Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Fibromialgia: 7 anos de dor até o diagnóstico

Paciente leva mais de 2 anos para ir ao médico e passa quase 5 até ter sua doença identificada

Mariana Lenharo - Jornal da Tarde,

11 Maio 2011 | 10h41

Quando uma paciente entra no consultório do médico Eduardo Paiva, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), dizendo que seu apelido é ‘Maria das Dores’, ele já sabe que está diante de um provável quadro de fibromialgia, uma síndrome não-inflamatória caracterizada por dores espalhadas pelo corpo. Para ele, chefe do Ambulatório de Fibromialgia do HC do Paraná, reconhecer o problema é fácil. Mas os pacientes brasileiros costumam levar cerca de sete anos entre o início dos sintomas da doença e o encontro de um especialista habilitado a tratá-la.

A síndrome, que atinge oito mulheres a cada homem e afeta quase 5 milhões de brasileiros (cerca de 2% da população), leva em média 4,7 anos para ser diagnosticada no País, de acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisa Harris Interactive a pedido do laboratório Pfizer e divulgada ontem. Antes disso, contudo, entre o início das dores e a busca por tratamento, o paciente passa outros 29,2 meses (mais de anos, portanto) sofrendo sozinho. E, ao buscar ajuda, ele ainda tem de peregrinar por aproximadamente sete médicos até receber o tratamento adequado.

O desconhecimento sobre a fibromialgia, que foi assim nomeada e descrita apenas em 1990, é apontado como um dos principais culpados pela demora no diagnóstico. Entre os próprios médicos, 84% acreditam que muitos colegas de profissão não conheçam bem a doença. O estudo do Harris Interactive ouviu 904 pessoas, sendo 303 no Brasil – entre pacientes, clínicos gerais e especialistas ligados à doença, como reumatologistas.

Para o médico José Carlos Mansur Szajubok, professor de Reumatologia da Faculdade de Medicina do ABC, a dificuldade de diagnóstico da fibromialgia ocorre porque não há um exame específico ou um marcador biológico para detectar o quadro. “É um diagnóstico de exclusão, precisamos afastar outras hipóteses. Além disso, a definição da doença é recente e já sofreu revisões. É comum que o profissional que não se atualiza não tenha habilidade para fazer o diagnóstico."

Segundo Szajubok, as dores provocadas pela fibromialgia são variáveis. “Alguns a descrevem como uma queimação, outros como um peso ou ainda como facadas em várias partes do corpo”, diz. Atualmente, os critérios analisados pelo médico são a presença da dor generalizada por mais de três meses e a constatação de dor em 11 de 18 pontos específicos (veja abaixo). Assim, o diagnóstico preciso depende de uma boa análise do histórico do paciente, o que demanda tempo dos médicos. “É preciso bastante conversa e um bom exame físico”, afirma Paiva.

A dona de casa Maria das Graças Seco, de 62 anos, sabe o quanto pode ser difícil chegar ao diagnóstico correto. Ela conta que vinha se tratando há sete anos mas agora, ao se mudar de cidade, teve de iniciar uma nova busca por um médico que reconheça que sua dor é legítima e não mera ‘frescura’. Ela lembra que seu primeiro tratamento só começou quando as dores se tornaram insuportáveis. “Se eu abaixava, parecia que tinha uma faca me cortando. Todos os músculos doíam. No auge, não conseguia nem deitar a cabeça na cama”, relata. A administradora de empresa Edna Regina Espinosa, de 47 anos, tem um relato similar: “Havia dias em que doía até o meu cabelo.”

Estresse e traumas podem desencadear a doença

Apesar de a fibromialgia estar relacionada a uma predisposição genética, o estresse pode contribuir para deflagrá-la, de acordo com o médico Roberto Heymann, coordenador do Ambulatório de Fibromialgia da Disciplina de Reumatologia da Unifesp. “Esse estresse pode ser físico (trauma, como acidente automobilístico), emocional (ansiedade, depressão) ou infeccioso”, explica.

Os sintomas da administradora de empresas Edna Regina Espinosa, de 47 anos, já se manifestavam de forma tímida quando, há nove anos, ela perdeu a mãe e, 11 meses depois, o irmão. Foi então que as dores nas juntas, no joelho e na bacia se intensificaram e veio o diagnóstico de fibromialgia.

Ela conta que, apesar de os sintomas terem sido aliviados pelo tratamento, a dor modificou diversos aspectos de sua vida, inclusive o profissional. Há um ano, ela deixou de administrar a gráfica de seu marido. “Chegou uma época em que não estava mais aguentando. Continuo ajudando, mas não com muita intensidade."

De acordo com o estudo do Instituto Harris Interactive, 73% dos fibromiálgicos brasileiros afirmam que a qualidade do trabalho foi deteriorada com a doença. Para Edna, o humor varia conforme o aparecimento das dores. “Quando estou com dor acabo discutindo com o marido, com a filha. As pessoas até entendem, mas não exatamente a intensidade da dor.”

Na avaliação do chefe do Ambulatório de Fibromialgia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Eduardo Paiva, associar exercícios físicos ao tratamento periódico é essencial. “Diversos estudos evidenciam a eficiência da atividade física na melhora do paciente.”

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