Márcio Pinheiro/SESA
Márcio Pinheiro/SESA

Fiocruz irá coordenar pesquisas de tratamentos contra novo coronavírus no Brasil

Serão quatro drogas avaliadas, entre elas a cloroquina e a hidroxicloroquina, usadas contra a malária; no País, vão participar 18 hospitais de 12 Estados, com a expectativa de integrar 1.200 voluntários

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 11h57
Atualizado 27 de março de 2020 | 12h54

A Fiocruz vai coordenar no Brasil os esforços mundiais para investigar a eficácia de quatro tratamentos contra a covid-19, entre eles a cloroquina e hidroxicloroquina, usadas contra a malária e que se mostraram promissoras em alguns testes iniciais, ainda feitos com poucas pessoas no mundo. Os testes farão parte do ensaio clínico Solidariedade (Solidarity), lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há uma semana.

No País, vão participar 18 hospitais de 12 estados, com o apoio do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde

De acordo com a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, os medicamentos que o estudo clínico apontar como os mais adequados à doença poderão ser produzidos em Farmanguinhos, a fábrica de remédios da Fiocruz.

A fundação também iniciou a construção de uma nova estrutura para ajudar os governos estadual e municipal a combater a doença. O Centro Hospitalar para a Pandemia de Covid-19 – Instituto Nacional de Infectologia terá 200 leitos exclusivos de tratamento intensivo e semi-intensivo de pacientes graves infectados pelo novo coronavírus. Cem devem ser oferecidos nos próximos 40 dias e o resto depois.

Para o teste clínico, serão testadas também as drogas: remdesivir; uma combinação de dois medicamentos para o HIV, lopinavir e ritonavir; e a mesma combinação mais interferon-1A, um mensageiro do sistema imunológico que pode ajudar a paralisar vírus.

“Ameaças globais exigem respostas e colaboração globais. Vimos que existem vários ensaios clínicos em andamento ou que vão começar no mundo, mas a maioria com um número limitado de pessoas. O risco é de não conseguir dar a resposta para a pergunta: que remédios funcionam e quais não funcionam? Este estudo vai ser conduzido em vários países, com a proposta de ter um grande número de voluntários e ter uma resposta rápida”, afirmou em coletiva à imprensa nesta sexta-feira, 27, a diretora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Valdiléa Veloso.

Segundo a médica, o ensaio vai ter uma análise dinâmica. Pacientes internados com a doença nesses 18 hospitais serão convidados a participar e vão ser receber uma das drogas do ensaio. Tão logo haja resultados suficientes, se uma delas não se mostrar adequada, sendo, por exemplo, ineficiente ou tóxica, será retirada do teste. Por outro lado, se uma droga rapidamente se mostrar mais promissora, poderá já ser incorporada nos tratamentos. A expectativa é que 1.200 pacientes participem do ensaio no Brasil. O custo do ensaio no País será em torno de R$ 4 milhões.

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Sobre a recomendação que o Ministério da Saúde já fez para o uso da cloroquina e hidroxicloroquina mesmo sem ainda haver evidências robustas sobre a eficácia da droga, a médica explica que se trata de uma postura do tipo “off label”, ou seja, fora do que está prescrito na bula do medicamento.

Segundo ela, esta é uma prática “para uso humanitário”, para um grupo de paciente que possam ter consequências graves. “Foi nesse âmbito que a cloroquina foi liberada, para cada médico decidir para cada paciente. Ele define se cabe ou não o uso. Como não existe evidência, o off label se faz para situações limitadas”, explicou. Ela informou que somente se houver evidência e que vai ser recomendado para todos os pacientes.

Valdiléa fez questão de frisar, porém, que as duas drogas causam efeitos colaterais que podem levar a mortes, principalmente afetando os batimentos cardíacos. Ela lembra que já foram registradas mortes, no decorrer desta pandemia, na África e nos Estados Unidos de pessoas que resolveram usar por conta própria o medicamento de forma profilática.

“Não usem, não comprem para usar para esse fim de prevenir ou tratar. (Fora do ensaio clínico) apenas os médicos com pacientes muito graves vão avaliar se pode ser tentado para o tratamento, levando em conta interações medicamentosas de pacientes que usam outras drogas”, diz. Problemas cardiológicos, por exemplo, podem agravar a toxicidade da cloroquina, explica a médica.

Ela pediu às pessoas calma e que aguardem as evidências científicas sobre quais medicamentos funcionam, quais são eficazes para tratar a doença. “Se usarmos de forma aleatória, sem comprovação da evidência, podemos ter muitas mortes por causa disso.”

Recomendação para manter o isolamento social

Na entrevista coletiva, os pesquisadores da Fiocruz buscaram reforçar a importância, neste momento, de se manter as estratégias de isolamento social. Mesmo sem confrontar diretamente as falas do presidente Jair Bolsonaro, que vem defendendo que as pessoas voltem às ruas e que somente os idosos e doentes crônicos fiquem em isolamento, Nísia lembrou o posicionamento da OMS e do que mostram as evidências científicas até agora.

“Nesse momento é importante o isolamento”, disse, lembrando os casos crescentes em São Paulo, Rio e Brasília. “É importante que a estratégia seja montada e vá sendo adaptada sempre com os objetivos de salvar vidas e proteger nossos sistema de saúde para que ele dê conta (não só do coronavírus) também de outras doenças como dengue, sarampo, a influenza que está chegando agora.”

Especificamente sobre o isolamento vertical proposto por Bolsonaro, ela disse que a Fiocruz está com um observatório da pandemia, “discutindo sua evolução no brasil, avaliando as estratégias, o impacto em todas as dimensões da vida”. E disse apenas que estarão estudando todas as possibilidades e como se desenrolará a epidemia no Brasil.

Nísia lembrou que no Rio, por exemplo, vem considerando não só a questão etária, mas também a questão do que é grupo de risco, como a existência de comunidades mais vulneráveis que vivem em grandes aglomerados.

Valdiléa também destacou a importância do isolamento social: “porque precisamos achatar essa curva de casos para termos mais tempo para preparar nosso sistema de saúde.”

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