Steve Parsons/Pool via REUTERS
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Fui infectado pela covid-19 de propósito. Pela ciência.

Decidi me submeter a isso por uma simples razão: esse era o meu jeito de ajudar a avançar em nossa luta contra o novo coronavírus

Alastair Fraser-Urquhar*, Especial para The Washington Post

29 de junho de 2021 | 10h00

Um mês atrás, em um dos momentos mais aterrorizantes da minha vida, fui exposto de propósito ao Sars-CoV-2. Isso aconteceu por meio de um líquido claro que foi pingado diretamente no meu nariz – um processo que demandou uma equipe de seis pessoas, algumas retirando o lacre do recipiente com vírus, outras registrando as doses e uma enfermeira fazendo a contagem regressiva dos segundos. Decidi me submeter a isso por uma simples razão: esse era o meu jeito de ajudar a avançar em nossa luta contra o novo coronavírus.

Faço parte do primeiro estudo de infecção humana controlada de covid-19 do mundo. Esse tipo de estudo, que tem sido fundamental para nossa compreensão de doenças como gripe, malária e cólera, apresenta riscos aos voluntários e isso pode torná-los polêmicos. Dados os potenciais enormes benefícios científicos e sociais de se aprender mais a respeito de uma doença, decidi assumir os riscos: os perigos da covid-19 para alguém da minha idade são semelhantes aos de procedimentos médicos de rotina (a doação de rim em vida é um exemplo particularmente adequado).

Mas quando, em junho de 2020, entrei para a organização sem fins lucrativos 1Day Sooner, que defende potenciais voluntários de estudos de infecção controlada, não havia nenhum deles planejado em qualquer lugar do mundo. Isso mudou quando um foi anunciado em meados de outubro e recebeu aprovação ética em fevereiro.

Minha experiência como sujeito de pesquisa começou em Londres, em janeiro, com uma triagem que durou a metade de um dia: submetendo-me a testes como o RT- PCR e a coleta de amostras para garantir que eu estava saudável, meus pulmões estavam funcionando adequadamente, que eu não tinha anticorpos para o vírus ou qualquer comorbidade que aumentaria minha suscetibilidade a ele. Algumas semanas depois, recebi a ligação que estava esperando: eu iria para a próxima fase, que incluía duas reuniões com um médico do estudo na qual, durante várias horas, lemos e discutimos um termo de consentimento informado de mais de 30 páginas. (Os voluntários do estudo receberam aproximadamente US$ 6.375, uma quantia baseada no salário mínimo de Londres. Conforme recebo os pagamentos que vão até o próximo ano, doo eles para organizações sem fins lucrativos.)

O estudo começou no final de março. Fui submetido a um check-up rigoroso nos primeiros dois dias, que contou com exames de imagem como raio-X, avaliação da função respiratória e amostras de sangue. Depois, no terceiro dia, fui exposto ao vírus.

Um dos requisitos essenciais para estudos de infecção controlada é o isolamento estrito, para garantir que o vírus não escape para o resto do mundo. Fiquei confinado em um ambiente de biocontenção, projetado desde o início para impedir a saída do vírus. Ele era um pouco maior do que um quarto de hospital padrão e era mantido a uma pressão de ar ligeiramente mais baixa do que a da ala posterior. Ninguém entrava sem luvas, capote e um capuz que cobria toda a cabeça e funcionava como proteção respiratória, com um aparelho que bombeava ar descontaminado. Eu nem conseguia ver o resto do hospital - apenas uma pequena antecâmara onde os funcionários se desinfectavam ao entrar ou sair de onde eu estava. Tirando eles, não tive contato com outros humanos - nem mesmo com os demais participantes do estudo.

Eu acordava todas as manhãs às 5h30 para que os profissionais de saúde do estudo checassem meus sinais vitais, coletassem exames do tipo RT-PCR e uma amostra de saliva; meus últimos exames eram finalizados por volta das 23h30. Eu dava amostras de sangue diariamente, realizava testes de olfato, tomografias computadorizadas e tinha minha função pulmonar avaliada. No final do estudo, eu tinha feito mais de 100 testes do tipo RT-PCR. Embora nem tudo isso fosse agradável, era surpreendentemente gratificante pensar sobre a quantidade de dados que meu corpo estava gerando como objeto de estudo. Durante meu tempo livre fazia coisas triviais: li livros, trabalhei um pouco e vi muita Netflix.

Direto do mundo exterior, minha família e meus amigos constantemente entravam em contato: todas as manhãs, acordava com mensagens de texto preocupadas com minha saúde. Embora o risco de doença grave fosse baixo, a equipe do estudo tinha esteroides, oxigênio e remdesivir à disposição para o caso de eu piorar. Nenhum desses tratamentos era perfeito, o que significava que eu estava inseguro em relação ao vírus durante o estudo. O medo de desenvolver uma "covid longa" dominava todos os nossos pensamentos. (No momento, estou livre de quaisquer sintomas de longo prazo.) Minha mãe se preocupou com minha capacidade pulmonar, reclamando de eu ter "começado a dar trabalho a ela antes de nascer e de não ter parado desde então".

O estudo está em andamento em Londres. Por causa disso, por recomendação da equipe do estudo, optei por não falar dos meus sintomas com detalhes, para evitar influenciar quaisquer voluntários que possam estar decidindo se vão participar dele ou que estejam atualmente no estudo. Basta dizer que me senti mal por alguns dias depois de ser infectado pelo vírus. Foi semelhante a algo que eu esperaria de um resfriado muito forte. Eu me recuperei totalmente (e tive dois resultados negativos consecutivos para covid-19) no momento em que deixei o ambiente de quarentena - e adquiri um novo respeito pelo poder do vírus.

Quando meus 17 dias no estudo chegaram ao fim, eu estava mais do que pronto para ir para casa. A vista do meu quarto no 12º andar era impressionante, mas eu não conseguia olhar para ela sem ser dominado pelo desejo de sair - não ajudou muito o fato de o governo ter suspendido algumas restrições enquanto eu estava confinado. Quando entrei no hospital, as lojas estavam fechadas e as principais ruas estavam quase desertas. Ao sair dele, fiquei quase emocionado com a visão surreal de lojas, pubs e restaurantes movimentados, reabertos pela primeira vez depois de mais de um ano.

Eu me sentia como se estivesse fazendo algo para acabar com o sofrimento da pandemia ao me expor voluntariamente ao vírus. Mas também carrego comigo a informação desalentadora de que este estudo não foi tão eficaz quanto poderia ter sido. Se o tivéssemos realizado antes - digamos, no verão passado (do hemisfério norte) - talvez o mundo pudesse ter aprendido mais em relação ao vírus de um modo mais rápido. Talvez tivéssemos alcançado progressos mais rápidos nos testes para uma vacina ou tratamentos eficazes.

Não acho que os estudos de infecção humana controlada ajudem o mundo apenas com o novo coronavírus. Mais fundamentalmente, eles nos mostram que existem pessoas que estão verdadeiramente felizes em assumir riscos físicos para o avanço do conhecimento humano e da saúde. Negar a nós a oportunidade de fazer isso apenas perpetuará o sofrimento. Assim como haverá mais pandemias, haverá mais voluntários. E temos muito a perder ao ignorá-los. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

*Alastair Fraser-Urquhart vive em Stoke, Inglaterra, e trabalha como gestor da divisão no Reino Unido da 1Day Sooner, um grupo que defende voluntários estudos de infecção humana controlada de covid-19.

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