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Fiocruz diz que casos suspeitos de pacientes da Baixada Fluminense não são 'vaca louca'

Ambos estariam com a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), que não tem relação com o consumo de carne

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 17h25

RIO - Dois pacientes internados no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (INI/Fiocruz) foram diagnosticados com Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), que não tem relação com o consumo de carne. Seus sintomas são semelhantes aos do Mal da Vaca Louca  - cujo nome é Variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ) e é contraída por quem come produtos de animais contaminados. A notícia inicial, de que a possibilidade da moléstia bovina era investigada, assustou profissionais de saúde e pecuaristas brasileiros nesta quinta-feira, 11.  No fim da tarde, a Fiocruz esclareceu a diferença. Informou que os internados não têm a enfermidade que vem do gado, ataca o sistema nervoso, e, sem cura, leva à morte.

"O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) esclarece que os dois (02) pacientes internados para investigação de Encefalopatia Espongiforme Bovina (“doença da vaca louca”) estão com suspeita da forma esporádica da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), considerando os aspectos clínicos e radiológicos", informou em nota o vice-diretor de Serviços Clínicos do órgão, Estevão Portela Nunes. "Esta forma esporádica não tem relação com o consumo de carne. Reiteramos que os pacientes estão internados no Centro Hospitalar para a Pandemia de Covid-19 do INI e que ambos os casos não tem confirmação diagnóstica."

Os nomes dos pacientes não foram divulgados. Os pacientes  são uma pessoa moradora de Belford Roxo e um homem de 55 anos morador de Duque de Caxias, ambos municípios da Baixada Fluminense. Estão internados no Centro Hospitalar para a Pandemia de Covid-19 do Instituto Nacional de Infectologia.

Em setembro, dois animais foram identificados com a doença da vaca louca no Brasil. Estavam em frigoríficos de Belo Horizonte e de Nova Canaã do Norte (MT). Em consequência, a China suspendeu a importação de carne do País. A eventual suspeita da versão humana da doença provavelmente causaria mais prejuízos aos pecuaristas. Nos anos 1990, uma epidemia fez com que 4,4 milhões de bovinos do Reino Unido fossem sacrificados. Desde 1995, 178 pessoas morreram devido a essa doença em todo o mundo.

Embora cause efeitos semelhantes ao Mal da Vaca Louca , a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) não decorre do consumo de carne bovina. A enfermidade é de registro obrigatório. Segundo o Ministério da Saúde, 603 casos suspeitos de DCJ foram notificados no Brasil entre 2005 a 2014. Desses, 55 foram confirmados, 52 foram descartados, 92 permaneceram indefinidos, e 404 tiveram a classificação final ignorada ou em branco. Desde que a vigilância para a DCJ foi instituída no Brasil, nenhum caso de vDCJ foi confirmado.

Semelhantes, doenças não são transmitidas da mesma forma

A Doença de Creutzfeldt-Jakob  é  degenerativa, ataca o sistema nervoso humano e provoca  desordem cerebral, com perda de memória e tremores. Evolui rapidamente, não tem tratamento e causa a morte. É uma variedade de Encefalopatia Espongiforme Transmissível. Esse é um tipo de doença que provoca alterações no cérebro das pessoas. Deixa-o com aspectos esponjosos (só observáveis com análise microscópica).

A Creutzfeldt-Jakob   é causada por um tipo de proteína identificada pela sigla Príon (do inglês Proteinaceous Infections Particles). É  uma versão “maldosa” de proteínas fundamentais para o sistema nervoso. A versão “boa” dessas proteínas protege os neurônios, mantendo-os intactos. Mas, por razão ainda não esclarecida, elas podem sofrer mutações e se tornar anormais. Nessa versão, atacam os neurônios, tornando-os porosos e os levando à morte.

Um príon consegue transformar proteínas “boas” em “maldosas” assim que encostam nelas. Conforme essas proteínas vão se multiplicando e destruindo os neurônios, o cérebro vai ficando cheio de furos microscópicos, como se fosse uma esponja.

Após anos de ação no sistema nervoso, esses príons causam perda de coordenação motora e alterações de comportamento, e levam à morte. Essa forma da DCJ, causada por mutação genética, é chamada atípica e não se transmite entre humanos.

Mas existe a versão típica, que decorre de transmissão e não de mutação genética. A forma de transmissão da DCJ é desconhecida. Não há evidência científica de que ela se transmita pelo ar, pelo contato com pessoas doentes ou com superfícies contaminadas.

Carne contaminada transmite Vaca Louca

Já a  vDCJ (Mal da Vaca Louca) pode ser transmitida tanto quando animais são alimentados com restos mortais processados de outros, contaminados, como quando humanos consomem produtos oriundos de animais contaminados. Daí que a principal forma de combate à disseminação da vDCJ é proibir que bovinos se alimentem de restos processados de outros animais. Isso era comum no Reino Unido nos anos 1980 e 1990. Também é preciso identificar e isolar bovinos que desenvolvam a forma atípica da doença, decorrente de mutação genética. O objetivo é evitar que sejam consumidos por outros bovinos ou por humanos.

Os dois bovinos identificados com Encefalopatia Espongiforme Bovina no Brasil em setembro desenvolveram a versão atípica da doença, provocada por mutação genética. Isso tornou mais fácil o controle para evitar a disseminação da doença.

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