NILTON FUKUDA/ESTADAO
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Estado de SP tem transmissão comunitária de coronavírus e projeta ao menos 460 mil infectados

Estimativa oficial foi divulgada após viralizar áudio de cardiologista que participou de reunião com o coordenador do centro de contingência de SP; na mensagem, previsão era de 45 mil casos na Grande SP

Fabiana Cambricoli e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2020 | 12h29
Atualizado 13 de março de 2020 | 00h09

SÃO PAULO - O Centro de Contingência para o Coronavírus do governo do Estado de São Paulo informou nesta quinta-feira, 12, que já há transmissão comunitária da doença em território paulista e afirmou que projeta para os próximos meses pelo menos 460 mil infectados pela covid-19 no Estado, contando os casos assintomáticos. Até esta quinta, São Paulo contabilizava 42 dos 77 registros confirmados da doença no País, segundo dados do Ministério da Saúde.

O Estado de São Paulo definiu três cenários de números de infecções para que a rede pública se prepare para um aumento de demanda no sistema de saúde. O cenário menos grave estima que 1% dos 46 milhões de habitantes do Estado será contaminado, resultando nas 460 mil pessoas mencionadas acima. Já o cenário mais pessimista projeta 10% dos paulistas infectados, o equivalente a 4,6 milhões de indivíduos.

“No enfrentamento (do surto), o que se objetiva é o tratamento dos doentes graves e trabalhamos com cenários. Eles vão desde 1% da contaminação da população até 5% e 10%. Esses cenários são repassados ao secretário (estadual da Saúde), que demanda aquilo que é preciso: número de leitos, investimento, custeio e recursos humanos. São Paulo tem 46 milhões de habitantes, 60% disso tem atendimento exclusivamente do SUS e, em cima disso, tem todo o planejamento”, disse o infectologista David Uip, coordenador do centro de contingência, responsável por apresentar as estimativas em entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira.

A explicação foi dada após viralizar no Whatsapp um áudio gravado pelo cirurgião Fábio Jatene descrevendo projeções feitas por Uip em reunião no Instituto do Coração (InCor) na quarta-feira, onde Jatene é membro da diretoria. Na reunião, teria sido divulgado por Uip uma projeção de 45 mil casos na Grande São Paulo em quatro meses. Tanto Jatene quanto Uip confirmaram a veracidade do áudio e o dado chegou a ser publicado pelo Estado, mas, posteriormente, o infectologista afirmou que os números foram uma interpretação de Jatene com base no cenário apresentado pelo representante do governo estadual.

Na coletiva de imprensa, ao explicar as projeções oficiais, Uip destacou que se trata de cenários desenhados para diferentes situações que podem ocorrer no Estado com a disseminação do vírus. Mas, para o que chamou de “primeira onda” da infecção, a proposta é ter 1,4 mil leitos de UTI extras para receber os pacientes.

Sobre os altos números da projeção, Uip diz que fala de estimativas para todo o período da epidemia. “Não é para hoje nem amanhã, é para os próximos meses. O mundo vai ter novos países e números novos de casos”, disse. Ele destacou que a maioria desses infectados, cerca de 80%, não precisará de atendimento hospitalar pois terá apenas sintomas leves. Os outros 20% precisarão de internação, segundo as estimativas.

Tal proporção de casos (1% a 10%) ainda não foi observada em países que já vivem um surto mais severo, como China e Itália. Mas as estatísticas oficiais geralmente não incluem os casos assintomáticos, cujo diagnóstico é mais raro.

O infectologista disse ao Estado que as projeções foram feitas por epidemiologistas, considerando tanto dados de pandemias passadas, como a de gripe H1N1, entre 2009 e 2010, quanto a evolução do surto de coronavírus em outros países, além de estudos científicos publicados. Ele não detalhou como os cálculos foram feitos.

O coordenador do centro de contingência destacou que não é possível estimar qual dos três cenários estimados é mais provável porque ainda não se sabe o comportamento do vírus no Brasil. “Cenários são estimativas. Pode acontecer 1%, 2%, 5%, 10%. Tem um fato novo que nós precisamos aprender: como é que esse vírus vai se comportar em um país tropical no verão e entendendo que, daqui a pouco, estaremos no outono. Eu não consigo dizer hoje se vai ser 1% ou 10%”, explicou.

Ele disse que a projeção pode mudar caso nos próximos meses seja descoberto um tratamento para a doença. “No final de abril deveremos ter os primeiros resultados dos medicamentos que estão sendo testados. Se tivermos um bom resultado, esses cenários mudam completamente.”

Transmissão comunitária

Sobre a circulação do vírus no Estado, Uip diz que já é possível afirmar que há transmissão comunitária pelo histórico das pessoas que vêm sendo diagnosticadas. “Já está havendo transmissão comunitária porque pessoas que não viajaram e não tiveram contato com indivíduos sabidamente com coronavírus positivo estão com resultados positivos.” Apesar do cenário preocupante, o governador João Doria (PSDB) afirmou que ainda não há recomendação para cancelamento de eventos públicos.

Diante do aumento de casos do novo coronavírus, o governo de São Paulo anunciou ontem que vai solicitar recursos para a criação de mil novos leitos de UTI. Segundo a gestão estadual, serão comprados também respiradores, luvas e máscaras. 

“São leitos que estão prontos e precisam ser habilitados pelo Ministério da Saúde. Estamos solicitando recursos para a compra de aparelhos, insumos e contratação de pessoal. Há uma pandemia em desenvolvimento. Isso é um planejamento necessário para aquilo que entendemos que é a primeira onda, que deve durar de quatro a cinco meses”, explicou David Uip. 

Desses leitos, que ainda não têm a estrutura de uma UTI, 600 são da Prefeitura e 441 são da rede estadual. Segundo Uip, em um primeiro momento o Estado necessita de 1,4 mil leitos e a solicitação inicial de recursos será de R$ 250 milhões. O coordenador diz que São Paulo tem 7,2 mil leitos de UTI e, ocorrendo a liberação dos recursos, a oferta será gradativa. “O tempo da demanda é: quanto antes tivermos, melhor.” 

Alguns hospitais de referência estão sendo preparados para o cenário de emergência. Um andar inteiro do Hospital das Clínicas de São Paulo já estaria com seus 75 leitos de UTI reservados para doentes com infecção pelo coronavírus. 

Os gestores estaduais cobraram que a população se informe corretamente sobre a doença. “Não vamos distribuir máscaras para a população, porque não tem efeito nenhum”, disse o secretário de Estado da Saúde, José Henrique Germann. 

Outra orientação foi para que a população idosa e com doenças crônicas evite locais com aglomeração. “A recomendação é para que se poupe e seja protegido”, disse Uip. Segundo o governador João Doria (PSDB), o Estado não vai adotar medidas preventivas desnecessariamente, porque isso interfere na vida das pessoas. “Nossas decisões não são políticas, são sanitárias.”

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