REUTERS/Aly Song
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Fumantes devem parar de fumar ao menos 4 semanas antes de cirurgias, diz OMS

Esses pacientes têm um quadro de restabelecimento substancialmente melhor, com menos infecções pós-cirúrgicas e uma probabilidade reduzida de retornar ao hospital, diz organização

Andrew Jacobs, The New York Times

27 de janeiro de 2020 | 10h00

Não é preciso dizer que cigarro e cirurgia não são uma boa combinação. Diversos estudos têm mostrado que, no caso de pacientes que fumam, os resultados de uma cirurgia são piores. Mas muitos médicos dão aos fumantes orientações opostas sobre qual o tempo ideal de abstenção antes de uma operação.

Estudo divulgado esta semana pela Organização Mundial da Saúde tem por fim esclarecer a questão. Os pacientes que param de fumar pelo menos quatro semanas antes de uma cirurgia têm um quadro de restabelecimento substancialmente melhor, com menos infecções pós-cirúrgicas e uma probabilidade reduzida de retornar ao hospital para tratamentos adicionais.

Os autores do relatório da OMS, que analisaram mais de 100 estudos sobre o assunto, esperam que suas conclusões sirvam como um aviso para cirurgiões, anestesistas e diretores de hospitais que têm um papel muito importante em convencer os pacientes a deixarem o hábito de fumar, temporariamente ou para sempre.

“Para os médicos em todo o mundo, a cirurgia pode ser um momento de ensinar”, disse Edouard Tursan D’Espaignet, pesquisador na universidade de Newcastle, Austrália, que colaborou no estudo. “Estamos incentivando os sistemas de saúde inteiros a assumirem a tarefa de fazer seus pacientes pararem de fumar”.

Há mais de um bilhão de fumantes em todo o mundo e um em cada 25 se submetem a uma cirurgia importante a cada ano, segundo a OMS. Em países mais ricos, 16% dos pacientes tiveram graves complicações no pós-operatório e causaram um ônus significativo para os hospitais.

“Não somente é ruim para o paciente, mas é ruim também para a distribuição de serviços médicos porque os fumantes têm de voltar ao hospital e possivelmente ocupar o lugar de alguma outra pessoa que deixa de ser tratada”.

Os autores do estudo disseram que essas conclusões constituem um forte argumento para os médicos adiarem cirurgias eletivas (procedimentos cirúrgicos agendados com antecedência porque não envolvem emergência) para dar mais tempo para o paciente parar de fumar. Eles verificaram que pacientes que deixaram o cigarro um mês antes de uma operação registraram menos complicações seis semanas depois e que, cada semana sem fumar, além das quatro semanas, melhoram os resultados de uma operação em 19%.

Os riscos do tabaco são bem conhecidos, mas poucas pessoas avaliam as desvantagens para o fumante quando da recuperação de uma artropatia do quadril, uma cirurgia do coração ou mesmo um lifting facial. O fumo afeta a função cardiovascular e a capacidade dos tecidos cicatrizarem. Isso porque o monóxido de carbono no cigarro reduz o oxigênio necessário para normalizar a função celular. A nicotina também parece impedir aglutinação das plaquetas que ajudam na cicatrização.

“A cirurgia em si já é algo invasivo para o corpo e a sua recuperação vai muito mais complicada se você fuma”, disse Kerstin Schotte, membro da equipe médica da OMS que trabalha na área de controle do tabaco e colaborou na redação do estudo.

Muitos médicos afirmam que não é fácil convencer o paciente a deixar o cigarro. Segundo Amy Lassig, cirurgiã especializada em câncer da cabeça e pescoço no Hennepin Healthcare, em Minnesota, metade dos seus pacientes continua fumando depois de diagnosticados com câncer.

“Alguns conseguem deixar abruptamente, mas outros, num momento tão estressante da sua vida, se sentem desesperançados e seguem na outra direção e continuam a fumar”, disse ela.

Mas uma cirurgia iminente, disse ela, pode ser um forte incentivo para algumas pessoas.

“As pessoas realmente levam a sério e agradecem o fato de eu ser honesta com elas. Infelizmente, nem todos colocam meu conselho em prática”, disse ela.

Segundo a OMS, os hospitais deveriam assumir um papel mais importante para ajudar os fumantes a largarem o cigarro. Como muitos hospitais e clínicas proíbem o uso do tabaco, forçando até os mais viciados a largarem o cigarro quando estão hospitalizados, ela insiste que cirurgiões e anestesistas aproveitem o momento para ajudarem os pacientes a deixar de fumar para sempre.

Nancy Rigotti, que dirige o Tobacco Research and Treatment Center no Hospital Geral de Massachusetts, disse que mais da metade dos fumantes admitidos ao hospital recebem terapia de substituição do tabaco há 20 anos. Os pacientes com alta do hospital vão para casa com adesivos de nicotina e os funcionários do centro os acompanham, telefonando ou enviando mensagens de texto, para encorajá-los a continuar o tratamento.

Mas não há nada como uma cirurgia iminente para se conseguir que os fumantes deixem o vício para sempre.

“Quando deparam com a ideia de receber uma anestesia geral e ter seu peito aberto, muitas pessoas farão o que puderem para que o resultado da operação seja bom. O que descobrimos é que a doença é um momento de aprender o que são comportamentos não saudáveis”. /Tradução de Terezinha Martino

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