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‘Foi demais’: como o ensino à distância está afetando os pais

A rotina desgastante de quem precisa monitorar os filhos nas atividades diárias

Elizabeth A. Harris, The New York Times

28 de abril de 2020 | 16h00

O filho de Daniel Levin, Linus, 7 anos, deveria estar estudando matemática. Em vez disso, ele fingiu tomar um banho na sala de estar, esfregando uma borracha seca debaixo dos braços como se fosse um sabonete, o que chateou sua irmã de 5 anos, distraindo-a da atividade de colorir que estava fazendo.

Por mais que tentasse, Levin, que vive no Brooklyn, Nova York, não conseguiu que Linus terminasse os exercícios. Suas esperanças para que ele fizesse a tarefa de leitura também não eram altas.

"Ele deveria completar uma folha inteira com traços característicos hoje", disse Levin na semana passada. "Honestamente, se ele escrever o nome e a idade do personagem, considerarei isso uma vitória."

O filho de Ciarra Kohn está no terceiro ano e usa cinco aplicativos diferentes para a escola. A professora envia planos de aula, mas Ciarra não tem tempo para fazê-los.

O filho mais velho, que está no sexto ano, tem oito disciplinas e oito professores, e cada uma tem seu próprio método. Às vezes, quando Ciarra faz uma lição com ele, ela pergunta se ele entendeu - porque ela não entendeu.

"Suponho que não, mas talvez sim", disse Ciarra, de Bloomington, Illinois, referindo-se ao filho. "Então entraremos em uma discussão, tipo, 'Não, mãe! Ela não quis dizer isso, ela quis dizer isso!'"

O envolvimento dos pais há muito é visto como fundamental para o desempenho dos alunos, tanto quanto o número de estudantes por classe, o currículo e a qualidade do professor. Isso nunca foi tão verdadeiro quanto agora, e em todo o país, mães e pais pressionados pelo serviço de emergência estão achando uma das partes mais irritantes da pandemia.

Com os professores relegados às telas de computador, os pais precisam assumir papéis como assistentes de professores, monitores, psicólogos e funcionários de lanchonetes — enquanto tentam fazer seus próprios trabalhos em circunstâncias extraordinárias. Aqueles que trabalham em serviços essenciais talvez estejam no lugar mais difícil, especialmente se estiverem longe de casa durante o horário escolar, deixando apenas um dos responsáveis ou ninguém em casa quando os estudantes mais precisam.

Os alunos da educação infantil precisam de ajuda para fazer login no Zoom. Os do sétimo ano precisam de ajuda com álgebra, usada pela última vez pelos responsáveis por volta de 1992. A "escola" geralmente termina na hora do almoço, o que leva aos pais de Long Island a Dallas e Los Angeles a fazer a mesma pergunta: quão ruim eu sou se meu filho jogar "Fortnite" pelas próximas oito horas?

Yarlin Matos, do Bronx, Nova York, cujo marido ainda está trabalhando como gerente de um McDonald's, tem sete filhos, com idades entre 3 e 13 anos. Ela gastou parte da ajuda financeira recebida do governo comprando cinco tablets Amazon Fire porque os dispositivos prometidos pelo Departamento de Educação da cidade não haviam chegado.

Yarlin, estudante de Psicologia na Bronx Community College, disse que precisa ficar acordada até tarde, às vezes até às três da manhã, tentando fazer seu próprio trabalho.

"Eu tive um momento de colapso em que precisei me trancar no banheiro e chorar", disse ela. "Foi simplesmente demais."

Existe uma preocupação generalizada de que, mesmo com o ensino à distância, muitos estudantes retornarão à escola um passo atrás de onde estariam se estivessem na sala de aula. (O presidente Donald Trump disse na segunda-feira que os governadores deveriam considerar reabrir as escolas antes do final do ano letivo.) Os professores tiveram pouco tempo para se preparar para o ensino à distância e muitas crianças tinham acesso inadequado ou inexistente ao computador.

Para alunos que não contam com a orientação dos responsáveis, o resultado pode ser ainda pior.

Ronda McIntyre, professora do quinto ano em Columbus, Ohio, disse que dos 25 alunos, apenas seis estavam participando de forma consistente, geralmente aqueles cujos responsáveis já estavam em comunicação constante com ela.

Outras famílias entraram em contato com Ronda para dizer que estão sobrecarregadas demais com seu próprio trabalho para ajudar nas lições em casa. E alguns disseram a ela que estão tentando, mas que seus filhos não cooperavam.

“Ela fica frustrada toda vez que começamos”, uma mãe disse por e-mail na semana passada, “e então eu fico irritada e ela fica irritada e geralmente acabamos dizendo que devemos fazer uma pausa e o ciclo se repete. Normalmente, um de nós ou as duas acabamos chorando quando dizemos tudo isso e não conseguimos finalizar nenhum exercício. "

Até mesmo os pais que parecem ter sucesso com a árdua tarefa de organizar os estudos dos filhos em casa dizem estar preocupados com o que os meses fora das salas de aula podem significar. Eles também acham difícil aceitar que a experiência de estar na escola seja reduzida às aulas de 25 minutos pelo Zoom ou pelas lições enviadas por e-mail.

O tuíte decisivo do momento veio de Sarah Parcak, uma arqueóloga da Universidade do Alabama, em Birmingham.

"Eu disse ao (amável, gentil e atencioso) professor do nosso filho que não participaríamos de sua 'sala de aula virtual' e que ele havia terminado o primeiro ano", escreveu ela no Twitter no início de abril. “Não podemos lidar com essa insanidade. Sobreviver e proteger seu bem-estar estão em primeiro lugar. ”

Seu post gerou milhares de respostas no Twitter e no Facebook.

"Em termos de reação online, eu diria que no Twitter, provavelmente 95% da reação foi positiva", disse ela em entrevista. No Facebook, que é mais popular entre os pré-millenials, a reação foi mais dividida. Muitas pessoas elogiaram sua decisão, enquanto outras a criticaram por recusar o trabalho duro dos professores e prestar um desserviço ao filho.

"No Facebook, começaram as guerras das mães", disse ela, "e eu sou o muro pelo qual as pessoas estão dispostas a morrer dos dois lados".

Os especialistas em educação dizem que fazer um cronograma pode ajudar as crianças a tratar a configuração atual como algo mais parecido com a escola, deixando claro quando é hora de estudar e quando é hora de brincar, usando um cronômetro, por exemplo, para delinear quando estão na "escola". Criar um espaço dedicado para elas estudarem também pode ser útil.

E os pais não devem se cobrar nos dias em que as coisas não saem conforme o planejado.

"Seus filhos estão se matando ou você já teve vontade de matar seu filho?" disse Kathryn Hirsh-Pasek, pesquisadora em Educação e membro sênior do The Brookings Institution. "Eles estão comendo algo que se assemelhe a comida saudável entre o chocolate e o açúcar? Se a resposta for sim, dê um desconto para si mesmo." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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