Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Gafe ou paranoia?

Mais do que o ‘não ter empatia’, a dificuldade é achar a resposta emocional apropriada

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2021 | 05h00

Chegou o mês de dezembro, e com ele o estouro da boiada que quer resolver o ano em vinte dias uteis, seja na vida dos neurotípicos, como na de quem tem uma forma diferente de organização mental e de estrutura cognitiva. O aumento das interações sociais eleva a chance da inadequação nossa de cada autista, fruto da ausência de domínios da linguagem. “Gafe ou paranoia?”, é uma questão recorrente na vida.

Uma criança autista no grau leve, não diagnosticada na infância, pode viver anos na condição de introspectiva porque, mesmo tendo um baixo grau de interação com os colegas, tem uma linguagem verbal fluída, por exemplo. Nem sempre os pais percebem que as estereotipias e repetições - de frases de desenhos, por exemplo - representam uma forma mecânica de comunicação. E ainda que toda criança introspectiva não seja autista, todo autista é um introspectivo, mesmo que sua atuação seja expansiva quando lhe convém.

“Pensar sobre o próprio pensar”, que é o que introspecção significa, pode ser elaborado em pensamentos sobre si e outros seres, ou questões impessoais. O cérebro é tão ativo, o tempo todo, a ponto de muitas vezes perder-se em si. Estudos publicados recentemente dão conta que crianças autistas percebem movimentos duas vezes mais rápido que crianças sem o transtorno, e um possível desdobramento é a alta sensibilidade que, por sua vez, pode afetar a interação social. A mente precisa escolher no que presta atenção, e o “volume” de determinadas coisas é maior que o de outras.

Desconfortos sociais acontecem, por exemplo, quando essa pessoa, em qualquer idade, é obrigada a levar adiante conversas rasas e desconectadas de seus interesses, a tal conversa fiada que todo mundo tem em encontros, festas e jantares, e que para qualquer autista é um suplício. Por que levar adiante um papo sem interesse real? Encerra-se de maneira abrupta a conversa sem sentido, e com isso vem a pecha de desinteressados ou apáticos que os autistas carregam. Essa é só uma das nossas gafes recorrentes.

Essa inadequação social é perceptível também em formas genuínas de resposta, como a risada. O riso é um modo inato de comunicação, que chega antes da fala no caso dos humanos. Em pessoas com TEA, ela pode ser uma reação a emoções intensas, não necessariamente relacionadas ao humor. Fui dividir com o diretor do Metrópolis, programa em que sou repórter, sobre o autismo. Ele me disse que jamais desconfiou, ainda que reparasse que eu ria em momentos que não condiziam com a seriedade do que o entrevistado respondia. “Eu to rindo, mas é de nervoso”, diz o meme.

A capacidade de decodificar as emoções que nosso corpo está sentindo, algo como entender que a irritação que você está expressando, na verdade, é fome, é chamada de interocepção. Se há uma desordem no processo sensorial no espectro de TEA, é possível que questões como regulação e nomeação de emoções são complicadas para quem vive do lado de cá. Mais do que o “não ter empatia” popularmente ventilado, a dificuldade é de encontrar a resposta emocional apropriada ao momento social vivido. Nós respondemos melhor a fatos do que a regras subentendidas.

Se a rotina do fim do ano é transformada em uma prova de corrida com barreiras, a chance de tropeços nos obstáculos por parte dos neurodivergentes é maior. Não é que eu não veja seu ponto, às vezes só não faz sentido comparado ao que já sei do assunto. Em outras, minha compreensão do que deve ser falado ali é diferente da experimentada pela maioria. Por isso conto com “pessoas de segurança” que, ao fim de determinadas situações sociais, me respondem com tranquilidade quando pergunto: “É gafe ou paranoia?”. Muitas vezes é paranoia. Em outras, a gafe é inevitável.

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