USDA/Divulgação
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Fiocruz comprova relação entre zika e Síndrome Guillain

A exemplo da microcefalia, doença autoimune rara também apresentou alta atípica nos últimos meses nos Estados do Nordeste

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2015 | 14h46

Atualizada às 22h33

BRASÍLIA - A Fiocruz de Pernambuco comprovou em pacientes brasileiros a relação entre zika vírus e a Síndrome de Guillain-Barré (SGB), uma doença rara que também apresentou um aumento atípico nos últimos meses no Nordeste. O achado aumenta o alerta em torno do zika, principal suspeito de causar uma epidemia de microcefalia no País. 

A Síndrome de Guillain­Barré afeta em média uma pessoa a cada 100 mil habitantes. A reação geralmente ocorre depois de uma infecção provocada por bactéria ou vírus. Em alguns casos, terminada a infecção, o sistema imune do paciente sofre uma “pane” e identifica células do organismo como invasora e passa a atacá­las. 

O ataque das células de defesa causa um processo inflamatório e a destruição da bainha de mielina, uma espécie de capa que recobre os nervos periféricos. O resultado é o bloqueio da passagem dos estímulos nos nervos, levando à paralisia.

O vírus, que chegou ao Brasil este ano, já está presente em 18 Estados, incluindo São Paulo e Rio.  O ministro da Saúde, Marcelo Castro, discutirá com a Casa Civil o uso do Exército para ampliar o combate aos focos do Aedes aegypti, mosquito que transmite zika, dengue e chikungunya.

Reunidos em Brasília, secretários estaduais de saúde mostraram preocupação com o atual cenário. Wilson Modesto Pollara, secretário adjunto de Saúde de São Paulo, reconheceu ser necessário redobrar os cuidados para reduzir os criadouros do mosquito. Ele observa que o combate é a única estratégia possível neste momento. “Depositávamos esperanças no desenvolvimento de uma vacina para dengue”, afirmou. “Mas, diante da ameaça de chikungunya e zika, esse recurso terá uma eficácia limitada.”

Síndrome. Os resultados da pesquisa da Fiocruz foram obtidos em um trabalho feito pela pesquisadora Lúcia Brito, chefe do serviço de neurologia do Hospital da Restauração, de Pernambuco. A análise identificou a presença do zika no líquido cefalorraquidiano (LCR) e no sangue de sete pacientes que apresentaram a SGB. As suspeitas sobre a relação entre a infecção pelo zika e a síndrome surgiram na Polinésia, quando pesquisadores identificaram um aumento do número de SGB logo depois de uma epidemia. “A ligação da SGB com o zika é inequívoca”, avaliou o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e responsável pela identificação da chegada do vírus no Brasil, Kleber Luz. Questionado, o Ministério da Saúde disse que o assunto está “em investigação”.

O número de casos de SGB cresceu de forma expressiva no Nordeste do País entre abril e junho, pouco depois que os Estados apresentaram a epidemia de zika. No Rio Grande do Norte, foram 24 casos de SGB - quatro vezes mais do que a média histórica. Em Pernambuco, o registro alcançou 130 casos. Na Bahia, foram diagnosticados pelo menos 55 pacientes. A notificação aumentou ainda em Maranhão e Paraíba, com 14 e 6 casos, respectivamente. 

O fenômeno é semelhante ao que ocorreu com o aumento de microcefalia, doença rara que se tornou epidemia nos últimos três meses no Nordeste. Até agora, foram registrados 739 de bebês com a má-formação. Os nascimentos ocorrem nos Estados que apresentaram epidemia de zika. 

Especialistas discutem agora com o governo estratégias para acompanhar o impacto da zika e as relações com SGB. Entre as propostas está criar um grupo para identificar, o mais rapidamente possível, os primeiros sinais da síndrome e encaminhar pacientes para tratamento.

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