Falta insulina para diabéticos no ABC paulista

Só nesta semana a aposentada Lurdes Peralta, de 55 anos, que recebe um salário mínimo por mês e sobrevive com a ajuda de sua mãe, gastará R$ 300 com insulina. O motivo: desde o final de setembro faltam insulina e insumos, como fitas reagentes para controlar a diabete tipo 1, na Direção Regional de Saúde (DIR II), em Santo André, onde mora. Isso apesar de Lurdes ter ganho na Justiça o direito de receber o medicamento todos os meses, sem custos. Na mesma situação da aposentada estão pelo menos outros 250 usuários da Associação de Diabetes do ABC, na região metropolitana de São Paulo. São pacientes que precisam de medicamentos específicos, não distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e que entraram com ação judicial contra o governo do Estado, amparados pela lei estadual 10.782/01 - que garante o fornecimento universal de medicamentos e insumos. ?Um tratamento básico pode sair por mais de R$ 500 por mês?, diz o endocrinologista e presidente da Associação de Diabetes do ABC, Marcio Krakauer. Além de dois tipos de insulina, uma de ação rápida e outra de efeito mais lento e constante, Lurdes também recebe fitas reagentes e outros cinco medicamentos para o tratamento de complicações causadas pela doença. ?Com os outros remédios ainda dou um jeito, mas a insulina não tenho como pagar?, diz. A aposentada utiliza as insulinas até nove vezes por dia. As outras opções são reduzir as doses diárias por conta própria ou utilizar outro tipo de insulina, o que em seu caso não tem os mesmos efeitos. ?É um descaso completo?, desabafa. A DIR II é a responsável pelo atendimento dos pacientes de sete cidades do ABC - Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Sem se identificar, a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo entrou em contato com a DIR II, que confirmou a falta dos medicamentos. A funcionária da farmácia da unidade afirmou que espera a chegada das insulinas para esta semana e que pede para os pacientes ligarem todos os dias. Mas a Secretaria Estadual de Saúde, por meio de sua assessoria, nega a situação e alega que, com exceção de um tipo de insulina (cujo fornecimento já teria sido regularizado), não faltam medicamentos nos estoques da DIR II. Enquanto a Direção Regional de Saúde de Santo André e a secretaria não se entendem, as insulinas continuam em falta. ?Vi uma senhora com uma criança portadora de diabete sair de lá chorando?, diz o representante comercial João Bosco da Silva, 55 anos, que utiliza dois tipos de insulina em seu tratamento. Medicamento Indispensável A insulina é o principal medicamento utilizado no controle da diabete tipo 1. Ela é a reprodução artificial do hormônio responsável pela redução da glicemia (taxa de glicose no sangue). Tipos distintos de insulina atuam de formas diferentes. A mais comum, disponível nas unidades básicas de saúde (UBSs) atinge seu pico de ação após oito horas da aplicação. Já as de ação rápida agem 15 minutos depois da aplicação e atingem maior eficácia em até duas horas. Existe ainda a de ação mais lenta e constante. Alguns pacientes precisam desses dois tipos de insulina para estabilizar seus níveis de glicose. Krakauer alerta que a troca por outros tipos de insulina pode ser arriscada: ?Pode provocar infecções e sintomas da doença que estavam sob controle?. A falta do remédio pode causar problemas cardíacos, glaucoma, insuficiência renal e deficiências circulatórias. ?Isso é um caso de polícia, estão descumprindo uma ordem judicial?, diz Krakauer.

Agencia Estado,

23 de outubro de 2006 | 09h48

Tudo o que sabemos sobre:
notícia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.