TIAGO QUEIROZ / ESTADAO
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Franca tem 24 mortos por espera de UTI no mês; Ribeirão vê explosão de casos de covid

Dos 58 municípios das duas regiões, 36 já adotaram medidas mais restritivas que o Plano São Paulo, como lockdown e toque de recolher

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 16h35
Atualizado 28 de maio de 2021 | 19h26

SOROCABA - Consideradas o novo epicentro da covid-19 no Estado de São Paulo, com alta nos casos, hospitais lotados e pacientes à espera de vagas, as regiões de Ribeirão Preto e Franca já registram ao menos 25 mortes por falta de leitos de UTI só este mês. Apenas em Franca, segundo a prefeitura, foram registradas 24 mortes na fila de espera por internação desde o dia 8. As três últimas foram nesta sexta, 28. Em Batatais, outra cidade da região, um paciente morreu em uma UPA, aguardando transferência para UTI. Nesta sexta, ao menos 74 pacientes de covid-19 esperavam por leitos.

Conforme a secretaria de Saúde de Franca, desde o dia 8 de maio, a cidade registra uma trágica sequência de mortes pela covid-19 em fila de espera para internação. Foram sete óbitos na segunda semana do mês, outras dez entre os dias 20 a 25, mais quatro entre os dias 26 e 27 e três nesta sexta. Uma delas aconteceu quando o diretor técnico do pronto-socorro Álvaro Azzuz, Rafael Talarico, atendia a reportagem. A unidade tinha 59 pacientes aguardando vaga, sendo 47 para UTI. Desses, 12 estavam intubados.

Dos 58 municípios das duas regiões, 36 já adotaram medidas mais restritivas que o Plano São Paulo, como lockdown e toque de recolher. As outras 12 cidades mantêm o comércio aberto, mas ampliaram a fiscalização das regras sanitárias. Na região de Franca, a ocupação de UTI era de 92,9% na manhã desta quarta. Em Ribeirão Preto, a taxa regional era de 93,3%

O pesquisador Vitor Engracia Valenti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) é um dos que apontam essas regiões como o novo epicentro da covid-19 no Estado. Com hospitais lotados, a região tem forte circulação da variante P.1, o que agrava a situação. “A tendência é de que os casos devem aumentar, com a situação mais preocupante na cidade de Franca”, disse. A alta transmissibilidade da variante, segundo ele, pode ser uma das causas do alto índice de infecção que está colapsando o sistema de saúde na região.

Na DRS-8, com sede em Franca, os 22 secretários de saúde se reuniram nesta sexta, 28, para discutir a crise na saúde. Segundo o secretário Wagner Ferreira de Oliveira, de Ipuã, com a situação hospitalar extremamente crítica, foi decidida a abertura de dez novos leitos de UTI, sendo cinco em Ipuã e outros cinco em Ituverava. “Sabemos que é enxugar gelo, pois já temos quase 60 pacientes na fila por UTI, mas é a resposta possível para esse momento da crise.”

Ele prevê que a situação pode agravar. “No fim de semana, devido à final do Campeonato Paulista, tivemos aglomerações em todas as cidades, e isso vai cobrar seu preço daqui a duas semanas.” Em Ipuã, a Santa Casa tem todos os 15 leitos ocupados sem folga há mais de um mês. Para dar conta do aumento nos casos, a prefeitura de Cajuru passou a abrir o centro de atendimento de covid aos sábados domingos e feriados até 22 horas.

A secretaria de saúde de Batatais divulgou um apelo aos moradores para se cuidarem após registrar ocupação de 110% nos leitos de UTI da Santa Casa. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), 14 pacientes estavam à espera de vaga em hospital, sete precisando de UTI e dois deles intubados. Um dos pacientes que aguardavam transferência morreu no início desta semana.

Multas e interdições

Em Franca, o lockdown começou nessa quinta-feira, 27, e vai até 10 de julho, com toque de recolher noturno. Patrulhas percorrem a cidade para flagrar infratores. Só nas primeiras seis horas, foram interditados cinco estabelecimentos: um centro automotivo, duas indústrias de calçados, uma construtora e uma academia. As multas podem chegar a R$ 290 mil em cada caso.

A prefeitura de Ipuã voltou atrás no decreto de lockdown após ser avisada de que os municípios vizinhos não adotariam a medida. O prefeito Ronywerton Alves Pereira (PTB) chegou a anunciar as medidas em live. “Não temos leitos disponíveis na região. O aumento de casos cresce a cada dia, muita gente na fila aguarda leito de UTI para ser intubada, muita gente morrendo na fila, muita gente morrendo em UTI”, disse. Ontem, os 15 leitos da Santa Casa estavam ocupados. “Estamos assim há semanas”, disse o secretário de saúde.

Maior cidade da região, Ribeirão Preto tinha 95% dos leitos de UTI covid ocupados, com 304 pacientes internados e 211 usando respiradores. Nas enfermarias, a taxa era de 85,5% com 388 pacientes, seis em respiradores. A ocupação já atingiu os níveis de março, no início da pior fase da pandemia local. A cidade soma 78,8 mil casos e 2.144 mortes pela covid-19. Ribeirão decretou lockdown por cinco dias, até a noite de segunda-feira, 31, mas a medida pode ser prorrogada.

Para o pesquisador Domingos Alves, da Faculdade de Medicina da USP, o fechamento com pouco tempo de duração pode não produzir o efeito esperado na queda de casos. “O lockdown preconizado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para produzir resultados deve ir de 15 a 21 dias. Quanto maior e mais sustentado o fechamento, melhor será o resultado”, disse. Na região, apenas Franca e Batatais adotaram bloqueios de circulação superior a 14 dias. Em Cajuru, o lockdown é de nove dias.

Central recebe 700 pedidos de transferência por dia; número é menor do que o registrado no pico de abril

A Secretaria da Saúde do Estado disse, em nota, que o número de UTIs no Sistema Único de Saúde (SUS) de São Paulo praticamente triplicou, saltando de 3,5 mil para mais de 10 mil. Só na região de Franca, são 112 leitos de UTI e 175 clínicos exclusivos para covid-19. O governo mantém na região um hospital de campanha, em Franca, com 25 leitos de covid, sendo 22 de UTI. “Cabe reforçar que a ativação de novos leitos não é prerrogativa exclusiva do Estado, mas também da União e das prefeituras”, diz a nota.

Ainda segundo a pasta, a demanda de transferências para casos de covid-19 registrados na Cross (Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde) registrou queda de 46% em comparação com o pico da segunda onda. Atualmente, são cerca de 700 pedidos por dia, contra 1,5 mil em abril de 2020. A central funciona 24 horas e busca vaga disponível para pacientes graves que possuam condição clínica para transferência. “É responsabilidade do serviço de origem manter o paciente assistido e estável previamente, bem como providenciar o transporte adequado para deslocamento seguro do paciente”, informou.

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