Andre Penner/AP
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Família de 1º morto por coronavírus diz não ser monitorada; pai e dois irmãos estão internados

Parentes relatam não ter feito teste para a doença; porteiro de 62 anos, que morreu na segunda, tinha diabete, era flamenguista e não tinha filhos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2020 | 21h06

SÃO PAULO - A família da primeira vítima do novo coronavírus no Brasil reclama da falta de acompanhamento do governo e da rede privada que administra o hospital onde ele ficou internado. Parentes que tiveram contato com o porteiro aposentado de 62 anos, que morreu na segunda-feira, 16, informam que não fizeram testes sobre a contaminação pela doença.

Na casa no Paraíso, zona sul de São Paulo, onde ele morava, viviam mais cinco pessoas: pai, mãe e outros três irmãos. A vítima era um porteiro aposentado, que morreu na última segunda-feira. Hoje, estão internados o pai, de 83 anos, e dois irmãos, uma mulher de 60 e um homem de 61 anos. Os três apresentaram problemas respiratórios, como tosse, febre e falta de ar.

O patriarca está no Hospital Sancta Maggiori, que pertence à rede PreventSenior, na região do Itaim. Seu estado é grave em função da idade, diabetes e problemas renais. Os irmãos estão em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Hospital do Servidor Público Municipal. Os resultados dos testes dos três devem ficar prontos nesta sexta-feira.

Há uma preocupação adicional da família com os familiares que não foram internados. A mãe, de 82 anos, chegou a ser hospitalizada na rede privada, mas foi liberada no mesmo dia após um exame de tomografia não detectar os sintomas da doença. Hoje, ela está em casa, em quarentena, sem apresentar sintomas, tomando analgésicos. Está desolada com parte da família no hospital e diz para todo mundo ficar em casa e se prevenir.

A família afirma que não há acompanhamento da mãe e, além disso, os outros dois irmãos não fizeram testes para identificar o vírus. Todos tiveram contato com a vítima. “A mãe e os dois irmãos não estão tendo acompanhamento nenhum. Não há o menor suporte. São os próprios familiares que estão cuidando deles”, diz o advogado Roberto Domingues Junior, que representa a família.

A Secretaria Municipal de Saúde se defende, afirmando que o Hospital Sancta Maggiore não fez a notificação oficial e que, por isso, o órgão não teria como fazer o acompanhamento. Em nota, a pasta diz que determinou “investigação rigorosa para esclarecer por que o Hospital Sancta Maggiore não cumpriu os protocolos do Ministério da Saúde de notificação compulsória dos casos suspeitos de Covid-19”. A Prevent Senior, operadora que administra a rede de hospitais, rebate. “A empresa mantém o atendimento aos seus pacientes de acordo com os critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde como se pôde constatar na inspeção de hoje. Todas as informações relativas à pandemia são diariamente repassadas às autoridades competentes”, diz nota da empresa.

Segundo a família, o porteiro começou a ter mal-estar no dia 10 e procurou um dos hospitais da rede. Ele sentia dores nas pernas, mas não tossia. Sem realizar exames para a covid-19, foi orientado a voltar para casa. Após quatro dias, sem melhoras, procurou o Sancta Maggiore, no Paraíso, zona sul. O paciente chegou à unidade com dificuldade para respirar e febre. Foi internado imediatamente. O quadro piorou. No dia seguinte, os médicos indicaram o comprometimento dos pulmões e o risco de morte. Na segunda-feira, ele morreu.

O porteiro saía pouco de sua casa própria, no Paraíso. Um dos fatores que limitava sua mobilidade eram os problemas de circulação nas pernas. Sofria de hipertensão, trombose, diabete e erisipela, infecção da pele causada por bactérias que entram por ferimentos da pele. Para minimizar as dores, passava boa parte do tempo com meias especiais.

As suspeitas iniciais da família em relação à causa da morte foram os problemas já existentes. Ninguém imaginou se tratar de coronavírus. Amigos afirmam que a família descobriu o motivo da morte pela imprensa. Mas as suspeitas de que havia algo errado começaram a surgir quando o caixão foi lacrado. A transmissão foi confirmada como comunitária, ou seja, quando não é possível identificar a trajetória da infecção. Para um dos vizinhos, ele pode ter contraído a doença no contato com moradores do condomínio onde trabalhava e que haviam retornado de viagem do exterior.

O porteiro era descrito como educado, atencioso e discreto. Gostava de falar de futebol, especialmente do Flamengo, time que ganhou tudo no ano passado e que o enchia de orgulho. Mas adorava mesmo eram os jogos e apostas de todo tipo. Estudava combinações e probabilidades. O único passeio que fazia com regularidade era até a lotérica para apostar Megasena. Nunca teve grandes prêmios, mas não perdia a fé. Divorciado e sem filhos, o porteiro tinha no jogo uma de suas poucas paixões.  

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