Andreas Gebert/Reuters
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Vacina de Oxford: Fiocruz prevê imunizar 130 milhões em 2021 e iniciar aplicação até março

Universidade inglesa e farmacêutica AstraZeneca anunciaram resultados de eficácia do produto nesta segunda; testes mostraram possibilidade de usar meia dose na 1ª aplicação

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 16h05
Atualizado 23 de novembro de 2020 | 20h38

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aumentou a expectativa de vacinação dos brasileiros contra o novo coronavírus após o anúncio de eficácia divulgado pela AstraZeneca e a Universidade de Oxford. Segundo a instituição, a previsão é vacinar 65 milhões de brasileiros no primeiro semestre do ano que vem e outros 65 milhões no segundo semestre de 2021. A expectativa da Fiocruz é começar a vacinação entre o fim de fevereiro e o início de março.

O aumento de 30% no alcance da vacina ocorre porque a estratégia que se mostrou mais eficaz é a de usar meia dose - e não uma dose inteira - na primeira etapa. A vacina de Oxford foi administrada de duas formas diferentes: na primeira delas, os voluntários receberam metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Nesse grupo de voluntários, a eficácia foi de 90%. Já no segundo grupo, que recebeu duas doses completas da vacina, a eficácia foi reduzida a 62%. 

A Fiocruz tem um acordo de transferência de tecnologia  com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford para a produção e oferto da vacina no País.  “O que nos deixa mais otimistas é que esse protocolo com eficácia de 90% traz um ganho de rendimento porque a primeira dose será com quantidade menor da vacina. E isso tem impacto muito significativo porque permite que o número de pessoas que vão receber cresça 30%”, diz Marco Krieger, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz. 

A produção do imunizante pela Fiocruz e aplicação da vacina, no entanto, ainda dependem da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A AstraZeneca informou que se prepara para submeter imediatamente os resultados de eficácia às agências regulatórias ao redor do mundo, incluindo a Anvisa.

Procurada pelo Estadão, a Anvisa afirmou no fim da tarde desta segunda, 23, que até o momento não recebeu solicitação de reunião para esta segunda-feira por parte da empresa. Também disse que não tem "pedido formal de registro desta ou de qualquer outra vacina para o Brasil".

Segundo Krieger, havia a expectativa de produzir 200 milhões de doses para vacinar 100 milhões de pessoas no Brasil no ano que vem. “Vamos conseguir produzir 260 milhões de doses e vacinar 130 milhões de brasileiros (em 2021)”, diz Krieger. "Isso coloca o Brasil em posição muito privilegiada em relação aos países que vão ter nesse primeiro momento a possibilidade de usar a vacina para o enfrentamento da pandemia."

A estratégia de priorização de quem receberá a vacina ainda está sendo definida pelo Ministério da Saúde, mas é provável que sejam priorizadas as pessoas mais vulneráveis, como os idosos, e os profissionais de saúde. Não está descartado, porém, começar a vacinação em regiões do Brasil que estejam com altos números de infectados no momento em que o imunizante estiver disponível.

"A vacina pode ser usada para diminuir a propagação da doença (em uma determinada região), mas hoje, com a doença espalhada para todo o País, tende a ser (aplicada) nas populações mais vulneráveis, profissionais de saúde e, gradativamente, ser expandida de forma bastante signficativa", diz Krieger. 

A produção da primeira metade das doses na Fiocruz será feita com a importação do chamado ingrediente farmacêutico ativo, o principal insumo do imunizante. Para a segunda metade, a instituição espera já ter produção de forma autônoma, pelo acordo de transferência de tecnologia com o laboratório estrangeiro.

Krieger considera que mesmo os 65 milhões de vacinados no primeiro semestre contribuirão com a redução da propagação da doença no País. Serão aplicadas duas doses. A primeira terá menos imunizante. A segunda, de dose completa, será aplicada 28 dias depois.  Krieger destaca que, mesmo com as boas notícias sobre o imunizante, a população não deve baixar a guarda das medidas de proteção já conhecidas contra a doença. 

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A vacina virá, e muito em breve, mas ela ainda não chegou e não chegará de forma imediata para toda a população. Ela vai ser de aplicada forma rápida, mas ainda gradativa
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Marco Krieger, ice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz

As fases 1 e 2 dos estudos já haviam apontado que a vacina é segura e induz a produção de anticorpos e a resposta imune das células T em todas as faixas etárias, incluindo idosos. Nenhum evento grave relacionado à segurança da vacina foi confirmado e o imunizante não apresentou efeitos colaterais graves em nenhuma das duas formas de aplicação. 

A vacina de Oxford, chamada ChAdOx1 nCoV-19, é feita a partir da modificação de um adenovírus causador de gripes comuns em chimpanzés, alterado geneticamente para não causar a doença em humanos. A combinação com uma proteína encontrada na superfície do coronavírus instrui as células do corpo humano a combater o vírus causador da covid-19. 

Essa tecnologia é diferente da utilizada pela Pfizer/BioNTech e Moderna, baseada no RNA mensageiro, e que necessita de armazenamento a temperaturas abaixo de -70 graus Celsius. Esse tipo de logística demandaria investimentos adicionais, uma vez que nem as centrais de distribuição de vacinas no Brasil têm freezer com essa temperatura.

 A vacina de Oxford pode ser armazenada em geladeiras comuns e a estrutura de distribuição que já existe no Brasil seria suficiente.  

A AstraZeneca pretende vender cada dose por um valor médio de US$ 3 a US$ 4 dólares. As doses das vacinas da Pfizer/BioNTech e Moderna devem custar, respectivamente, US$20 E US$25. Caso seja aprovada pela Anvisa, a vacina da AstraZeneca com a Universidade de Oxford estaria disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). 

Coronavac terá resultado de eficácia no início de dezembro

O governo de São Paulo anunciou nesta segunda-feira, 23, que os testes clínicos da Coronavac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã, entraram em sua fase final e atingiram o número mínimo necessário de infecções entre os voluntários para que a análise de eficácia do produto seja feita. A avaliação já começou e deve ter seus resultados divulgados no início de dezembro.

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