Gene do mal de Alzheimer é o mesmo que protege da diarréia

Um gene que protege a criança em seus primeiros anos é o mesmo que está ligado a doenças sérias no fim da vida. Pesquisadores brasileiros e americanos descobriram que a versão quatro do APOE - conhecido como o ?gene do Alzheimer? e também ligado a doenças cardiovasculares - é a mesma que barra o stress físico e mental provocado pela diarréia infantil, comum em comunidades carentes. Uma série de testes feitos em parceria por cientistas das universidades de Virginia, nos Estados Unidos, e da Federal do Ceará (UFC) com membros da comunidade carente de Gonçalves Dias, em Fortaleza (CE), estabeleceu uma ligação entre a presença do gene e a proteção do intestino e do cérebro. Crianças portadoras do APOE4, após episódios de diarréia, apresentaram melhor resultado em testes cognitivos - que avaliam interpretação e linguagem - do que aquelas sem o gene. ?Nossa hipótese era que o colesterol, que provoca tantos problemas na velhice, é importante em crianças desnutridas?, explica Reinaldo Oriá, da UFC, que faz parte da equipe de pesquisa. Segundo o líder do grupo da UFC, Aldo Lima, o segredo parece estar no papel desempenhado pelo APOE4. Ele se traduz em uma proteína presente no plasma, que aumenta a eficiência na absorção do colesterol e, assim, forma uma barreira na parede interna do intestino para proteger do quadro de diarréia. A mesma proteína carrega lipídios pelo sangue até o cérebro, que são utilizados pelos tecidos de forma mais eficiente. Os resultados deste trabalho foram publicados em revistas científicas em 2006. Agora, a equipe reúne dados do trabalho com camundongos. Os cientistas buscam descobrir exatamente como o APOE4 protege o corpo nos primeiros anos. ?O alelo 4 aumenta o colesterol, e a criança absorve mais nutrientes. O APOE talvez tenha benefício contra a infecção?, diz Oriá. O grupo também estuda o uso de um suplemento nutricional para proteger as crianças sem o gene. ?Ministramos micronutrientes, como zinco e vitamina A, e percebemos uma melhoria não só no desenvolvimento cognitivo mas na menor morbidade de animais?, explica Lima. Contra-evolução O fato de o mesmo gene ter funções diametralmente opostas parece contraevolutivo à primeira vista, mas é justamente o contrário. ?A seleção natural só atua até a idade fértil. Se você não pode mais ter bebês, a natureza quer mais é que você morra, desapareça?, brinca o geneticista Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, que não está ligado ao trabalho da UFC. Uma série de funções que conferiram vantagem seletiva em um estágio da vida têm o potencial de mais tarde gerar um efeito adverso. Nesse contexto, o APOE4 garante que o homem cresça e se reproduza. Existem outros genes que possuem essa dupla personalidade. ?Imagina que a mesma proteína TBX20, fundamental para o desenvolvimento embrionário, pode levar a um enfarte no futuro?, diz Nóbrega. Lima lembra que o gene que provoca a anemia falciforme, mais freqüente na população negra, é o mesmo que protege africanos da malária.

Agencia Estado,

01 de janeiro de 2007 | 10h00

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