FELIPE RAU/ESTADÃO
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‘Ficar velho não significa ficar doente’, defende o médico e cientista da computação Fabio Gandour

Questões ligadas ao envelhecimento da população estão entre os temas que merecem atenção no futuro

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

30 de outubro de 2021 | 05h00

“A gente sonha com a utopia, mas, de repente, fabrica a distopia.” A frase do médico e cientista da computação Fabio Gandour alerta para a possibilidade de termos mais problemas do que soluções na área da saúde se medidas concretas não forem adotadas com agilidade. Na palestra A Saúde no Futuro, que integrou o Summit Saúde Brasil, ele discorreu sobre ações para evitar essa distopia, todas elas estruturadas a partir de quatro pilares: tecnologia; população e comportamento; profissionais da saúde; e questões político-econômicas.

Na área da tecnologia, Gandour destaca a inteligência artificial e a decifração de vários aspectos do genoma humano. “Estão convergindo em torno de um título chamado ‘multihomem’, com edição de genes e uso, nos seres humanos, de órgãos de outras espécies.”

É o caso do xenotransplante com órgãos de suínos. O tamanho e a anatomia desses animais são compatíveis com as necessidades de receptores humanos. E pesquisadores já conseguem “humanizar” os genes dos porcos de modo que possam servir de doadores sem que haja rejeição. A esperança é de que a técnica ajude a diminuir as filas de milhares de brasileiros à espera de órgãos.

Com foco nesse cenário é que é preciso olhar para o segundo pilar exposto por Gandour: a formação dos profissionais. “Essa formação vai caminhar na direção de conhecimento, que é o conteúdo cognitivo, mas que vai precisar ser transformado em conteúdo psicomotor. Essa junção é necessária para o doutor do futuro lidar, por exemplo, com um robô para fazer uma cirurgia.”

Já o pilar sobre população e comportamento envolve fatores como o envelhecimento, tema que está no centro de um debate gerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade estabeleceu que, a partir de janeiro de 2022, a velhice será tratada como doença em sua Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID). A justificativa é permitir o reconhecimento da causa em certidões de óbitos.

Para os defensores da ideia, a mudança fomenta o financiamento de pesquisas sobre o tema. Gandour se coloca entre os críticos. “Longevidade acontece ao final da vida. Uma população longeva terá mais velhos e, seguindo a nova lógica da OMS, vai ser de gente doente. Não concordo. Ficar velho não significa ficar doente, mas, sim, estar suscetível a uma série de agravos nos degraus inferiores da escada que nos leva ao fim da vida.”

Por fim, as questões político-econômicas que envolvem a saúde precisam priorizar um esforço coletivo para promover bem-estar físico, mental e social. “Eu gostaria de ver uma epidemia de saúde, sem negacionismo e fake news e com respeito à ciência. Do contrário, em vez de atingir um futuro utópico, vamos atingir um futuro tão distópico quanto já se mostra o presente em que vivemos.”

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