JARBAS OLIVEIRA/ESTADAO
JARBAS OLIVEIRA/ESTADAO

Com taxa de ocupação de 97,1% em UTIs, Fortaleza adota medidas de isolamento social mais rígidas

Ceará registrou até esta quinta-feira, 7, 13.888 casos de coronavírus e 903 mortes pela doença

Raul Galhardi, especial para o Estado

07 de maio de 2020 | 20h31

Embora o termo "lockdown" esteja sendo evitado pelo governo do Estado do Ceará e pela Prefeitura de Fortaleza, começa a valer nesta sexta-feira, 8, decreto municipal que aumenta o controle sobre os espaços públicos e privados com o objetivo de incrementar o isolamento social já existente. Até o dia 20 de maio, a circulação de pessoas e veículos por vias públicas terá maior fiscalização, com foco especial nos grupos de risco.

Outras medidas trazidas pelo ordenamento são o controle da entrada e saída da capital; proibição do funcionamento de qualquer atividade formal ou informal que não seja essencial, que agregue pessoas, junte pessoas e acabe criando ambiente de contaminação e fortalecimento da fiscalização nas comunidades.

Ao andar pelas ruas da cidade, é possível ver que a quase unanimidade das pessoas já adotou o uso da máscara, obrigatória desde a terça, 5, por decreto estadual com validade também até o dia 20 deste mês. No entanto, ainda são muitas as lojas abertas que tentam disfarçar o seu funcionamento fechando uma das portas.

As aglomerações e principalmente as filas nos bancos fazem parte do cenário de locais tradicionalmente movimentados, como o Centro de Fortaleza. Nas ruas Senador Pompeu e Pedro I ainda há movimento intenso de carros, lembrando um dia normal. Nos bairros mais afastados, como na Granja Portugal, o controle sobre o comércio é ainda menor e feiras livres continuam a ocorrer.

Segundo dados da plataforma IntegraSUS, da Sesa (Secretaria de Saúde), o Ceará registrou até esta quinta, 7, 13.888 casos de coronavírus e 903 mortes pela doença. Fortaleza é de longe a cidade do estado com maior número de casos confirmados (9.241) e óbitos (655); 72% dessas mortes foram de pessoas que possuíam alguma comorbidade, como diabetes, doença cardiovascular crônica e outras pneumopatias crônicas.

A taxa de letalidade é 7,07% na capital, que possui atualmente uma média de 12 mortes por dia. Entre os óbitos, 72,53% foram de pessoas acima de 60 anos. De acordo com o Boletim Epidemiológica nº 24 da Sesa, entre 2 de abril e 5 de maio houve um aumento de mais de 400% na ocupação de leitos de enfermaria e de UTI destinados a covid-19 e de pacientes em uso de ventilação mecânica.

Segundo o relatório, a taxa de ocupação em UTIs (Unidade de Terapia Intensiva) na capital é 97,1% e a taxa de ocupação de enfermarias é 88,9%. No interior, esses números são, respectivamente, 83,5% e 94,9%, o que indica que o Ceará está muito próximo de um colapso no seu sistema de saúde.

Hoje, 800 leitos de enfermarias, 621 leitos de UTI e 419 ventiladores mecânicos estão sendo utilizados por pacientes com suspeita ou confirmação de coronavírus na rede de saúde pública e privada estadual. Há a expectativa de que 200 respiradores cheguem ao Ceará até o final da próxima semana, segundo afirmou o secretário de Saúde Dr. Cabeto em coletiva realizada nesta quinta.

A realidade por trás dos números Maria de Fátima Pereira Lima, 55, é enfermeira do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes. Apesar de todos os cuidados que tomou para evitar a contaminação por covid-19, acabou contraindo a doença junto com seus dois filhos, com quem divide a casa. "Não tem como saber como eu peguei. Cheguei um dia do plantão com febre, o corpo muito cansado, dor de garganta. Como dizem que quatro dias antes você já pode transmitir sem sintomas, imagino que devo ter passado para meus filhos", relata.

Maria de Fátima está há oito dias em casa de licença médica. Para prevenir a contaminação de mais pessoas, enviou sua mãe para a casa do seu irmão, embora diga que já esteja apresentando melhora nos sintomas.

Paulo José Paula Medeiros, advogado aposentado de 67 anos, morava em Maranguape e foi internado na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Eusébio no dia 24 de abril com febre, cansaço e falta de ar. Como o local contava apenas com três respiradores, após dois dias foi enviado para o Hospital Leonardo da Vinci, que atualmente recebe apenas paciente de covid-19. Portador de diabetes e hipertensão e com insuficiência respiratória aguda, não resistiu.

"Fizemos um esforço muito grande, falamos com todo mundo para transferi-lo para o hospital porque lá tinha melhor estrutura", relata Alexandre Igor Araripe Medeiros, 39, filho de Paulo José e professor da área de Educação Física da UFC (Universidade Federal do Ceará). Medeiros defende o isolamento social. "Sou extremamente a favor do confinamento. É um absurdo quem pode estar dentro de casa e vai para a rua", diz. Porém, ele acredita que, apesar dos decretos, as pessoas continuarão nas ruas. "Se não tem polícia para prender bandido, ela vai prender quem não faz quarentena?", conclui.

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