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"Fora, China!"

É preciso ser muito estúpido para hostilizar um chinês porque em uma das províncias da China (cuja existência a maioria ignorava até ontem) havia um vírus perigoso adormecido

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 13h00

Um dos efeitos colaterais desse coronavírus que apareceu na província chinesa de Hubei é a confirmação de que o racismo está latente em todos os cantos do mundo, vindo à tona por qualquer motivo.

Nos primeiros dias do surto, o Ocidente reagiu com admiração aos esforços da China. Elogiávamos a seriedade e a energia com as quais Pequim combatia os minúsculos invasores invisíveis. Para o surto não se propagar, dezenas de milhões de chineses foram confinados em seus campos e cidades.

Dizíamos que as massas chinesas davam prova de um sangue-frio e de uma disciplina notáveis. E nos embasbacávamos com esse povo capaz de construir, quando se tornou necessário, um hospital completo em apenas dez dias, com equipamentos sofisticados, 2 mil leitos e um batalhão de enfermeiros prontos para utilizar esse material.

Mas tanta dedicação e competência não desarmou o medo e as críticas de outros países. Mesmo a província chinesa de Hong Kong, cujo status, é verdade, é singular, em vez de mandar ajuda à China continental viu, ao contrário, seus médicos entrarem em greve para exigir das autoridades locais que fechassem a fronteira com o continente chinês.

O Le Monde informou na edição desta terça-feira que o Cazaquistão e as Filipinas, dois parceiros essenciais na “nova Rota da Seda” lançada em 2013 por Xi Jinping, fecharam todos os seus acessos. Na Europa, um país que deverá ser destaque na Rota da Seda é a Itália. Mas Roma também está fechada para os turistas chineses. Ora, é preciso ser muito estúpido para hostilizar um chinês porque em uma das províncias da China (cuja existência a maioria ignorava até ontem) havia um vírus perigoso adormecido.  A Rússia, igualmente, cerrou as cortinas.       

Assim, ao longo da futura Rota da Seda está constituído um arquipélago de territórios confinados, como a província chinesa de Hubei. Do lado da China, no início Xi Jinping dedicou ao flagelo apenas um dos discursos curtos e óbvios que faz de quando em quando. Em seguida, voltou a se fechar em seu silêncio.

Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) por fim decretou estado de urgência internacional frente à epidemia, a única reação oficial de Pequim também foi sucinta: o ministro do Exterior chinês declarou brevemente que a China continuará trabalhando com a OMS e outros países. E na imprensa e TV voltaram as críticas à “histeria da mídia ocidental” que ouvimos após os primeiros avanços do coronavírus. Onde, pois, colocar o cursor? /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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