WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Falta segunda dose da AstraZeneca em metade dos postos da cidade de SP

No total, 240 dos 468 postos estão sem essas doses, segundo informações do secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido. Prefeitura cobra Estado e o Ministério da Saúde para tentar resolver a situação

Mariana Hallal e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 11h37
Atualizado 09 de setembro de 2021 | 20h18

Metade das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da cidade de São Paulo está sem vacina da AstraZeneca para aplicação da segunda dose nesta quinta-feira, 9. No total, 240 dos 468 postos estão sem essas doses, segundo informações do secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido. O estoque atual do município é de cerca de 37 mil doses, o que não é suficiente para abastecer todas as unidades.

Aparecido diz que entrou em contato com o governo do Estado e com o Ministério da Saúde para resolver a situação. Até o momento, não há previsão de novas entregas à cidade. "Ontem (quarta-feira) a gente conseguiu remanejar doses entre as unidades, mas hoje não dá mais", fala o secretário.

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde afirma que o ministério deveria ter enviado cerca de um milhão de doses até o dia 4 de setembro para suprir a demanda por segunda dose, mas não mandou. "O não envio destas doses descumpre uma obrigação do Ministério da Saúde das vacinas necessárias à imunização complementar das pessoas que já tomaram a primeira dose", diz trecho da nota.

Já o Ministério da Saúde diz que antecipou ao Estado o envio de 315,5 mil de doses de AstraZeneca no dia 1º de setembro. Segundo a órgão, as doses estavam previstas para serem entregues até 30 de setembro e são destinadas a segunda dose. "A Pasta reforça que não garantirá doses para estados e municípios que adotarem esquemas vacinais diferentes do que foi definido por representantes da União, estados e municípios no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (PNO)", diz a nota enviada pelo ministério.

De acordo com o portal "De Olho Na Fila" da Prefeitura de São Paulo, que mostra a disponibilidade de doses nos pontos de vacinação, todos os drive-thru estão sem a vacina da AstraZeneca. Os postos montados em parques também não possuem o imunizante. Para conferir quais locais ainda possuem AstraZeneca basta acessar o portal da prefeitura, selecionar o posto desejado e clicar em "disponibilidade 2ª dose". 

Questionado sobre a possibilidade de aplicar uma dose de Pfizer em quem recebeu a primeira de AstraZeneca, Aparecido diz que essa poderia ser uma saída viável se houvesse Pfizer em abundância. No momento, esses imunizantes estão sendo usados na vacinação de adolescentes, que têm aderido fortemente à campanha.

A auxiliar de financeiro Lilian Carla Cassila, de 54 anos, foi informada na entrada da UBS Humberto Pascale, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, de que a vacina da AstraZeneca estava em falta no fim da manhã desta quinta-feira, 9. Moradora de Itaquaquecetuba, na região metropolitana, ela primeiro tentou tomar a segunda dose no município onde mora, mas não encontrou. 

Foi, então, para uma UBS na Vila Formosa, zona leste de São Paulo, onde o imunizante também estava em falta. Até parar na Barra Funda, sem conseguir a segunda dose. "Fiz uma via-sacra", reclamou.

A falta da vacina vai atrasar a imunização completa. "Para a gente que trabalha, é complicado ficar procurando", disse ela, que desistiu de tomar a segunda dose nesta quinta porque precisava voltar ao serviço. Na UBS Humberto Pascale era grande o movimento de pessoas que buscavam a AstraZeneca, mas tinham de dar meia-volta. 

O autônomo Douglas Rodrigues, de 53 anos, chegou a ir a uma UBS em Santana, na zona norte, onde mora, mas não encontrou a vacina. Lá, foi orientado a olhar pelo site do filômetro, da Prefeitura de São Paulo, para saber onde o imunizante da AstraZeneca estaria disponível. Apesar de o serviço indicar que havia a vacina na UBS da Barra Funda, quando Rodrigues chegou o imunizante já havia acabado. 

"Espero não perder a proteção (contra a covid-19)", disse ele, que planejava voltar a procurar o imunizante amanhã. Na porta da UBS na Barra Funda, Marta Vilas Boas, de 53 anos, estava indignada com a escassez da vacina. Desde quarta-feira, ela procura a AstraZeneca em postos de São Paulo, mas não encontra. Disse já ter ido em cinco unidades, orientada pelo filômetro, sem conseguir completar a imunização. 

"Não tem em lugar nenhum. Isso é um descaso. Fui em vários postos", criticava ela, enquanto esperava um Uber para deixar da UBS. A vacina acabou no posto por volta das 10 horas desta quinta-feira e, segundo funcionários, não havia previsão de reabastecimento. 

Dados do Ministério da Saúde compilados pelo Estadão por meio da plataforma Base dos Dados mostram que 137 mil pessoas deveriam receber a segunda dose da vacina entre esta quinta-feira e a sexta. Este é o número de vacinados com a primeira dose nos dias 17 e 18 de junho, há exatamente 12 semanas. Os números ainda não foram confirmados pela Secretaria Municipal de Saúde.

As informações são oficiais e disponibilizadas pelo próprio ministério. No entanto, o preenchimento é de responsabilidade das gestões locais e é feito manualmente. Por isso, pode haver divergência entre os números encontrados pela reportagem.

O desabastecimento de AstraZeneca já estava no radar de gestores estaduais e municipais e esse cenário se tornou mais factível com os atrasos na entrega do imunizante anunciados pela Fiocruz na semana passada.

Estado diz que cobrou doses do governo federal

A Secretaria Estadual de Saúde afirma que cobrou do governo federal o envio de quatro milhões de doses para suprir a demanda de setembro e outubro. O ofício, segundo o Estado, foi enviado no dia 2 de setembro.

"Caso o Governo Federal não tenha disponibilidade de mais remessas da AstraZeneca, o Estado aguarda envio imediato do quantitativo da Pfizer para suprir esta demanda e concluir os esquemas em conformidade com a solução de intercambialidade indicada pelo próprio PNI (Programa Nacional de Imunizações) do Ministério da Saúde", pede a gestão estadual.

Em novo comunicado enviado ao Estadão, o ministério afirma que já repassou ao Estado 12,4 milhões de doses da AstraZeneca referentes à primeira aplicação e outras 9,2 milhões referentes à segunda aplicação. A diferença, cerca 2,8 milhões de doses, segundo a pasta, ainda não foram enviadas porque o intervalo previsto só terminaria no final deste mês.

"Ao contrário do que foi divulgado pelo governo de São Paulo, o Ministério da Saúde não deve segunda dose de vacina covid-19 da AstraZeneca ao Estado de São Paulo", diz a nota. "Dados inseridos por SP no LocalizaSUS mostram que o Estado utilizou como primeira dose vacinas destinadas a dose dois. O estado aplicou 13,99 milhões de dose 1 e 6,67 milhões de dose 2."

A pasta também salienta que o Plano Estadual de Imunização em São Paulo não seguiu o PNI, o que teria causado a falta dos imunizantes. "As alterações nas recomendações do Programa Nacional de Imunizações (PNI) acarretam na falta de doses para completar o esquema vacinal na população brasileira. Por isso, o Ministério da Saúde alerta mais uma vez para que Estados e municípios sigam o Plano Nacional de Operacionalização." / COLABOROU JOÃO KER

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