Márcia de Chiara/Estadão
Márcia de Chiara/Estadão

Fechamento de lojas deixa ruas de São Paulo vazias

Pandemia do novo coronavírus paralisa a cidade e muda rotina até dos velórios

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 20h34

Um sentimento de perplexidade e medo tomou conta do paulistano no dia em que a maior metrópole do País quase parou. Quem circulou por São Paulo na sexta-feira, que mais parecia uma tarde de sábado, com trânsito livre, viu várias pessoas caminhando protegidas. Umas usavam máscaras, luvas, outras nem tanto. Mas todas assustadas com o vazio das ruas e com a ameaça do inimigo comum e invisível: o novo coronavírus.

Na rua 25 de Março, o maior polo de comércio de rua da América Latina, que recebe cerca de 400 mil pessoas diariamente, a cena era inacreditável. Lojas de portas fechadas. Só a agência do Bradesco e o McDonald’s funcionavam. Poucas pessoas circulavam pela rua, mas por dever do ofício, como disse um carteiro que não quis ser identificado. “Não consigo entregar a correspondência, os prédios estão fechados”, reclamou, exibindo a mão cheia de envelopes. O vidro de álcool gel que carregava na mochila foi comprado por ele.

Ao longo da rua, funcionários da Prefeitura encarregados de conter a ocupação dos camelôs nem precisavam estar por lá, pois nenhum ambulante foi vender bugigangas. “Não era para estarmos aqui nos arriscando”, disse um fiscal da Prefeitura, sob a condição de anonimato. Mais adiante, na frente de lojas importantes, como Armarinhos Fernando e Clóvis Calçados, por exemplo, homens sentados no meio-fio jogavam conversa fora. Eram profissionais de segurança fazendo o seu trabalho, mesmo com os estabelecimentos fechados.

Consumidor mesmo, o que não falta normalmente na rua 25 de Março, nesta sexta- feira era raro. Uma das poucas consumidoras que circulavam era a influenciadora digital Mannu Macêdo, 28 anos. “Vim aqui comprar máscara, mas está tudo está fechado.” Ela disse que sabia que o comércio não ia abrir, mas tentou porque queria reforçar o estoque de máscara, álcool gel e luvas. “Não sei quanto tempo essa quarentena vai durar.”

O vazio que se vê rua 25 de Março se repete no polo de comércio mais sofisticado de compras do País: o Shopping Iguatemi, na avenida Faria Lima. O primeiro shopping center do País, local de gente que gosta de ver e ser vista, também parou por causa do novo coronavírus. Um cartaz na porta principal indicava o horário reduzido de funcionamento: das 12h às 20h, e só para “operações essenciais”. Isto é, o supermercado e a farmácia.

No entanto, teve gente que foi ao shopping e perdeu a viagem, assim como a influenciadora digital que estava na 25 de Março. Antes do meio-dia, um funcionário do Ministério Público, que não quis ser identificado, aguardava o shopping abrir porque tinha marcado almoço com um amigo no restaurante. Também por desinformação, a fiscal de loja da C&A, Jamile Fernanda Quevedo, de 30 anos, também bateu com o nariz na porta. Na quinta-feira, ela estava de folga e não foi avisada que não haveria expediente. Ficou sabendo que a loja não abriria pela reportagem e pelo segurança do shopping.

Ela, que mora na zona Leste, diz que está “muito assustada” com a situação. “Mas infelizmente não posso faltar no serviço.” Ela conta que está em período de experiência no novo emprego. Faz uma semana que trabalha na C&A, depois de ter ficado cinco meses desempregada.

Raros casos de lojas abertas foram encontrados nesta sexta-feira pela reportagem. Um deles foi a Casa São Jorge, de artigos religiosos na rua Nossa Senhora da Lapa, no bairro da Lapa. Rafael Zatta, funcionário da loja, contou que nem sabia que a abertura do comércio estava proibida por causa da epidemia. “Estou com a minha avó internada no hospital e não me atentei para isso.” Mas, em tempos de pandemia, muitos estão em busca de milagres. Antes do meio-dia, ele tinha feito seis vendas, entre velas e incensos.

Já na rua Teodoro Sampaio, importante corredor comercial de Pinheiros, as poucas lojas de móveis que insistiram em abrir as portas, como a Bazzi, não tiveram sucesso. Os vendedores contam que não tinham vendido nada até o início da tarde e que desde o início da semana os negócios estão parados.

A paradeira também preocupa o vendedor de coco Emmanuel Reyil, de 37 anos, casado e pai de três filhos. Refugiado do Haiti, ele está há cinco anos no Brasil e vende água de coco no Parque do Ibirapuera. Até o início da tarde de sexta-feira, ele tinha vendido 30 cocos. “Com essa quantidade não dá para pagar coco, gelo e comida”, reclamou. O ideal seria vender 50 cocos. Reyil não sabe o que vai ser da sua vida depois que o parque fechar a partir de sábado. O haitiano paga aluguel e sua mulher não está trabalhando.

Frequentador assíduo do Parque do Ibirapuera, o advogado Diego Lima, de 37 anos, foi ontem com a namorada Fabiana Takayama, de 33 anos, dar uma voltinha, porque não aguentava mais ficar dentro de casa. “Esse parque está um marasmo”, disse o advogado, lembrando que a situação é muito ruim para todo mundo. “A economia não vira”. É um cenário preocupante para o pessoal que vende coco e que tem loja. “Estou muito assustado, não quero nem pensar no colapso que vai entrar o País e o mundo.”

A pandemia do novo coronavírus que paralisou São Paulo mudou a rotina até dos velórios da cidade. No cemitério do Araçá, um aviso logo na entrada informava que os velórios só podem durar uma hora e ter até 10 pessoas para evitar aglomerações e contágio do vírus. Ronaldo Albanese, jornalista, usando máscara, foi se despedir de uma tia idosa que morreu por causa de outros problemas, não o novo coronavírus. Enquanto os velórios seguem à risca as determinações das autoridades de saúde, Albanese notou que tem muita gente que não está respeitando nada. “O trânsito está um pouco melhor, mas eu preferia ter um trânsito entupido e não ter o coronavírus.”

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