Gays do Equador denunciam clínicas ilegais para mudar orientação sexual

No país, homossexualidade é 'doença a ser curada', apesar de a Constituição reconhecer direitos

Efe

25 Novembro 2010 | 17h25

QUITO - No Equador, a homossexualidade é considerada uma "doença que pode ser curada", ou ao menos isso é o que prometem clínicas ilegais que aceitam jovens - normalmente internados à força por seus pais -, segundo denunciam autoridades e associações de gays.

Esse foi o caso de Ana (nome fictício), uma jovem de 21 anos cuja mãe a internou em uma clínica por ser lésbica, com a esperança de que os especialistas conseguissem mudar sua orientação sexual e abandonasse a namorada, Marta (nome também fictício), de 23 anos.

Esse caso não é único. A diretora geral de Saúde do Equador, Carmen Laspina, indicou à Agência Efe ter recebido denúncias de homossexuais "que foram sequestrados e levados para essas clínicas".

Uma ONG equatoriana que trabalha na defesa dos homossexuais tem anualmente 15 denúncias de pessoas internadas contra vontade em algum desses centros, onde são "vítimas de maus-tratos", como tratamentos com "choque e privação de comida e descanso", como detalhou o porta-voz, Efraín Soria.

Carmen ressaltou que, nesses centros, às vezes são usados métodos violentos, como demonstra o caso de "uma menina lésbica violada. Há relatos também de gays e travestis que tiveram cortados os cabelos e extraídos os líquidos das próteses de seus seios".

A prática violenta nessas clínicas é algo normal, mas por sorte não foi assim com Ana, que contou que, no centro, levantava sempre às 7h, limpava a casa e passava a maior parte do dia "à toa".

"Não fazíamos nenhum tratamento, e o psicólogo só vinha duas vezes por semana, mas rezávamos diariamente", contou a jovem, que acredita que teve "sorte", porque a clínica em que foi internada "era pouco séria" e não a trataram com violência.

A Constituição equatoriana aprovada em 2008 é a primeira da história do país a reconhecer os direitos dos homossexuais. Por isso, a diretora geral de Saúde enfatizou que essas clínicas estão "fora da lei, dos direitos humanos e da Constituição".

Carmen explicou que esses locais são disfarçados de centros de tratamento de dependentes químicos, que para o Estado é difícil controlar porque são privados.

O ministério acredita que o problema é maior do que reflete o número de queixas, porque normalmente "são os pais que internam os filhos", e estes não querem denunciar seus progenitores, explica Carmen.

Esse é precisamente o caso de Ana. Marta conseguiu que a promotoria ditasse medidas cautelares para impedir a mãe de aproximar-se dela, mas a vítima não quis denunciar a progenitora, que poderia ser presa por sequestro.

Ana lembra com dor que, há meses, numa amanhã, a mãe deu algo "amargo para ela beber" e, então, "perdeu parte dos sentidos". "De repente, entraram cinco pessoas em casa, dois homens e três mulheres, que me disseram que eram da Interpol", revelou.

Comunicaram que vinham buscá-la porque tinham fotos dela e de seu namorado vendendo droga, mas Ana não tinha relação sentimental com nenhum homem e, sim, como uma mulher. "Além de não haver nenhuma unidade da Interpol, havia um táxi e todos vestiam camisas brancas. Sabia que estava sendo capturada por causa da minha orientação sexual", lembrou a jovem.

Ana foi levada para uma clínica, onde reconheceram que sua mãe a tinha internado por ser lésbica. Ali, não havia nenhuma menina, as outras internas tinham problemas com drogas e álcool.

No segundo dia, conseguiu ligar às escondidas para Marta, que a partir de então começou uma luta em todas as instituições judiciais e, depois de um mês, conseguiu tirar Ana do centro.

Demorou bastante porque "a discriminação estava em todo lugar", não queriam ajudá-las por "serem lésbicas", afirmou Marta.

A diretora geral de Saúde do Equador ressaltou que ainda é preciso trabalhar muito em todas as instituições do país "para que se respeitem os direitos humanos" e "haja maior tolerância à diferença", inclusive dentro das famílias.

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