Prakash Singh/AFP
Prakash Singh/AFP

Fruta com gosto de sabão? Olfato e paladar alterados perseguem sobreviventes da covid-19

Bem depois de se recuperarem da doença, algumas pessoas não toleram alguns alimentos

Deborah Schoch, The New York Times

21 de junho de 2021 | 15h00

Marcel Kuttab sentiu pela primeira vez algo errado quando escovava os dentes, isto alguns meses depois de ter se recuperado da covid-19. A escova parecia estar suja de modo que ela a jogou no lixo e pegou uma nova. Mas percebeu que estava sem pasta de dente. Cebola, alho, carne e café tinham cheiro de gasolina - sintoma de uma doença pouco conhecida chamada parosmia, a percepção distorcida do olfato e do paladar.

Kuttab, 28 anos, farmacêutica formada que trabalha numa empresa de medicamentos em Massachusetts, fez uma experiência para saber que alimentos conseguia tolerar. “Você gasta muito dinheiro no supermercado e acaba não aproveitando nada do que compra”, disse ela.

A pandemia trouxe a parosmia de volta ao centro das atenções, levando a pesquisas e uma série de artigos em revistas médicas.

A adesão aumentou em grupos de apoio existentes e novos grupos surgiram. Um grupo da Grã-Bretanha no Facebook tem mais de 14 mil membros. E iniciativas relacionadas à parosmia vêm ganhando seguidores.

Mas uma pergunta-chave continua sem resposta: quanto tempo dura a parosmia associada à covid-19? Cientistas não fornecem prazos seguros. Dos cinco pacientes entrevistados para este artigo, todos desenvolveram pela primeira vez os sintomas no ano passado e no início do verão no hemisfério norte deste ano, e nenhum deles recuperou o olfato e o paladar normais.

Brooke Viegut, 25 anos, cuja parosmia começou em maio de 2020 em Nova York, antes de os cinemas serem fechados, acredita que contraiu o coronavírus em março de 2020 durante uma viagem de trabalho a Londres, e, como muitos outros pacientes, perdeu o olfato. Antes de se recuperar totalmente da doença, os sintomas da parosmia começaram e ela não tolerava mais o cheiro de alho, cebola ou carne. Até o brócolis, disse, cheirava a produto químico.

Ela ainda não suporta alguns alimentos, mas hoje está mais otimista. “Agora muitas frutas têm gosto de fruta e não de sabão”, afirma. E recentemente fez uma viagem sem sentir muita náusea. "É um progresso”.

Antes da covid, a parosmia despertava pouca atenção, diz Nancy Rawson, vice-presidente e diretora do Monell Chemical Senses Center, na Filadélfia, grupo de pesquisa sem fins lucrativos conhecido internacionalmente: “Quando tínhamos uma grande conferência, um dos médicos às vezes relatava um ou dois casos desse transtorno”.

Em um estudo francês realizado em 2005, a maior parte dos 56 casos de parosmia examinados estava relacionada a infecções das vias respiratórias superiores. Hoje, os cientistas apontam para mais de 100 razões para a perda ou alteração do olfato, incluindo vírus, sinusite, trauma na cabeça, quimioterapia, doença de Parkinson e mal de Alzheimer, diz Zara Patel, professora de otorrinolaringologia na Universidade de Stanford.

Em 2020, a parosmia se tornou mais generalizada, impactando com frequência pacientes do novo coronavírus que perderam o olfato e recuperaram antes de a percepção alterada do paladar e do olfato começar. Um artigo publicado em junho na revista Chemical Senses, baseado em questionários, concluiu que 7% dos pacientes recuperados da covid relatam alteração do olfato.

Um estudo posterior baseado numa pesquisa online na Grã-Bretanha concluiu que seis meses após serem diagnosticados com covid, 43% dos pacientes indagados sofriam de parosmia, segundo artigo na revista Rhinology. O diagnóstico ocorre em média 2,5 meses depois de os pacientes perderem o olfato. O que coincide com a experiência de Monika Franklin, 31 anos, de Bergenfield, Nova Jersey.

“Eu era dessas pessoas que dizia quando o lixo tinha de ser colocado fora”, disse Monika, terapeuta ocupacional. Mas ela perdeu todo o olfato e o paladar no início de abril de 2020, imediatamente depois de contrair a covid.

Dois meses depois, foi diagnosticada com parosmia e fantosmia, doença que leva uma pessoa a detectar cheiros inexistentes, uma espécie de alucinação sensorial. Constantemente ela inalava o cheiro de cigarro quando não havia ninguém fumando por perto e estava sozinha em sua sala.

Alho e cebola são os maiores desencadeadores da sua parosmia, um problema especialmente difícil pois seu namorador é ítalo-americano e ela normalmente se encontra com ele e a família às sextas-feiras para uma pizza.

Para Janet Marple, 54 anos, de Edina, Minnesota, o café, manteiga de amendoim e fezes cheiram borracha queimada ou exalam um cheiro de algo tão doce que até enjoa. Ela jamais sentiu esse cheiro em toda a sua vida. “Literalmente prendo a respiração quando lavo meu cabelo. Lavar a roupa é uma experiência terrível. Mesmo a grama recém cortada é horrível”, diz.

De olho no nariz 

Confundidos com essa sequência de transtornos de olfato e paladar, cientistas em todo o mundo estão prestando uma atenção inusitada ao sistema olfatório humano, as áreas do nariz e do cérebro onde o cheiro é processado.

Eles têm se concentrado no epitélio olfatório, uma parte do tecido atrás da cavidade nasal, centro nervoso para detectar odores, que envia mensagens para o cérebro.

Quando as pessoas têm um resfriado comum, o muco e outros fluidos fecham o nariz de modo que os odores não chegam ao centro nervoso. Mas esse tipo de bloqueio não ocorre em pacientes com anosmia e parosmia causadas pela covid.

Alguns pesquisadores de início especularam que o vírus bloqueia os odores atacando os milhares de neurônios olfatórios desse centro nervoso. Mas agora descobriram que o processo é mais insidioso.

Esses neurônios são unidos por uma estrutura de células de suporte chamadas células sustentaculares que contêm uma proteína chamada receptor ACE2. Um estudo publicado em julho, conduzido por pesquisadores de Harvard, concluiu que a proteína age como um código para o vírus entrar e destruir as células de suporte.

Em resumo, quando as células se reconstroem, elas podem se desconectar, enviando sinais para a parte errada do cérebro. Em decorrência disto, pode ocorrer uma parosmia ou fantosmia.

O National Institutes of Health emitiu um chamado em fevereiro para propostas de estudo dos efeitos colaterais de longo prazo da covid. Patel, da Universidade de Stanford, está agora recrutando pessoas para um ensaio sobre a parosmia, preferivelmente aquelas que sofreram com esse transtorno durante seis meses ou mais, mas por tempo não superior a um ano.

Muitos pacientes, por seu lado, vêm recorrendo a grupos de apoio pedindo orientação. Essas organizações já existiam na Europa antes da covid, mas nenhuma operava nos Estados Unidos.

Por isso, Katie Boeteng e duas outras mulheres com perda olfativa, ou anosmia, formaram o primeiro grupo conhecido nos Estados Unidos para pessoas com problemas de paladar e olfato. Trata-se da Smell and Taste Association of North American, ou STANA. As fundadoras vêm trabalhando para obter o status de grupo sem fins lucrativos, com orientação do centro Monell, para arrecadar fundos para estudos do problema.

Boeteng, 31 anos, de Plainfield, Nova Jersey, perdeu a percepção do olfato há mais de 12 anos, depois de uma infecção nas vias respiratórias superiores. Em 2018, ela lançou o seu The Smell Podcast e registrou mais de 90 episódios, entrevistando pacientes, advogados e cientistas em todo o mundo.

O grupo mais conhecido de ajuda chama-se AbScent, registrado na Inglaterra e no País de Gales. O grupo tinha apenas 1.500 seguidores no Facebook antes do coronavírus. Hoje, tem mais de 50 mil.

Para algumas pessoas que atuam na área médica, a alteração do odor pode ser confusa. Tracy Villafuerte desenvolveu parosmia há um ano e quando o olfato começou a voltar, o cheiro do café e de outros alimentos era de ranço.

Como outras pessoas entrevistadas, Villafuerte, 44 anos, vem se tratando com um terapeuta. “Quero falar sobre isso e em alto e bom som. Você tem de aprender mecanismos neste caso para enfrentar o problema diariamente”, afirma. Ela é assistente médica em Bolingbrook, Illinois. Seu primeiro neto deve nascer em julho e ela espera conseguir sentir o cheiro do bebê. “As pessoas dizem, ‘você trabalha na área de urologia, deve ser uma bênção’. Eu faria qualquer coisa para sentir o cheiro de urina’”. //Tradução de Terezinha Martino

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