Andre Penner/AP
Andre Penner/AP

Família fica um dia inteiro sem saber de morte de aposentado

Homem de 77 anos estava internado em hospital da operadora Prevent Sênior e tinha histórico de doenças

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 05h00

Em meio à lotação da rede de saúde privada Prevent Sênior, onde cinco pessoas já morreram pelo novo coronavírus, a família de um engenheiro aposentado, de 77 anos, que teve a morte confirmada por covid-19, ficou um dia inteiro sem saber a causa do óbito, pois não foi avisada pelo hospital. Ele morreu às 22 horas da segunda-feira e, só na visita da terça-feira, quando os parentes já estavam com a máscara para ver o familiar no horário de visita, é que souberam do seu falecimento. 

“Não sei se isso está abalando todo mundo, se as pessoas já não pensam mais. Mas não pode ser assim. Tem de ser uma coisa humana”, disse a viúva do aposentado, também idosa, que terá o nome mantido sob anonimato. O engenheiro aposentado já tinha problemas respiratórios passados. Estava internado desde a semana passada e, no dia 15, foi transferido para o Hospital Sancta Maggiore, da Avenida Maestro Cardin, na Bela Vista. 

“Pediram para eu transferir para o Sancta Maggiore da Maestro Cardin, que eles tinham separado o quarto e o quinto andar para doenças de pulmão”, afirmou a viúva. Na unidade, havia regras restritas de visita. Era só um horário por dia, à noite, e limitado a apenas uma pessoa. “Fui com minha enteada, e disse para ela ‘você sobe e vai ver seu pai’. Ela subiu. Ele estava entubado e sedado. Ela desceu lá pelas 20h30. E fomos embora”, recorda. 

“No dia 17, fui com o filho dele, chegamos às sete e pouco. Disse para ele ‘agora você sobe. Ontem foi sua irmã’. Quando fomos fazer a ficha (para subir), e o nome dele já não constava no sistema.”

Após uma conversa com funcionários, viúva e filho do aposentado, um advogado, subiram ao andar onde o paciente estava. Fizeram todo o procedimento para a visita, sem saber de nada. “Lá, vestimos máscara, luva, avental. Esperamos. Demorou. Então chegaram dois médicos, se desculparam pela demora, que tinham pegado o plantão às 19h, e começaram a ler o prontuário. No meio, falaram do óbito”, disse a viúva, que chora ao relatar a história. “Eu falei: ‘Mas ele morreu?’ E ele (um dos médicos) respondeu: ‘Morreu’.”

O aposentado havia morrido pouco depois do horário de visita do dia anterior. “Se tivessem falado, teríamos voltado”, lamenta a viúva, ainda chorando. O choque foi tamanho que ela afirmou não saber o que foi feito com o corpo, que ficou a noite e o dia seguintes ao óbito no hospital, sozinho.

“Meu telefone não tinha nenhum registro de ligação. Tinha dito para me procurarem”, contou a viúva. No próprio hospital, funcionários deram os papéis necessários para o enterro e a emissão do atestado de óbito. O documento cita a suspeita de infecção pelo coronavírus. Ninguém da família foi orientado a cumprir quarentena. O corpo foi levado para o interior do Estado, onde foi enterrado na quarta-feira. 

Resposta. Em nota, a Prevent Sênior informou que a empresa “mantém o atendimento aos seus pacientes de acordo com a sua cultura de acolher e cuidar bem das pessoas e com os critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS)”.  Ainda conforme a operadora, “os óbitos atingiram pacientes de alto risco”. 

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