma doença grave

Jane E. Brody, The New York Times

06 Março 2017 | 08h59

A tontura não é uma doença, mas, sim, um sintoma que pode resultar de uma enorme variedade de distúrbios subjacentes ou, em alguns casos, pode nem mesmo ter uma causa específica. Determinar sua causa com rapidez, a melhor forma de tratá-la, ou mesmo se é o caso de deixar que passe sozinha, pode depender do quanto o paciente é capaz de descrever exatamente seus sintomas durante um episódio de tontura e as circunstâncias nas quais ela geralmente ocorre.

Por exemplo, recentemente tive um ataque bastante assustador de tontura, acompanhado de náusea, em um evento de degustação de alimentos e bebidas, onde comi muito mais do que estou acostumada. De repente, sentindo que poderia desmaiar a qualquer momento, me deitei em uma varanda por aproximadamente 10 minutos até as sensações desconfortáveis passassem, depois do que me senti completamente normal.

Na manhã seguinte, fiz uma busca do meu sintoma na internet - tontura após comer - e descobri que a condição tinha um nome: hipotensão pós-prandial, uma queda repentina da pressão arterial quando o sangue é desviado para o sistema digestivo, deixando o cérebro relativamente pouco irrigado. A condição mais frequentemente afeta adultos mais velhos que podem ter um transtorno associado como diabetes, hipertensão ou mal de Parkinson, que impede que o corpo mantenha a pressão sanguínea normal. Felizmente, até agora fui poupada de transtornos ligados a esse sintoma, mas agora tomo cuidado para evitar excessos para que isso não aconteça de novo.

"Um problema essencial é que quase todas as doenças podem causar tonturas", dizem dois peritos médicos que escreveram um livro abrangente: Dizziness: Why You Feel Dizzy and What Will Help You Feel Better. Embora a grande maioria dos pacientes com tontura atendida em clínicas não tenha um problema de saúde grave, os autores, Gregory T. Whitman e Robert W. Baloh, enfatizam que os médicos devem "estar sempre alertas para uma doença grave, como, por exemplo, acidente vascular cerebral, ataques isquêmicos transitórios, esclerose múltipla e tumores cerebrais".

O Dr. Kevin A. Kerber, otoneurologista da Universidade Michigan Health System, me contou que a tontura é um dos sintomas mais comuns encontrados por médicos de ambulatórios e prontos-socorros, tanto quanto a dor nas costas e a dor de cabeça. Ele citou uma pesquisa de saúde nacionalmente representativa, realizada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, em 2008, em que 10% dos adultos disseram ter sentido tontura no ano passado e que haviam sido encaminhados a um especialista em cuidados de saúde por causa do sintoma.

Esses, no geral, descreveram os seguintes tipos de ocorrência: sensação de vertigem ou tudo girando, incluindo a si mesmo ou o ambiente; uma sensação de estar flutuando ou se inclinando; sentir-se tonto, sem capacidade de movimento; sentir-se muito fraco ou como se fosse desmaiar; visão sem foco quando movimenta a cabeça; ou sentir-se desequilibrado.

Como se pode ver, relatar um sintoma simplesmente como tontura não é nada específico. Um grande problema, segundo Kerber, é que o médico tem que decidir qual é o tipo de tontura e determinar se pode haver uma causa particularmente perigosa, como um ataque cardíaco ou um derrame, com base nas descrições muitas vezes não confiáveis dos pacientes.

As pessoas usam a palavra tontura quando se referem à instabilidade, intolerância de movimento, desequilíbrio, sensação de flutuação ou de inclinação. A vertigem, um subtipo de tontura, é uma ilusão de movimento causada por recepções irregulares do sistema vestibular do ouvido interno, que proporciona uma sensação de equilíbrio e orientação espacial. Em 2011, cerca de 3,9 milhões de pessoas visitaram prontos-socorros com sintomas de tontura ou vertigem.

"Os pacientes em geral não são muito específicos ao descrever seus sintomas. Eles deveriam levar um tempo pensando sobre o assunto antes de ver o médico", disse Kerber.

Os fatores a se considerar, disse ele, incluem: a tontura ocorre em episódios ou é constante? O que parece desencadeá-la, determinadas posições ou alimentos? Quanto tempo dura o sintoma? O que acontece com o passar do tempo - ela piora, permanece a mesma ou melhora?

Observe, também, se as sensações pioram quando você caminha, levanta ou move a cabeça. Os episódios são acompanhados de náuseas e ocorrem de repente e severamente, forçando-o a se sentar ou se deitar?

Os membros da família ou amigos que prestarem atenção às queixas podem contribuir para um diagnóstico rápido e correto, de acordo com os autores do novo livro. Whitman é especialista em otoneurologia no Massachusetts Eye and Ear Infirmary, e Baloh é diretor da clínica de otoneurologia e do laboratório de testes do centro médico da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Duas das causas mais comuns da tontura são acionadas com mudanças de posição. Uma é chamada de hipotensão ortostática - um fluxo reduzido de sangue no cérebro que ocorre quando a pessoa se levanta de uma posição sentada ou deitada, e que desaparece quando ela se deita.

A segunda, chamada vertigem posicional paroxística benigna, ou VPPB, não é exatamente benigna, segundo Kerber. É causada por uma mudança na posição de cabeça, por exemplo, se virar na cama ou inclinar a cabeça para trás enquanto se está sentado ou em pé (chamada "vertigem da prateleira"). A pessoa pode sentir que o mundo está se movendo ou girando ou que um objeto na sala está pulando ritmadamente.

A vertigem é uma das causas de tontura mais incapacitantes. "Ela surge quando partículas minúsculas de cálcio no ouvido interno são desalojadas do órgão de equilíbrio e ficam presas no canal semicircular, onde podem causar estragos", explicou Kerber.

Quando a cabeça é movida, as partículas se deslocam e acionam um nervo ligado aos olhos, fazendo com que se mexam, causando tonturas. Quando as partículas se acalmarem, os olhos relaxam e a tontura passa.

A vertigem posicional paroxística benigna pode ser causada por uma pancada na cabeça ou ser resultado do envelhecimento.

"Cerca de uma em cada cinco pessoas com mais de 80 anos desenvolverá a VPPB", escreveram os autores.

Ela também pode afetar pessoas mais jovens, especialmente as que já têm enxaquecas, ou que vão desenvolvê-la.

A vertigem pode ser uma condição incapacitante que dura semanas, meses ou mesmo anos. Os afetados muitas vezes não conseguem trabalhar, dirigir ou andar sem cair.

No entanto, a VPPB geralmente responde a um tratamento com a manobra de Epley, uma sequência de movimentos que reposiciona a cabeça e coloca as partículas errantes no lugar certo. A manobra é frequentemente realizada por um profissional de saúde, mas os pacientes podem aprender a fazê-la por conta própria, caso a vertigem ocorra de novo.

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