Gel recupera função cardíaca perdida após enfarte

Estratégia, aplicada com sucesso em porcos, deve ser testada em humanos ainda este ano, segundo pesquisadores da Universidade da Califórnia

Mariana Lenharo, de O Estado de S. Paulo,

20 de fevereiro de 2013 | 21h50

Um gel que tem como matéria-prima o próprio tecido do coração foi capaz de recuperar parcialmente a função cardíaca perdida após o enfarte. A estratégia, aplicada com sucesso em porcos, deve ser testada em humanos ainda este ano, segundo os pesquisadores da Universidade da Califórnia. Ainda não existem terapias que promovam a reconstituição do músculo cardíaco afetado pelo enfarte.

 

Os resultados foram publicados esta semana na revista Science Translational Medicine. Para produzir o gel, pesquisadores submeteram o tecido conjuntivo retirado do coração de porcos a um processo laboratorial (veja detalhes acima). O material foi injetado através de um cateter no coração de seis porcos, duas semanas após terem sofrido enfarte. Outros quatro porcos enfartados não receberam a terapia, formando o grupo controle.

 

Três meses após a aplicação do tratamento, testes mostraram que os porcos que receberam o gel tinham melhorado a função cardíaca, enquanto os que não o receberam apresentaram uma piora. Além disso, foi observada a migração de células musculares para a região que recebeu o gel e também a formação de vasos sanguíneos nas áreas enfartadas. No grupo controle, o tecido afetado tornou-se fino e fibroso.

 

Uma das autoras do estudo, a pesquisadora Karen Christman, observa que, quando alguém sofre um enfarte, a matriz extracelular natural do coração é degradada, o que faz com que as células não tenham onde se fixar para ajudar no crescimento do novo tecido. "Então pensamos que a melhor coisa para se injetar no coração seria a mesma coisa que estava lá inicialmente. Então desenvolvemos a forma líquida dessa matriz extracelular cardíaca que, quando entra no tecido, se assemelha à estrutura natural."

 

Também foi constatado que o gel diminuiu o processo de cicatrização. "Foi uma nova descoberta emocionante já que, idealmente, após um enfarte, você quer reduzir ao máximo a cicatriz e formar o máximo de músculo possível", diz Karen.

 

O cardiologista Leopoldo Piegas, do Hospital do Coração (HCor), explica que a cicatriz que se forma após o enfarte atrapalha a contração dos batimentos cardíacos, por isso é importante o fato de o gel ter impedido o processo de formação da cicatriz.

 

Uma das críticas ao estudo, segundo o médico José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (Incor), é que os testes não mimetizam exatamente o que ocorre com o homem após o enfarte. Para ele, a comparação da nova estratégia deveria ser feita em relação a porcos que tivessem recebido a medicação atualmente administrada a pessoas enfartadas. Isso permitiria determinar se os efeitos do gel são superiores aos medicamentos hoje disponíveis.

 

O médico Rui Fernando Ramos, diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), observa que a melhor maneira de se preservar o músculo cardíaco após o enfarte é o diagnóstico precoce e tratamento adequado. "Se o doente chega na primeira hora, muitas vezes é possível fazer um aborto do enfarte, o músculo praticamente não é afetado e os resultados são ótimos."

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