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Governo confirma zika em dois casos de microcefalia

'Presença do vírus não é só coincidência', disse diretor do Ministério da Saúde; 399 casos de malformação já foram registrados no País

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

17 Novembro 2015 | 18h01

Atualizada às 22h10

BRASÍLIA - Diante da hipótese, cada vez mais concreta, de que o zika vírus é responsável pelo surto de microcefalia constatado no Nordeste, o governo vai reforçar as recomendações para gestantes. As orientações de cuidados serão destinadas sobretudo aos 14 Estados que já identificaram a presença do vírus, entre eles São Paulo e Rio. Entre as medidas que serão adotadas estão uma campanha, que deverá ser veiculada em rádio e TV ainda neste ano.

Conforme o Estado revelou, dois exames de fetos com microcefalia identificaram a presença do zika vírus. As mães dos bebês, ambas residentes na Paraíba, apresentaram nos primeiros meses de gestação febre baixa, manchas vermelhas e coceiras pelo corpo. Nessas duas mulheres não foi identificada a presença de outras eventuais causas de microcefalia, como infecções por toxoplasmose, citomegalovírus e sífilis.

“Não podemos ser categóricos. Mas a presença do vírus não é apenas uma coincidência”, disse o diretor do Departamento de Doenças do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch. “Estamos sendo extremamente cautelosos nessa relação, porque a situação é nova no mundo. Até agora, não havia nenhum relato entre o vírus zika e a má-formação congênita. Por isso falamos de uma relação provável”, disse o diretor.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) foi informada sobre os resultados dos exames. Ao fazer o anúncio, o diretor convidou cientistas de todo o mundo para ajudar na comprovação da causa e efeito – uma eventual relação entre a infecção por zika e o aumento de casos.

O material foi coletado pela médica especialista em medicina fetal Adriana Melo e enviado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). As gestantes passam bem. “Nesses dois casos, podemos inferir que a microcefalia foi provocada pela infecção.”

Até agora, foram registrados no País 399 bebês que nasceram com a má-formação, que se caracteriza pela circunferência cefálica inferior a 33 centímetros. De acordo com o grau da doença, a criança pode ter deficiência mental, problemas de visão, auditivos, convulsões e dificuldades de locomoção.

Os casos aconteceram em Pernambuco (268), Sergipe (44), Rio Grande do Norte (39), Paraíba (21), Piauí (10), Ceará (9) e Bahia (8). A maior parte dos casos foi identificada nos últimos três meses.

Maior. O número é significativamente maior do que o registrado na semana passada, quando o Ministério da Saúde declarou emergência nacional em saúde pública. Na quarta-feira, quando o anúncio foi feito, havia 141 casos de microcefalia.

Diante do avanço, o ministério tornou compulsória a notificação de casos da má-formação no território nacional. O protocolo para identificação de bebês com o problema, desenvolvido em Pernambuco, deve ser usado no País. Não está definido se o governo vai preparar um protocolo para atendimento de bebês, que precisam de cuidados especiais por toda a vida.

Maierovitch afirmou que a situação é extremamente preocupante. “Embora ainda não haja confirmação, os resultados demonstram a necessidade de se reforçar ainda mais as medidas de combate ao mosquito transmissor da doença, o Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue.”

O diretor admitiu que a tarefa não é fácil. A própria história da dengue no Brasil demonstra os entraves. O vírus chegou no País na década de 1980 e, desde então, foram sucessivas as epidemias provocadas pela doença. “Não sabíamos como seria a trajetória da doença caso medidas de prevenção não tivessem sido adotadas. Poderiam ser ainda maiores do que apresentamos. Mas o fato é que os indicadores só aumentaram.”

Na próxima semana, uma reunião será feita com representantes das secretarias de Saúde para discutir estratégias para reforçar o combate ao mosquito, que transmite, além de dengue e zika, a chikungunya.

O isolamento do vírus da zika nos bebês com microcefalia usou três metodologias. O resultado será usado para nortear outros exames e, com isso, comprovar ou descartar a associação da má-formação e a infecção. “Sabemos exatamente qual o tipo do vírus, o que facilita muito o trabalho.”

Maierovitch descartou a realização de exames de líquido amniótico em outras gestantes que tenham suspeita da infecção ou de rotina. “Eticamente isso não é recomendado. O teste traz riscos, é indicado em situações determinadas.” A ideia de autoridades sanitárias é, com o conhecimento do tipo de vírus, tentar identificá-lo em outras pacientes, mas por meio da análise de outros materiais, como sangue do bebê e da mãe e até mesmo cordão umbilical.

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