Felipe Rau/Estadão
Ana Paula lamenta não ter podido se despedir da mãe, que trabalhou por 25 anos na área de enfermagem. Felipe Rau/Estadão

Famílias de vítimas da covid-19 revivem dor da morte a cada dia

Com medo de contaminação, parentes evitam fazer visitas e agora têm obsessão pela higienização

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 14h00

Em um apartamento de classe média do Paraíso, zona sul de São Paulo, os seis moradores contraíram o novo coronavírus em março. Em uma semana, a família ficou pela metade, pois o pai e dois filhos não resistiram. Um deles era um porteiro aposentado de 62 anos que se tornou a primeira vítima da doença no Brasil no dia 16.

Hoje, a mãe, de 84 anos, e os dois filhos restantes, com média de 60 anos, estão recuperados da doença e tentam recomeçar a vida. Um dos desafios é o noticiário diário que atualiza a dor. Outro drama é a solidão. Pelo medo da contaminação, parentes e vizinhos evitam visitas ao apartamento grande e confortável.

Algumas famílias das primeiras vítimas da covid-19 no Brasil relatam a dor da perda revivida quase diariamente com o avanço da doença. Traumatizadas, elas confessam também medo excessivo de contaminação. Outras observam a trajetória de quem passou como força e inspiração para tentar dar a volta por cima, mas todas lamentam a falta do ritual da despedida. Velórios e funerais de pacientes de covid-19 não são recomendados pelo Ministério da Saúde desde 25 de março.

A enfermeira Ana Paula da Silva conta que a dor mais intensa desse período de quarentena está ligada à falta do adeus para sua mãe, Juraci Augusta da Silva, uma das primeiras profissionais de saúde vitimadas pela doença.

As roupas levadas para a vítima não foram utilizadas e o caixão foi lacrado. Apenas os parentes mais próximos compareceram ao cemitério São Pedro, na zona leste de São Paulo. A última vez que as duas tiveram contato foi no momento da internação. “Não tivemos oportunidade de despedida. Mesmo sendo da área da saúde e entendendo que a morte é um processo natural, sinto muito falta de dizer ‘vai com Deus, fique em paz’”.

Com mais de 25 anos de trabalho na área da saúde, dona Juraci, mineira de Montes Claros, atuava como técnica de enfermagem em um hospital público da zona leste paulistana. Por causa dos seus 72 anos, ela seria afastada por pertencer ao grupo de risco da covid-19. Além disso, era transplantada renal e hipertensa. “Ela deveria ter sido afastada antes. Acho que demoraram um pouco”, protesta a filha. Dona Juraci era uma mulher independente e morava sozinha. Ninguém mais na família se contaminou.

Máscaras em casa

Os três sobreviventes do apartamento no Paraíso seguem à risca as recomendações de isolamento social, pois temem uma nova infecção. O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a reinfecção é uma probabilidade real quando se estudam os outros coronavírus, mas casos comprovados pelo novo coronavírus ainda estão pendentes. “A ideia de que as pessoas criam anticorpos e se tornam imunes depois de infectadas é mais consistente para vírus como sarampo e rubéola, por exemplo. Mas não para os coronavírus”, explica.

Os cuidados com higienização na casa da primeira vítima de covid-19, que antes eram rigorosos, se tornaram quase uma obsessão. O trauma foi tão grande que eles usam máscara até dentro de casa. Embora seja a principal forma de lazer da família, a televisão faz com que as lembranças da tragédia sejam reavivadas frequentemente. “Todas as notícias são sobre isso. A gente não consegue esquecer ou pensar em outra coisa”, diz um dos irmãos, que está desempregado. 

A solidão pesa bastante na casa. Vizinhos contam que perceberam certo distanciamento de alguns familiares. Só os irmãos que vivem em outros endereços levam comida e remédios. 

Parentes da primeira vítima da covid no Rio de Janeiro também se sentem discriminados. “As pessoas pensam que a gente pode transmitir a doença”, disse um sobrinho de dona Cleonice, empregada doméstica de 63 anos que morava em Miguel Pereira e também morreu em março. Ela trabalhou dez anos na mesma casa no Alto Leblon, zona sul da cidade. Depois de cuidar da patroa que voltou com problemas respiratórios da Itália (o teste confirmou que se tratava de coronavírus), ela começou a sentir falta de ar na segunda-feira. Em dois dias, foi hospitalizada, entubada e morreu.

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Pandemia de coronavírus modifica relação das pessoas com o luto

Mudanças na vida cotidiana confundem as diferentes fases emocionais da aceitação da morte, diz professor

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 14h00

A pandemia de coronavírus, marcada pelas atualizações constantes do número de infectados e mortes em várias partes do País e do mundo e pela alteração profunda da vida cotidiana, modifica a relação das pessoas com o luto e confunde as diferentes fases emocionais até a aceitação da morte. Essa é a opinião do psicólogo Marcelo Santos, professor de Psicologia da Universidade Mackenzie Campinas.

“Estágios como negação, depressão, raiva e barganha, que não ocorrem necessariamente nessa ordem, se confundem porque as pessoas revivem a morte diariamente, seja na hora de ligar a TV ou quando alguém fala da pandemia. Com isso, o luto sofre um alongamento e a aceitação pode ficar mais difícil”, diz o especialista.

As teorias citadas por Santos, que dividem a relação com a morte em fases foram desenvolvidas pela psiquiatra suíça Elizabeth Kubler-Ross. Outras teorias apontam um processo dual do luto no qual as ondas (ou oscilações) entre perda e restauração se alternam.

Para Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da USP, o luto, processo de elaboração pela perda de uma pessoa querida que envolve sentimentos de diversas ordens e intensidades, encontra dificuldades adicionais durante a pandemia. Mas existem formas de tentar aliviar a dor. “Velórios e enterros virtuais, atendimento do luto por psicólogos online e projetos de manutenção de lembranças e memórias virtuais são meios que ajudam nesse processo. É uma forma de aliviar a dor no momento”, diz.

A mãe do representante comercial Robson (nome fictício) morreu de covid-19 após dez dias de internação em um hospital particular de São Paulo, o pai foi sozinho reconhecer o corpo e ao crematório. Quando a pandemia passar, ele quer organizar uma missa para celebrar a vida de sua mãe, que tinha 57 anos e nenhuma doença preexistente.

Paralelamente à dor do luto, muitas famílias têm de conviver com o estigma, ou seja, a marca pela morte de parentes. “Essas famílias têm de conviver com a dificuldade da perda e ficam expostos à estigmatização de possível contágio. Elas sofrem duplamente. A verdade é que todos estamos sujeitos ao coronavírus. Aquele que estigmatiza poderá ser estigmatizado”, explica Santos.

O especialista lembra que existem exemplos históricos de estigmatização relacionados às doenças. No livro A Praga, a jornalista Manuela Castro mostra como as pessoas com hanseníase eram colocadas à margem da sociedade em função do perigo do contágio. Entre 1924 e 1962, o Brasil utilizou a internação compulsória de pacientes com hanseníase como forma de controle da doença.

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