DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Famílias do coronavírus vivem luto e incerteza sobre infecção

Mesmo quem perdeu familiar pela covid-19 relata que, sem testes, se isolou por conta própria; e outros ainda buscam a causa do óbito

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2020 | 15h00

A auxiliar de enfermagem Cleide Renata Marques, de 43 anos, tinha medo do coronavírus. A moradora de São Vicente, no litoral paulista, ficava preocupada com sua saúde, a dos filhos, Bruna, Ivan e Vitória, entre 17 e 24 anos, e a do marido, Ivandir Lelis, que está perto dos 70. Havia outro motivo especial para se cuidar: uma gravidez de 13 semanas.

O medo da doença a fez redobrar os cuidados de prevenção, mas não mudou seu jeito de ser. “Ela gostava de ajudar as pessoas. Era enfermeira dentro e fora de casa”, resume Bruna. Além dos plantões no Centro de Referência, Emergência e Internação (Crei), sempre cuidava dos parentes que adoeciam. Familiares disseram acreditar que uma viagem de três semanas a São Paulo para ajudar um parente em dificuldades, por causa de um suicídio, pode ter sido a causa da contaminação pelo coronavírus. Asmática, voltou para casa com febre e problemas respiratórios. Dizia para as pessoas não se aproximarem dela. Depois de dez dias de internação, Cleide morreu há uma semana.

Os médicos do hospital público Guilherme Álvaro, endereço no litoral paulista onde a profissional de saúde ficou internada, recomendaram que a família aguarde a confirmação do teste feito na mãe e, só depois, faça os próprios exames. Sem acompanhamento dos órgãos de saúde, a família decidiu se isolar.

Alguns pontos da história da família de Cleide se repetem com parentes de outras vítimas da pandemia. Além da perda, carregam incertezas e falta de informação. A maioria não recebeu orientação dos órgãos de saúde e decidiu fazer o isolamento por conta própria. Nos poucos casos em que foram realizados testes para identificar se eles também haviam sido infectados, o resultado ainda não chegou.

Essa indefinição traz angústia, por exemplo, para a família da aposentada Maria da Conceição Costa, de 73 anos, que morreu com suspeita de coronavírus em Capão Bonito, interior de São Paulo, há oito dias. “Estamos nervosos, mas o que vamos fazer agora? Não tem ninguém acompanhando”, diz a dona de casa Maria Valdirene Queiróz, nora da vítima.

No bairro de Capoeira Alta, a idosa era conhecida e respeitada como dona Concebenta. Era uma beata, figura rara nos centros urbanos, mas ainda marcante em cidades do interior como Ribeirão Grande, com apenas 7 mil habitantes. Ela vivia com a nora e seu principal passatempo eram os eventos da paróquia que ficava a 500 metros de sua casa. Parentes suspeitam que possa ter contraído o vírus em uma excursão à cidade de Aparecida, no dia 14. Dona Concebenta tinha vários problemas de saúde e tomava seis remédios diferentes.

Telefone. Situação semelhante vive a família do manobrista Antonio Brito dos Santos, de 49 anos, que morreu na segunda-feira, cinco dias depois de sentir febre pela primeira vez. Morador do bairro do Limão, zona norte de São Paulo, foi enterrado na quinta-feira, dia 19, mas a família só recebeu a confirmação do resultado positivo para a doença dois dias depois. A informação foi dada pelo telefone.

A família afirmou que nove pessoas tiveram acesso ao manobrista dentro de casa, além dos colegas de trabalho. Ricardo Brito dos Santos, filho da vítima, disse que ninguém recebeu recomendações. “A única coisa que disseram foi para tomar cuidado, mas em nenhum momento a gente foi chamado para fazer teste de coronavírus ou recebeu orientação de quarentena. A gente fez por conta própria”, disse o filho.

A falta de acompanhamento persiste desde a primeira vítima do coronavírus no Brasil. Mais de dez dias após a morte do porteiro aposentado de 62 anos, registrada no dia 16, parentes que tiveram contato com a vítima informam que não fizeram testes para a contaminação pela doença. Também afirmam que não há acompanhamento.

Na casa no Paraíso, zona sul de São Paulo, onde ele morava, viviam cinco pessoas: pai, mãe e outros três irmãos. Hoje, estão internados o pai, de 83 anos, e dois irmãos, uma mulher de 60 e um homem de 61 anos. Os três apresentaram problemas respiratórios, como tosse, febre e falta de ar. A mãe chegou a ser internada, mas teve alta. Não tem sintomas, mas está em casa, em quarentena.

Divorciado e sem filhos, o porteiro tinha nos jogos – de futebol e de apostas – uma das poucas paixões de sua vida. O único passeio que fazia com regularidade era até a lotérica para apostar na Mega Sena.

Questionados sobre a postura do presidente Jair Bolsonaro, que contrariou as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) ao participar de eventos públicos e aglomerações, os familiares mostraram indignação. “Esse é um momento de tristeza para todo mundo. Deveria ser para ele também”, disse Maria Valdirene. 

Pneumonia. Outra característica comum nos relatos dos familiares das vítimas do coronavírus são as idas e vindas a diversos hospitais e diagnósticos imprecisos. A maioria dos atestados de óbito descreve a causa da morte como pneumonia. 

Foi o que disse uma médica da Assistência Médico Ambulatorial (AMA) da Vila Barbosa, no Limão, na zona norte de São Paulo, para a família de Antonio Brito dos Santos após um exame de raio X. Dois dias depois, ele voltou ao local com falta de ar e foi encaminhado ao Hospital Vila Nova Cachoeirinha, também na zona norte.

“Acredito que omitiram de mim e de outras pessoas que estavam lá, em situação parecida, o que realmente aconteceu”, opina Bruna Marques, filha de Cleide Renata Marques, que também foi diagnosticada com pneumonia aguda e complicações respiratórias.

Depois de vários telefonemas para a Santa Casa de Ribeirão Grande atrás do resultado dos exames feitos em sua sogra, Maria Valdirene afirmou que não vai mais ligar. “O atestado de óbito diz que foi pneumonia. Acho que o resultado de exame do coronavírus nem vai chegar mais. São mais de dez dias”, reclamou.

Alguns familiares têm procurado as redes sociais para expressar sua angústia. Ricardo Brito Junior desabafou em sua página pessoal sobre o falecimento do pai para agradecer o apoio e compartilhar sua indignação. “Infelizmente para eles a causa da morte foi simplesmente 'morte a esclarecer’. Enquanto eu não souber realmente a causa da morte do meu pai, vou continuar nessa luta. O Estado não pode simplesmente não dizer o motivo da morte, ainda mais com toda essa situação de covid-19”, escreveu.

Órgãos de saúde afirmam que  familiares não têm sintomas

As autoridades de saúde da cidade de São Paulo e de outros municípios informaram que os testes de detecção da covid-19 não foram realizados nos parentes das vítimas porque eles não apresentaram sintomas de contaminação por coronavírus. 

De acordo com a Secretaria de Saúde de São Vicente, essa regra se aplicou ao caso dos familiares de Cleide Renata Marques, auxiliar de enfermagem que morreu no domingo.

“A Prefeitura de São Vicente, por meio da Secretaria de Saúde (Sesau), informa que entrou em contato com a família, por telefone, e ninguém relatou qualquer sintoma da doença. Por isso, neste momento, não há indicação para realização de testes. Mesmo assim, a Sesau deixou com a família um número de telefone para que o contato seja feito caso alguém passe a apresentar algum sintoma”, disse em nota enviada ao Estado.

Transmissão. O médico Paulo Olzon, clínico e infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explicou que as doenças infecciosas são mais transmissíveis quando existe quadro clínico. “No padrão aceito hoje, você transmite quando você tem sintomas. Pessoas que não têm sintomas transmitem pouco ou não transmitem a doença”, disse o especialista. “Você precisa de um veículo para passar a doença, como saliva, gotículas no ar depois da tosse ou o calor e a umidade do cumprimento da mão”, disse. 

Olzon acrescentou que o período de incubação, tempo que a pessoa demora para apresentar sintomas, é de 2 a 14 dias. “Geralmente, a transmissão maior é de uma semana a dez dias”, afirmou.

Orientação. No caso dos parentes do manobrista Antonio Brito dos Santos, a Secretaria Estadual de Saúde informou, por meio de assessoria de imprensa, que está seguindo orientações do Ministério da Saúde e dando prioridade aos testes de pacientes que estão hospitalizados.

Para justificar a falta de acompanhamento da primeira vítima do coronavírus no Brasil, a Secretaria Municipal de Saúde afirma que o Hospital Sancta Maggiore, onde o porteiro morreu , não fez a notificação oficial do caso. Por isso, o órgão não teria como fazer o acompanhamento. 

A Prevent Senior, operadora que administra a rede de hospitais, disse que “todas as informações relativas à pandemia são diariamente repassadas às autoridades competentes”.

Parentes da 1ª vítima  do Rio estão assustados

Embora o Estado de São Paulo concentre o maior número de casos de morte por coronavírus no País, os relatos de desinformação e angústia pela demora nos resultados dos exames se repetem em outras cidades. A primeira vítima no Rio de Janeiro foi dona Cleonice, empregada doméstica, de 63 anos que morava em Miguel Pereira. Ela trabalhava havia dez anos na mesma casa no Alto Leblon, zona sul da cidade. 

Na semana passada, foi cuidar da patroa, que voltou com problemas respiratórios da Itália (o teste confirmou que se tratava de coronavírus). Sete pessoas que moram com dona Cleonice fizeram o teste da covid-19 e aguardam o resultado. Todos estão isolados e apreensivos. “A gente vive assustado e com medo”, diz um parente, que prefere não se identificar. 

A família argumenta que o isolamento poderia ter protegido dona Cleonice, mas evita culpar a patroa, que agora está em quarentena. “Foi tudo muito rápido. Não foi a intenção dela”, diz um parente de Cleonice. Os familiares evitam se identificar para não serem vítimas de preconceito no lugar onde vivem. “As pessoas passam a olhar de um jeito diferente, pensando que a gente pode transmitir a doença”, diz um sobrinho.

Distante 125 quilômetros da capital, Miguel Pereira atrai turistas que buscam cachoeiras e lagos, além da tranquilidade de uma cidade do interior. Para os moradores, o maior problema é a falta de empregos. 

Por isso, a empregada tomava dois ônibus e um trem para ir trabalhar na zona sul. Por causa da distância, dormia no emprego em parte da semana. Ela tinha diabete, hipertensão e era obesa, diz a família. 

/ COLABOROU JOSÉ MARIA TOMAZELA

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