MARCELO CHELLO / ESTADAO
MARCELO CHELLO / ESTADAO

Feito em só quatro Estados, transplante de pulmão vira esperança de pacientes da covid

Procedimento de substituição é raro – foram 844 de 2011 até o 1º trimestre deste ano; cirurgias tiveram queda de quase 40% na pandemia, mas já foram retomadas

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 09h47

Se um órgão do corpo não funciona nem se recupera com tratamentos convencionais, a ciência tem uma solução radical: a troca do órgão. No Brasil, o procedimento de substituição dos pulmões é raro – foram 844 de 2011 até o 1º trimestre deste ano. Na pandemia, a realização dessas cirurgias teve queda de quase 40%, mas elas já têm sido retomadas – só há centros ativos em quatro Estados. E, neste ano, as operações também se tornaram uma esperança para pacientes que tiveram os pulmões prejudicados pela covid-19

"Estou sendo bem cuidado aqui no hospital", disse Henrique Batista do Nascimento, de 31 anos, que teve os pulmões destruídos pela covid-19 e aguarda transplante bilateral (duplo) dos pulmões no Instituto do Coração do Hospital da Clínicas de São Paulo, um dos quatro centros que fazem a cirurgia.

Conforme a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), os outros centros ativos são o Hospital Albert Einstein, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o Instituto Nacional de Cardiologia, do Rio, e o Messejana, de Fortaleza. A lista de espera, segundo a ABTO, era de 233 pacientes em março deste ano. Essa lista contava com 217 pacientes em março do ano passado, portanto, no começo da proliferação da pandemia no País.

Em entrevista por videoconferência ao Estadão, ele lembrou que foi infectado há mais de quatro meses e espera a doação de órgãos num quarto do 8º andar do prédio do Incor, região oeste da capital paulista.

Já curado do vírus, Nascimento sobrevive respirando com a ajuda do ECMO, uma máquina que oxigena seu sangue e que também foi usada pelo ator Paulo Gustavo, que morreu em maio de covid. Uma traqueostomia impede Nascimento de emitir o som da voz, mas a estudante de psicologia Thaynan Soares Gil, voluntária do programa de visitas do Incor, aprendeu a ler o movimento dos lábios dele para ajudar nos diálogos.

"O amor move tudo", disse Nascimento. A mulher, Katiane, é presença constante no cotidiano do marido hospitalizado. Quando posou para as fotos do Estadão, ela acompanhou tudo pelas imagens do celular. O casal tem um filho, Heitor, que completa um ano em setembro. 

Nascimento é especialista em tecnologia da informação e conhece bem os sistemas de comunicação que funcionam para aproximar pessoas em isolamento na pandemia. Seu passatempo preferido, enquanto esperava a cirurgia, é o videogame. Nesta sexta-feira, 21, ele foi encaminhado para a operação e o correu tudo bem.  

"A cirurgia de transplante bilateral já terminou e foi tudo bem", disse o médico Paulo Manuel Pêgo Fernandes, que acompanha o caso no Incor. “Estamos esperançosos." Segundo ele, antes os transplantes eram geralmente indicados para pacientes de enfisema de pulmão, fibroses cística e pulmonar.  Com a crise sanitária, vieram restrições. “Hospitais cheios com doentes da covid e uma parte dos doadores poderia ser também portador de covid e transmitir a doença para quem recebe o transplante”, explica. 

A troca dos pulmões em pacientes que tiveram o coronavírus, afirma ele, são exceções: pacientes cujos pulmões foram destruídos pela doença, mas os outros órgãos continuam saudáveis. O primeiro transplante de paciente da covid foi em julho de 2020. Depois disso, estima Fernandes, cerca de 50 procedimentos do tipo no mundo, incluindo também casos na Europa, no Canadá e no Japão. 

E como fazer a substituição e manter o paciente vivo? “Na maioria das vezes, é o próprio pulmão. Não se tira os dois ao mesmo tempo. Tira-se um, depois o outro. O próprio pulmão serve como máquina. Nos casos de covid, já são pacientes graves e estão em uma máquina, que é o ECMO. É uma máquina que já os mantém com respiração na UTI”, afirma Fernandes, do Incor.

“Temos trabalhado para oferecer mais esse serviço de referência, mas ainda fazemos pouco no País, em comparação com o que é feito nos Estados Unidos, por exemplo”, afirma o cirurgião torácico Antero Gomes Neto, do Ceará. No ano passado, foi só uma operação realizada em Fortaleza. 

Deterioração rápida e rejeição são gargalos

José Eduardo Afonso Júnior, coordenador clínico do Programa de Transplante Pulmonar do Einstein, enumera os desafios dessas cirurgias. Um deles é a rapidez com que o pulmão se deteriora. “A taxa de aproveitamento de pulmões em doadores de múltiplos órgãos é mais baixa do que de coração, fígado e rim”, explica o médico. 

Outro problema são as lesões causadas pela ventilação mecânica inadequada. “A gente aproveita bem menos pulmão do que outros órgãos. E, como a qualidade das UTIs, nas quais estão os potenciais doadores, é habitualmente ruim, o Brasil aproveita menos ainda, quando comparamos com outros países”, acrescenta Afonso Júnior.

Além disso, o risco de rejeição ao órgão é alto. “A exposição das células do doador no sangue de quem recebe o pulmão é maior do que em outros órgãos”, diz. O contato intenso com o ambiente também é um desafio. “O recém-transplantado está recebendo vírus, bactérias, fungos, que estão entrando no órgão o tempo todo. E esses pacientes, então, têm mais complicações infecciosas.”

O SUS cobre o transplante bilateral de pulmão e responsável por cerca de 90% dos procedimentos realizados, mas o custo um complicador adicional. A cirurgia pode custar R$ 500 mil, enquanto a tabela do SUS cobre apenas cerca de R$ 120 mil, segundo fontes médicas.

'Esta doença é traiçoeira', diz empresário que fez cirurgia no Einstein

Afonso Júnior é membro da equipe que operou em fevereiro o empresário José Hipólito Correia Costa, de 61 anos, que sobreviveu à covid após nove meses internado no Einstein. A cirurgia foi em 14 de fevereiro e ele teve alta no começo de julho. Agora se prepara para retomar a vida normal até o fim do mês em Alagoas, de onde havia saído intubado, em outubro do ano passado. 

“Estou muito bem. Já estou até dando os primeiros passos, retomando minhas caminhadas”, contou Costa ao Estadão, lembrando que ficou em coma por dois meses. “Essa doença é muito traiçoeira, sofri muito. Usem máscara, se protejam”, recomendou ele, que também reforçou a importância dos imunizantes. “Eu já me vacinei.”

'A cabeça é importante nesta hora', conta idoso que fez 5 transplantes

Ser paciente de um transplante de órgãos não é um tratamento de saúde qualquer nem um procedimento médico corriqueiro. Mas é bem mais comum do que as pessoas imaginam. E o resultado pode ser compensador. Foi o que aconteceu com o aposentado Noé Rolli, de 77 anos, ex-metalúrgico, um transplantado que em setembro completa dez anos das cirurgias feitas para cinco transplantes de órgãos e um implante renal. 

"Foram seis órgãos transplantados. Estômago, intestino, duodeno, pâncreas, rim e fígado. Na verdade, cinco transplantes e um implante. Os meus rins já não funcionavam. Foi implantado um rim", conta o idoso, que chegou a fazer um procedimento nos Estados Unidos. 

"Jamais pensei que ia morrer", relatou Noé. "Nem gosto de ver a minha foto daquela situação em que eu estava. Mas eu não pensava. Acho que a cabeça é muito importante nesta hora. A pessoa tem de estar consciente do que vai acontecer", acrescentou. 

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