Mohd Rasfan/AFP
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Farmácias podem aplicar teste rápido para covid-19; produto é contraindicado para diagnóstico

Medida deve ser aplicada após o sétimo dia de sintomas, quando o corpo já reagiu ao vírus; associação acredita que testes rápidos podem estar disponíveis em 'muitas cidades' dentro de 10 dias

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 12h19
Atualizado 29 de abril de 2020 | 20h32

BRASÍLIA - ­ A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta terça-feira, 28, permissão para farmácias aplicarem teste rápidos para a covid-19. O produto não é recomendado para o diagnóstico da doença, mas serve como ferramenta de auxílio e para verificar se pessoas já tiveram contato com o vírus. 

A decisão da agência passa a valer a partir de publicação da decisão no Diário Oficial da União, o que deve ocorrer nos próximos dias. Mas as farmácias não são obrigadas a realizar o teste.

A Anvisa exige que um profissional treinado esteja presente no estabelecimento para prestar o serviço ao cidadão. O farmacêutico, que é o profissional habilitado, deve seguir um protocolo que inclui desde realizar o controle de qualidade do kit a até mesmo reportar ao Ministério da Saúde os possíveis casos positivos. A Associação Brasileira Redes Farmácias Drogaria (Abrafarma) está finalizando um protocolo padrão de atendimento. 

A Abrafarma também afirmou que os testes rápidos podem estar disponíveis em "muitas cidades" dentro de 10 dias. "Este produto conta com muita demanda global em razão das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para ampliação da testagem. Os fornecedores, a maioria da China, já estão mapeados e (a disponibilidade no País) dependerá muito dos trâmites de importação."

Ainda não há informação sobre o custo médio a ser repassado ao paciente que quiser se testar nas farmácias e drogarias, pois, segundo a Abrafarma, o preço final depende do custo de aquisição dos testes, que é feito em dólar

O teste rápido detecta anticorpos da covid-19 em poucos minutos. Por isso deve ser aplicado após o sétimo dia de sintomas, quando o corpo já reagiu ao vírus. Antes deste período, a chance de "falso negativo" é alta. Se aplicados no tempo errado, testes rápidos - como os doados pela mineradora Vale ao governo federal - podem ter até 75% de chance de erro em resultados negativos para coronavírus.

A OMS não recomenda o uso de testes rápidos para diagnóstico. "É absolutamente contraindicado. Mas é sim (recomendado) para, depois, procurar na população quem já tem anticorpo contra o vírus. Para fazer estudo, sim, é válido", disse Jarbas Barbosa, vice-diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da OMS durante edição desta terça do "Estadão Live Talks".

A resolução aprovada pelos diretores da agência determina que farmácias devem informar a gestores locais sobre os resultados dos exames. “Resultados negativos não excluem infecção. Resultados positivos não devem ser usados como referência absoluta”, disse o presidente substituto da Anvisa, Antonio Barra Torres. O ideal, afirmou, é que exames complementares sejam feitos para confirmar a doença. 

O teste de "padrão ouro" é o RT-PCR, que detecta o material genético do vírus em amostras coletadas, por exemplo, por "swab", um instrumento semelhante a um cotonete usado em vias respiratórias dos pacientes, da nasofaringe e orofaringe. Apesar de preciso, este produto é mais caro e demorado.

"Fazemos hoje em território nacional testes, inclusive em via pública. Não há de se considerar risco de testes em ambiente protegido e sob regramento sanitário", disse Torres.

Segundo integrantes do ministério, há forte pressão do Palácio do Planalto para ampliar o número de testes no País. A Saúde tem sinalizado que pretende aumentar o público-alvo para exames de diagnóstico rápido.

No começo da crise, o Ministério da Saúde recomendava apenas a aplicação de testes rápidos para quem atua na “linha de frente” do combate à covid-19, como profissionais da saúde. Em boletim epidemiológico publicado na última semana, no entanto, o ministério afirma que deseja “progressivamente” incluir idosos, portadores de condições de risco para complicações da covid-19 e a população economicamente ativa na rotina de testagem. A ideia seria também aumentar a “carteira” de curados e imunes à doença que poderiam retornar ao trabalho, dizem integrantes do governo.

Segundo integrantes do governo, a cúpula do Ministério da Saúde chegou a resistir à proposta, mas passou a apoiá-la recentemente. O novo ministro da pasta, Nelson Teich, tem dito que melhorar o grau de informação sobre a doença no Brasil é pilar de sua estratégia de resposta à pandemia, que tem como um dos pontos a saída do distanciamento social, como defende Bolsonaro.

Qualidade

Para o advogado e ex-diretor da Anvisa Renato Porto, o Brasil não pode dispensar comprovações de qualidade dos testes rápidos autorizados para venda no Brasil, mesmo durante a covid-19. Ele cita como essencial a apresentação de certificado de “boas práticas de fabricação”, documento que assegura que o mesmo produto manterá qualidade ainda que fabricado em larga escala.

Porto afirma que o teste rápido é uma ferramenta útil para elaboração de políticas públicas de saúde sobre o novo coronavírus, ao permitir, por exemplo, medir se determinada região já foi exposta à doença. Com estes dados, um governo pode tomar decisões sobre relaxar ou reforçar medidas de isolamento. Ou uma empresa pode avaliar se já é hora de encerrar o home office.

Mas para o diagnóstico de um paciente o produto mais indicado segue sendo o teste RT-PCR, de alta precisão, disse o ex-diretor da agência. “O que falta nesse processo é protocolo de uso de teste rápido. No caso do teste para HIV há regras e treinamento de equipes de saúde. Os profissionais acompanham o paciente, o governo sabe quem são essas pessoas”, exemplificou. / COLABOROU ÉRIKA MOTODA

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