Lilo Clareto/Hospital Sírio-Libanês
Lilo Clareto/Hospital Sírio-Libanês

'Fim do isolamento social deve ser gradual', diz diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês

Paulo Chapchap diz que a obrigação de manter o distanciamento social é necessária para evitar o colapso do sistema de saúde, principalmente o público, diante do novo coronavírus. Sírio-Libanês tem cerca de 120 internados com a doença

Entrevista com

Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês

André Vieira, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 10h45

SÃO PAULO - O diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, afirma que o pico dos casos do novo coronavírus na região metropolitana de São Paulo se dará, levando em consideração modelos de cálculos, na terceira semana de abril. A estabilidade na curva de crescimento dos casos se prolongará por três a cinco semanas. Só a partir daí, acontecerá o início da queda da curva de forma mais consistente, quando poderia começar gradualmente o relaxamento do distanciamento social. "Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo", diz. Em entrevista ao Estado, Chapchap diz que a obrigação de manter o distanciamento é necessária para evitar o risco trazido pelo crescimento exponencial ao sistema de saúde, principalmente o público. 

O Hospital Sírio Libanês, uma das referências no atendimento hospitalar privado no Brasil, triplicou sua capacidade de número de leitos em UTI de 60 para 170, abriu 100 vagas permanentes para médicos e especialistas em saúde, adiou cirurgias eletivas, diversificou sua cadeia de fornecedores de insumos e redirecionou o atendimento aos pacientes com covid-19. "Algumas doenças, como cardio-cérebro vasculares, câncer ou que causam dor, não podem esperar pois poderá piorar o prognóstico. O resto tem de ser adiado", diz Chachap.

Hoje, dos quase 500 leitos em São Paulo, o Sírio tem cerca de 120 pacientes internados com a covid-19.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a taxa de ocupação hoje do Sírio-Libanês?

Hoje, a taxa de internação é de 55% a 60% e da unidade ambulatorial é de 20%. Essa taxa de ocupação tende a crescer, caso os efeitos da epidemia não sejam mitigados. Temos tido crescimento diário da ocupação dos pacientes da covid-19 entre 10% e 20%, que é a curva contida de crescimento já vista em outros países que adotaram o distanciamento social. Isso já é possível ver nas classes menos vulneráveis.

Quer dizer que já há um achatamento da curva nos pacientes das classes sociais AB?

A gente vê sinais antecedentes, mas não se consegue ter certeza. A mensagem clara é: não podemos relaxar. Talvez seja efeito da mitigação. É importante lembrar que há um período silencioso entre a contaminação e a doença, entre a doença e a necessidade de atendimento no hospital e do hospital para a curva de mortalidade. Esse período progressivo de silêncio não é de duas semanas. Esse efeito é maior, de três a cinco semanas. Na Itália, se relaxou no período de duas semanas.

Quando acontece o pico dos casos no Brasil?

Trabalhamos com a terceira semana de abril. Não quer dizer, com isso, que vamos relaxar nessa ocasião. Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo. Por que isso? É quando a gente teria a tal imunidade de rebanho, uma quantidade de gente que já se recuperou da doença.

E a proposta de isolamento vertical?

É besteira. Primeiro, porque é impossível em qualquer lugar do mundo. Mais problemático ainda é quando você não testa todo mundo.

Quando a gente poderia suspender as medidas de isolamento?

A grande maioria já concordou com a ideia de isolamento total. Com base nos dados científicos, quando o número de doentes precisando ir ao hospital e o número de mortes começar a cair de forma consistente, aí atingimos o ponto em que o número de pessoas infectadas passa a diminuir. Esse será o momento de discutir a suspensão das medidas de isolamento e no qual vamos começar primeiramente a liberar. Primeiro, as pessoas de menor risco que já tiveram a infecção e estão imunes. Vamos liberando aos poucos. Quais os últimos grupos a serem liberados? As aglomerações coletivas. E de forma controlada. Os restaurantes, por exemplo, com distanciamento de mesas. Quem vai servir? A população mais jovem, de menor risco. Só depois, os bares, shoppings, de tal forma que num espaço de em três a cinco semanas poderemos liberar a todos de uma forma mais generalizada.

Quando seria isso?

É difícil e perigoso fazer tais inferências. Mas, se os modelos apontam um pico na terceira semana de abril, espera-se que o tal “achatamento” da curva - quando há a manutenção do número diário dos infectados - por duas a três semanas. Isso seria no meio de maio. A partir daí, começa o processo de decréscimo em duas a três semanas de forma consistente. Só então, poderia começar o relaxamento do distanciamento social.

Isso vale para todo o Brasil?

Há um complicador nesse raciocínio. Temos uma diferença das classes sociais. Poderá ter uma curva para a classe AB e outra para as classes mais vulneráveis. Esse efeito virá depois, com mais dificuldades de mitigação por causa das condições menos favoráveis.

Como fazer a gestão disso?

Estamos agindo na prevenção primária que é o isolamento das pessoas. Mas tem um segundo aspecto que é a prevenção de alguém em casa que testou positivo ou está com um quadro clínico compatível com a covid-19. O que se faz? Coloca em um quarto separado, usam-se utensílios separados e alguém cuida desta pessoa com relativo distanciamento físico. Na classe AB, dá para fazer assim.

Como fazer nas classes mais vulneráveis?

Temos estudado projetos em favelas para permitir o distanciamento físico de pessoas com sintomas e que não possam voltar à sua casa, na qual em um cômodo dormem 4 a 5 pessoas. A ideia é ter locais de convivência, como grandes dormitórios ou escolas públicas, com distanciamento adequado, padrões de higiene, cuidadores com máscaras, etc, ajudando a essas comunidades.

E os hospitais de campanha?

Temos ajudado a organizar. A ideia é que eles sejam centros de atendimento de baixa complexidade, deixando com os hospitais os casos mais complexos.

Faltarão médicos?

É uma hipótese. Mas é bom lembrar que no Brasil é muito provável que os picos ocorram em tempos diferentes e locais diferentes, pelo fato de o país ser grande e diverso. Do ponto de vista de pessoas, equipamentos e insumos, é provável que as necessidades sejam prementes em momentos diferentes e vamos ter, com uma liderança central do Ministério da Saúde, de suprir outros locais que venham a enfrentar o problema mais pra frente. Quando se olha para as cidades do interior de São Paulo, elas estão bem atrás na curva do desenvolvimento, em relação à capital e à região metropolitana. Toda a epidemia tem seu ciclo. Se os ciclos não acontecerem de forma sincronizada, será bom para o País.

E os impactos econômicos deste isolamento?

Os efeitos econômicos de uma mitigação são muito menores do que uma recuperação econômica, como na Itália. Ninguém vai aguenta ver corpos empilhados e sair nas ruas achando que não está acontecendo nada. Isso prolonga o período de lockdown. Se não foi feito antes, fazer depois vai ser tão contundente e por tanto tempo por causa do pânico que o efeito econômico vai ser pior do que prevenção. Toda vez que a humanidade se submeteu a decisão humanista à uma decisão puramente econômica, ela sofreu.

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