Arquivo Pessoal/Diego Rodrigues
Arquivo Pessoal/Diego Rodrigues

Gestantes que o coronavírus levou deixaram gêmeos saudáveis em SP

O Brasil é o país que mais perde grávidas e puérperas para o novo coronavírus, segundo estudo

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 05h00

SOROCABA – Duas gestantes próximas de dar à luz, um novo vírus, duas vidas ceifadas. Mas a história não termina assim. As duas estavam grávidas de gêmeos e deram à luz quatro bebês saudáveis. As mães, as paulistas Priscila e Larissa, entraram para uma triste estatística. O Brasil é o país que mais perde gestantes e puérperas para o novo coronavírus, segundo estudo publicada na International Journal of Gynecology and Obstetrics. Oito em cada dez mulheres nessas condições que morreram até agora no mundo pela pandemia eram brasileiras.

Ao mesmo tempo em que ainda chora a perda da esposa Priscila da Silva dos Santos, de 36 anos, o cabeleireiro Osvaldo Batista dos Santos Filho, de 38, morador de São Vicente, no litoral de São Paulo, encontra forças para cuidar dos bebês gêmeos que ela deixou. Priscila tinha completado a 34ª semana de gestação e começou a sentir dores que imaginou serem próprias da proximidade do parto. Internada no Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, ela acabou levada a uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com quadro de pneumonia, mas não resistiu. A gestante morreu no dia 15 de abril, vítima de covid-19. Os meninos João e Levi nasceram saudáveis.

Osvaldo conta que, quando a deixou no hospital, Priscila se queixava de dores e indisposição, mas não havia suspeita de contaminação pelo novo coronavírus. “Naquele dia, eu a visitei às 16h e parecia que ela estava bem, mas depois ela mandou um áudio para a irmã dizendo que as coisas não estavam boas, que tinha feito exames e deu algo ruim no rim. Quando fizeram o parto de emergência, a saturação de oxigênio no sangue estava baixa. Depois do parto ela foi levada para a UTI e não saiu mais. O atestado de óbito falava em pneumonia e insuficiência respiratória decorrentes da covid-19”, rememorou. 

Conforme o cabeleireiro, os bebês passaram por exames e não tinham o vírus. “Eu e nosso outro filho de 12 anos não tivemos nenhum sintoma. Até cheguei a ir a um hospital para fazer o exame, mas fiquei meia hora e desisti, pois tinha muito paciente com coronavírus e fiquei com receio, por causa das crianças.” 

Osvaldo disse que a mulher era forte e saudável, não tinha comorbidades. Eles já tinham o menino Lucas, mas ela queria ter outro filho. “Depois que o Lucas nasceu, a gente decidiu esperar um pouco até ajeitar a vida. Assim que conseguimos comprar nossa casa, ela achou que estava na hora de engravidar. Precisava ver a alegria dela quando soube que seriam gêmeos", lembrou. 

Com a morte da esposa, o cabeleireiro passou por momentos difíceis, mas encontrou apoio na solidariedade de vizinhos e conhecidos. “Graças a Deus e a eles não faltou nada em casa, pois ainda não consegui o auxílio maternidade.” Nesta terça-feira, 14, ele voltou a trabalhar, atendendo clientes com hora marcada – o salão fica em Santos. “Minha mãe e minha cunhada cuidam dos bebês, que estão com três meses, enquanto eu trabalho, mas só faço meio período. Não foi isso o que a gente tinha planejado, mas não posso esmorecer. Estou fazendo o máximo para cuidar bem deles, que é o que a Priscila esperaria de mim.”

'Eles vão ouvir histórias e saber da mamãe que tiveram'

Morador de Macatuba, pequena cidade do interior de São Paulo, o inspetor técnico de qualidade Diego Rodrigues, de 24 anos, também teve a vida transformada quando sua esposa Larissa Blanco, 23 anos, grávida de gêmeos, foi diagnosticada com o novo coronavírus, no dia 12 de junho. A jovem gestante apresentou sintomas de gripe, mas só precisou ser internada no dia 26 daquele mês.

No dia seguinte à noite, ela foi transferida para um hospital particular de Botucatu e entrou em trabalho de parto. Em uma cesariana de emergência, nasceram com saúde, livres do vírus, os pequenos Guilherme e Gustavo, mas a mãe não resistiu. “Deus permitiu que ela deixasse dois anjinhos para eu cuidar, para me dar forças. Os dois pequenos vão precisar muito de mim e eles vão ouvir histórias e saber da mamãe que tiveram”, disse.  

Os médicos disseram que Larissa teve uma hemorragia e precisou de transfusão de sangue. Por causa da covid-19, o corpo não respondeu bem à necessidade de conter a hemorragia e ela sofreu uma parada cardíaca. Diego e Larissa se conheceram em 2019 durante uma festa surpresa de aniversário que amigos tinham preparado para ela. “Foi Deus que a colocou na minha vida, ela era muito querida por todos, era tratada como filha pelos meus pais”, disse o jovem.

Logo veio a notícia de gravidez e, em seguida, de que Larissa teria gêmeos. “Quando ela me ligou e contou que eram dois coraçõezinhos batendo, foi aquela alegria”. Com a gravidez adiantada, o casal decidiu fazer um ensaio fotográfico. As fotos, guardadas com carinho, agora confortam o pai dos gêmeos e logo serão mostradas aos pequenos Guilherme e Gustavo. “Ela sempre vai estar em nossos corações e vamos guardar sempre o sorriso dela.” As crianças, que tiveram alta hospitalar no dia, voltaram para casa, em Macatuba, nos braços do pai.

No último dia 9, o palmeirense Diego foi surpreendido com a chegada à sua casa dos mascotes Periquito e Porco do Palmeiras. Durante a visita surpresa, o pai e os gêmeos foram agraciados com homenagens e presentes. O jovem recebeu um título de sócio do clube por um ano e um vídeo gravado pelo atacante Willian Bigode. Dias antes, fotos de Diego e dos gêmeos vestindo camisa e boné do Palmeiras, divulgadas em redes sociais, tinham chegado até os mascotes palmeirenses. Segundo o jovem, seu pai é palmeirense roxo e fez questão que os netinhos saíssem da maternidade com a homenagem ao time do coração. Os presentes, agora, enfeitam o quarto dos pequenos torcedores.

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