Falta o chão com o diagnóstico, mas o câncer não é uma sentença de morte
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Falta o chão com o diagnóstico, mas o câncer não é uma sentença de morte

“Me faltou o chão.”

Gilmara Santos, Estadão Blue Studio

27 de julho de 2021 | 07h30

“Me faltou o chão.” Essa é a primeira sensação quando se descobre um câncer e comigo não foi diferente. O diagnóstico de um câncer de mama veio 45 dias depois de enterrar o meu pai vítima de um tumor no pulmão e oito meses depois da morte do meu tio, irmão do meu pai, com a doença no estômago.

Era madrugada do dia 14 de novembro de 2019, véspera de feriado, quando recebi a mensagem da minha ginecologista: você precisa procurar um mastologista. Como assim, estou com câncer? A resposta veio por um áudio tentando me tranquilizar que era um tumor em estágio inicial (apenas 0,5 cm). Havia feito a mamografia de rotina no fim de outubro. Como o exame indicou uma alteração, a ginecologista me pediu uma mamotomia (biópsia para diagnosticar câncer de mama). Ela estava saindo de férias, então pediu para eu mandar o resultado por mensagem. Com o fuso horário, a resposta veio de madrugada, com a esperança de que eu só visse pela manhã seguinte. Aquela noite não dormi.

Será que também vou morrer? Como vão ficar minha mãe, irmãs, marido? Preciso ver o meu seguro de vida. Quis chorar, gritar, mas não tinha tempo para isso. Falei tanto para o meu pai ser forte, como que eu ia fraquejar? Depois do susto, era hora de lutar. Passei a madrugada pesquisando sobre o carcinoma e quando meu marido acordou, por volta das 8h, eu já estava pronta para a batalha. Vamos para o hospital! Queria fazer a consulta e iniciar o tratamento logo, mas era feriado, uma sexta-feira, e só consegui agendar com o especialista na segunda-feira.

De fato, o tumor estava em estágio inicial e a chance de cura era alta. Teria que fazer um quadrante (cirurgia para tirar a parte afetada pela doença) e 15 sessões de radioterapia. Como era fim de ano, poderia até marcar a operação para depois das festas, mas, se tem que fazer, vamos logo. Dia 17 de dezembro fiz a primeira cirurgia. Com parte do tecido mamário ainda comprometida, foi necessário uma segunda operação. Antes, os médicos acharam prudente fazer alguns exames genéticos devido ao histórico familiar.

Felizmente, não era genético, mas uma infecção na mama promoveu o adiamento da nova cirurgia, que acabou sendo feita só em abril, no auge da pandemia.

No dia 16 de julho de 2020, oito meses depois do diagnóstico, veio a notícia mais esperada: você está curada. Alívio. Ainda faço acompanhamento semestral (confesso que cada consulta dá medo) e tenho que tomar receptor hormonal por cinco anos, mas a doença já faz parte do passado.

Apesar de o diagnóstico ser assustador, ter câncer não é uma sentença de morte e, quanto mais cedo é descoberto, maiores são as chances de cura. “É natural que venha sensação de morte e, por mais que o médico diga que tem um tratamento, é difícil absorver todas as informações”, diz a médica Raquel Bussolotti, diretora de Operações do A.C. Camargo. 

A professora de educação física Paula Arcuri, 57, descobriu um câncer no reto no fim de 2019 depois de uma colonoscopia de rotina. “O exame não deu nada, mas uma semana depois comecei a ter sangramento e refiz”, diz Paula. O resultado seguinte detectou o tumor. Como o pai e o avô tiveram câncer, o médico sugeriu que a irmã também fizesse uma bateria de exames. “Ela estava com câncer de mama.”

Uma dando força para a outra, as irmãs iniciaram o tratamento contra a doença. “Continuei praticando atividade física e fiz todo o preparo para a cirurgia como se fosse um campeonato”, diz Paula, que foi jogadora de vôlei. Depois da quimioterapia, a médica aconselhou que ela tirasse o reto e a irmã, a mama. Hoje ela usa uma bolsa de colonoscopia e a irmã ainda aguarda a reconstrução da mama, mas elas estão bem e planejando o futuro. “Quero ir para a Disney assim que a pandemia passar.”

De onde vem a força?

Quando se tem o diagnóstico de um câncer, muitas pessoas encontram forças e não se sabe onde para encarar o tratamento. Cirurgia, quimioterapia e radioterapia têm um impacto psicológico gigante ao mesmo tempo que mexe com todo o metabolismo. 

Basti Ângela Oliveira, 33 , encontrou na filha recém-nascida a força para seguir com o tratamento, mesmo com cinco resultados seguidos da doença. Ela começou a perceber um inchaço anormal no joelho ainda durante a gravidez, mas os médicos consideraram que passaria depois do parto. Não passou e os exames mostraram um tumor no osso. Depois desse primeiro tratamento,  Ângela teve outros quatro diagnósticos de câncer. “Minha fé e vontade de ver minha filha crescer foram fundamentais para vencer os dias mais difíceis.”

Hoje, 10 anos depois do primeiro diagnóstico, Ângela voltou a trabalhar e se prepara para retomar os estudos no ano que vem: vai cursar Psicologia para tratar pacientes oncológicos.

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