Genes imunizam contra malária

Já é sabido há algum tempo que apenas uma parcela ínfima de mosquitos na natureza é vulnerável ao parasita Plasmodium falciparum, transmissor da malária. A maior parte é, de alguma forma, imune à doença. Mas os cientistas não sabem exatamente como. Parte da resposta está em um estudo publicado hoje na revista Science, no qual pesquisadores identificam mecanismos de resistência no genoma do Anopheles gambiae, principal vetor da malária na África. A pesquisa foi feita com várias linhagens de mosquitos selvagens capturados em Mali, no oeste da África, e alimentados em laboratório com o sangue de pessoas com malária das mesmas localidades. Após um período de incubação, os cientistas verificaram quais linhagens haviam ou não contraído o parasita e estudaram seus genomas em busca de pistas genéticas sobre a resistência. De 101 linhagens, 22 se mostraram totalmente imunes ao plasmódio. Cromossomo 2L A busca levou os cientistas a uma região de aproximadamente mil genes no cromossomo 2L do mosquito. "Sabemos que os genes que controlam a imunidade estão nessa pequena ilhota genética", disse ao Estado o coordenador do estudo, Kenneth Vernick, da Universidade de Minnesota. A idéia geral, segundo ele, é identificar diferenças biológicas entre os mosquitos suscetíveis e resistentes, o que facilitaria o desenvolvimento de tecnologias capazes de atacar apenas os vetores infectados. Na natureza, os índices são surpreendentemente pequenos para uma doença que mata até 1 milhão de pessoas por ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o pesquisador Paulo Ribolla, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, a taxa de mosquitos infectados pelo plasmódio em áreas de transmissão de malária no Brasil não passa de 0,5%. "Mesmo na África, onde a transmissão é maior, esse porcentual não passa 2%." Só essa pequena parcela de mosquitos doentes, entretanto, é suficiente para infectar até 500 milhões de pessoas por ano, nas contas da OMS. Ganhando atenção Considerada por muito tempo uma das grandes doenças negligenciadas do mundo (por não atrair o interesse da indústria farmacêutica), a malária vem ganhando mais atenção da ciência - especialmente após o seqüenciamento dos genomas do P. falciparum e do A. gambiae, em 2002. A identificação de genes de resistência é importante, mas não significa que seja possível produzir mosquitos 100% imunes ao plasmódio, segundo o pesquisador Luciano Moreira, do Centro de Pesquisas René Rachou da Fiocruz, em Belo Horizonte. "O plasmódio e o mosquito convivem há milhares de anos. O parasita é esperto e sabe como burlar suas defesas", diz.

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