França vai estimular automedicação para doenças leves

Depois de alcançar o mais baixo índice de automedicação da Europa, o governo francês deve passar a estimular pacientes de doenças leves, como febre, dores de garganta, de cabeça e de estômago, a buscar nas farmácias - e não nos consultórios médicos - a cura de seus problemas. A medida controversa foi elaborada pelo Ministério da Saúde e visa à redução dos gastos com o reembolso dos medicamentos, cujo custo é coberto em pelo menos 75% pelo Estado. A proposta, baseada em um relatório elaborado pelos médicos e pesquisadores Alain Coulomb e Alain Baumelou, deve ser sancionada em fevereiro pelo governo, a pedido do ministro da Saúde, Xavier Bertrand. Seu intuito oficial é reduzir a procura pelos médicos do sistema público, uma vez que o paciente já tenha sido orientado por um especialista quando da primeira vez em que sofreu do problema. Além do alívio da demanda em hospitais, existe a intenção do governo de Jacques Chirac de reduzir o investimento público na compra de remédios. Na França, a maioria das drogas de Prescrição Médica Facultativa (PMFs) é paga pelo paciente na hora da compra - na farmácia - e reembolsada depois. O reembolso vem representando uma armadilha orçamentária crescente para o governo francês ao longo das últimas décadas. O Ministério da Saúde limita em 6% o número de drogas de venda livre de receita, uma orientação seguida à risca pelas farmácias do país. Na Grã-Bretanha, a mesma lista é composta por 12% dos remédios, enquanto na Alemanha o porcentual chega a 14% e na Espanha, a 15%. De acordo com a indústria farmacêutica local, o mercado de PMFs comprados pelo público, que poderia chegar a 6 bilhões, limita-se a 1,6 bilhão. A Associação Francesa da Indústria Farmacêutica estima que, se o porcentual de drogas livres de prescrição subisse 5%, o governo economizaria 2,5 bilhões. A indústria, por outro lado, passaria a lucrar mais, depois de autorizada a fazer publicidade nos meios de comunicação, outra medida prevista no relatório. OMS Embora polêmica, a ?automedicação responsável? é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma forma de desonerar os sistemas de saúde. Mas a alternativa inclui riscos, como o diagnóstico incorreto, o atraso no tratamento, a administração de remédios em doses incorretas e a possibilidade de dependência, além dos efeitos colaterais. Segundo a organização, 10% das internações médicas são causadas pelo mau uso de remédios. Se na França a automedicação pode ser encarada como solução, para as autoridades em saúde pública brasileiras ainda é um problema. A prática é desestimulada pelo Ministério da Saúde e pela Associação Médica Brasileira. No País, o consumo indiscriminado de remédios está associado às instruções de farmacêuticos, amigos e parentes, e não à educação prévia do paciente por um especialista.

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