Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Governo busca opções para ampliar leitos e respiradores no SUS e fugir do cenário italiano

Somando as redes pública e privada, o Brasil tem 55,1 mil leitos e 65.411 respiradores. Acesso a leitos é uma das maiores preocupações de autoridades da saúde para combate à pandemia

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 13h22

BRASÍLIA - Frente ao avanço de casos do novo coronavírus no Brasil, o Ministério da Saúde busca alternativas para garantir ampliação de leitos de UTI e equipamentos essenciais ao tratamento de pacientes, como respiradores. A pasta subiu o tom nesta segunda-feira, 16, e disse querer impedir exportações de produtos usados no enfrentamento à doença, além de passar a considerar requisitar leitos ociosos da rede privada para atender pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

O ministério estima contar com 27,4 mil leitos de UTI no SUS. A taxa de ocupação é de 78%. São ainda 46.663 mil respiradores na rede pública. O acesso aos leitos é apontado como uma das maiores preocupações de autoridades da saúde para combate à pandemia.

Somando redes pública e privada, o Brasil tem 55,1 mil leitos e 65.411 respiradores. Além de reforçar leitos e equipamentos, o governo quer evitar uma curva fora do esperado de casos da doença no País, para impedir um colapso do sistema de saúde, como visto no norte da Itália. 

Nesta quarta-feira, 18, o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex) do Ministério da Economia aprovou a zeragem da alíquota do Imposto de Importação para 50 produtos médicos e hospitalares necessários ao combate à pandemia causada pelo covid-19, entre eles os respiradores.

A preocupação com a eventual falta desses equipamentos é mundial. Também nesta quarta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que vai recorrer a uma lei aprovada durante a guerra contra a Coreia, nos anos 1950, para autorizar a Casa Branca a tomar medidas extraordinárias que obriguem a indústria norte-americana a produzir equipamentos cruciais para o enfrentamento da pandemia, como respiradores e ventiladores.

Para Diogo Leite Sampaio, vice-presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), é “difícil” dizer que a oferta atual de leitos e equipamentos é satisfatória, pois dependerá da evolução do número de casos que o Brasil tiver pela frente. “Não dá para dizer que seja suficiente. Se atingir um pico (de casos) não vai ser suficiente nunca. O que o Ministério da Saúde nos disse é que está procurando forma de importação rápida de suprimentos. Não só respiradores, mas máscara, medicamento”, disse Sampaio. 

Na opinião de Sampaio, o mais importante é pensar em formas de reduzir a desigualdade no acesso aos leitos de tratamento intensivo, além de planejar ações para cenários de surto da doença, como cancelar cirurgias mais leves, montar hospitais de campanha e locar estruturas da rede privada. 

O governo federal custeará a instalação de 2 mil leitos específicos para combate à covid-19 nos Estados. A proposta é usá-los apenas para o novo coronavírus. Serão R$ 396 milhões investidos para locar os equipamentos exigidos para montar os leitos e mais R$ 260 milhões para manutenção por 6 meses destas estruturas, diz o ministério.

Como o Estado antecipou, o governo decidiu no último fim de semana instalar os primeiros 540 leitos. A primeira leva será distribuída conforme a população de cada Estado, desde que cada unidade federativa recebe ao menos 10 leitos. Em São Paulo, Estado mais populoso, serão instalados 118 quartos.

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Projeção

Especialistas e o governo evitam apontar um número de casos que faria o sistema brasileiro de saúde colapsar. Eles dizem que depende do tamanho da curva de casos que forem registrados ao longo das próximas semanas.  

Para o vice-presidente da AMB, as medidas que estão sendo tomadas até o momento pelo governo brasileiro são “acertadas”. “São formas de impedir a curva, o pico de crescimento rápido da doença. Se conseguir segurar essa curva, o sistema de saúde brasileiro vai conseguir suportar o atendimento”, disse.

Além de ações governamentais, Sampaio reforça que é preciso engajamento da população em medidas de prevenção. “Lavar as mãos parece besteira, mas não é. A gente precisa mudar um pouco a cultura no País para impedir um pico de casos, que aí sim é inviável”, disse. 

O vice-presidente da AMB observa ainda que muitos respiradores do SUS estão defasados, mas afirma que o governo promete buscar os produtos o quanto antes. Ele aponta ainda que, se houver um surto da doença, a estrutura da rede privada deve ser usada no SUS. 

Segundo o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame, a instalação dos primeiros leitos específicos para novo coronavírus dará maior segurança para enfrentar os primeiros casos. "O sistema começar a atender pacientes do novo coronavírus e observar como a doença avança", explica. Ele afirma ser difícil apontar se os 2 mil leitos serão suficientes. “Mas tranquiliza (o envio da primeira leva). Se preciso, vamos ter de reavaliar este número”, disse. O secretário afirma que o valor é similar ao usado pelo governo durante a pandemia de H1N1 (Influenza A), em 2009.

O governo já havia ameaçado impedir a exportação de equipamentos de proteção individual, como máscaras e luva. A medida, no entanto, foi lida como blefe entre pessoas da indústria, pois serviu para acelerar a compra destes produtos.

Contato

Além da instalação já programada de leitos de UTI, que contam com respiradores, monitor multiparamétrico (para medir sinais vitais) e outros produtos, a pasta deseja receber da China equipamentos que deixaram de ser usados, pois o número de casos novos reduziu naquele país.

“Estamos em contato com embaixada chinesa, para colocar o Brasil como voluntário para receber equipamentos", disse o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo. 

O governo estuda ainda parceria com empresa de turismo para usar navios de cruzeiro no Rio de Janeiro como local de atendimento de pacientes. Segundo Gabbardo, o governo não teria gasto para locar o espaço, tendo apenas de bancar a equipe de assistência à saúde.

Segundo Sampaio, da AMB, as entidades médicas e o ministério discutem a melhor forma de alocar profissionais de saúde. Nesta terça-feira, 17, houve reunião sobre o tema. O governo quer convocar estudantes do último ano da área de saúde, aposentados, além de médicos cubanos por meio do Mais Médicos. As entidades defendem que os cubanos atuem sob a supervisão de brasileiros. A ideia para estudantes é que eles auxiliem as equipes médicas, por exemplo, no contato com as famílias.

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