Governo de SP
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Governo de SP vai testar impacto da imunização contra covid-19 em Serrana: 'estudo inédito no mundo'

Vacinação em massa no interior do Estado pretende medir taxa de transmissão, impacto na economia e adesão da população

João Ker e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 12h34
Atualizado 09 de fevereiro de 2021 | 00h15

O governador João Doria (PSDB) anunciou que vai vacinar toda a população de Serrana, no interior do Estado, para testar a eficiência da Coronavac em frear a transmissão do coronavírus. De acordo com Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, esse seria o primeiro estudo do tipo em todo o mundo e deve imunizar 30 mil pessoas para medir parâmetros como uma possível imunidade de rebanho, efeitos econômicos e taxa de transmissão do vírus. 

Assista abaixo:

“Queremos provar que, além de eficaz e segura, a vacina também pode reduzir o contágio da covid-19”, apontou o governador. Batizado inicialmente de Projeto S, o estudo escalonado por conglomerados terá início no próximo dia 17. “Queremos determinar qual o efeito da vacinação em massa sobre a evolução da epidemia. Normalmente, esses dados aparecem após os programas de vacinação, no final do ano”, explicou Covas.

Os resultados do estudo devem estar disponíveis três meses após o início da imunização no município, que foi escolhido por ter uma população pequena, com taxa de infecção elevada e conter um centro de pesquisa ligado ao Estado. De acordo com Covas, outro ponto analisado foi o fato de grande parte dos moradores de Serrana trabalhar em outra cidade. 

Ao longo do estudo, os critérios avaliados serão a taxa de transmissão da infecção, a redução do uso do sistema de saúde (carga da epidemia), a possível imunidade de rebanho e outros efeitos indiretos, como impacto na economia, aceitação da vacinação e a ocorrência de efeitos colaterais que não tenham sido observados anteriormente. A Coronavac será aplicada em cerca de 30 mil habitantes acima dos 18 anos, que serão submetidos a um censo de georreferenciamento e divididos em quatro regiões, que também foram repartidas em outras sub-regiões.

A população de Serrana, cidade de 45.844 habitantes, na região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, vive a expectativa de se tornar a primeira cidade do Brasil a ter praticamente toda a população adulta vacinada contra a covid-19.

Segundo o Butantã, os lotes de Coronavac foram produzidos exclusivamente para o projeto, não interferindo na distribuição de vacinas para o programa nacional de imunização, que se realiza em todo o país. Na cidade, inclusive, os profissionais de saúde já foram vacinados. As doses do estudo serão usadas em caráter de pesquisa clínica, com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O anúncio à população de Serrana foi feito no último sábado, 6, através de live, com as presenças de técnicos do Instituto, incluindo o diretor Dimas Covas, dirigentes do Hospital Estadual e de autoridades locais, entre elas o prefeito Léo Capitelli (MDB). Na ocasião, Dimas anunciou que o estudo, até então guardado "a sete chaves", passaria a ser chamar Projeto Serrana. “É um projeto que vai levar Serrana para o mundo todo”, disse.

Conforme Covas, ainda não existe um estudo que mostre o impacto da vacina em uma população inteira. “Sabemos que a vacina é segura e eficaz, mas quando pensamos no coletivo, numa comunidade, será que vamos conter a pandemia através da vacinação? Aqui, não estamos pensando em uma pessoa, mas em uma comunidade. Mas é preciso que toda população esteja disposta a participar. Estamos num dos momentos mais críticos da pandemia, com a possibilidade de ter novos vírus circulando, por isso o projeto vem em um momento certo.”

Um dos efeitos esperados é aferir se a vacinação em massa protege aquelas pessoas que não podem ser vacinadas, como as crianças ou pessoas que recebem algum tipo de medicamento. “Não se trata de uma vacinação de rotina. Ela tem o sentido de responder a uma questão de pesquisa, que é saber se nós conseguimos demonstrar a utilidade da vacina em nível de uma comunidade e sua capacidade de deter a pandemia, interrompendo ou diminuindo a transmissão. Vamos construir um conhecimento que o mundo está precisando”, afirmou Covas.

Cadastramento começa nesta quarta-feira na cidade

A partir desta quarta-feira, 10, os moradores interessados terão de comparecer a uma das sete escolas da rede pública escolhidas para o projeto para fazer o recadastramento. Elas serão orientadas sobre o estudo e informadas de alguns detalhes, como o de que, após receberem a vacina, precisam permanecer no local cerca de uma hora e meia para as primeiras avaliações.

Segundo o prefeito Léo Capitelli (MDB) equipes da Guarda Civil Municipal vão acompanhar o recadastramento dos voluntários, que terá início na quarta-feira (10), e todo o processo de vacinação, que se inicia no dia 17 e segue pelos próximos 60 dias. “Se necessário, vamos contar com reforço da Polícia Militar”, disse.

“Estamos prevendo a vacinação de cerca de 30 mil pessoas ou pouco mais, o que nos permitirá acompanhar a evolução da pandemia. Tem aspectos técnicos que vão permitir cálculos, fazer projeções e avaliar se a vacina é eficaz em diminuir a transmissão ou não, e em qual porcentagem. Há uma metodologia que permite isso”, disse o diretor de pesquisa do Butantã, Ricardo Palacios.

Uma delas é a vacinação escalonada, que permite comparar os efeitos no grupo já vacinado com o que ainda não recebeu o imunizante. Para isso, a cidade foi dividida em 25 partes que formam quatro regiões identificadas por cores – verde, amarelo, cinza e azul. A aplicação começa no dia 17 e vai até o dia 20 para moradores da região verde. Em seguida, será feita para outras regiões. Todos os cadastrados recebem a primeira dose até o dia 13 de março. A segunda dose será aplicada nas quatro semanas seguintes, ou seja, em dois meses, a vacinação em massa estará concluída.

Conforme a secretária municipal de Saúde, Leila Gusmão, que é também a vice-prefeita, a equipe municipal que aplicará a vacina junto com aplicadores do Butantã já recebeu treinamento. “A maioria já atua em nossas unidades básicas e de saúde da família, onde todo o pessoal está mobilizado para orientar a população sobre o projeto”, disse.

O prefeito afirmou que lideranças religiosas e de bairros se colocaram à disposição para colaborar com o estudo. “Há um sentimento de orgulho pela cidade ter sido escolhida e poder contribuir para um projeto de repercussão mundial.”

A live de apresentação do projeto em rede social da prefeitura já teve 13 mil visualizações e recebeu 1,3 mil comentários. “Todos estarão protegidos, uma grande notícia”, escreveu a nutricionista Talita Veloso. O diácono Frei Sérgio Nogueira disse que tomará a vacina com muita fé e esperança. “Oro por todos os envolvidos a ajudar o próximo. Deus nos abençoe”, postou. “Quem diria que a falta de distanciamento e protocolos aqui iria colocar Serrana no mapa. Só fomos escolhidos por ter uma das maiores contaminações”, pontuou a moradora Marcela Sinastro.

Na cidade, a vacinação em massa virou assunto obrigatório, mas não há unanimidade entre os moradores. A comerciária Camila Carvalho, de 33 anos, funcionária de uma loja de autopeças, não vê a hora de ser vacinada. “Estava achando que não seria vacinada este ano, até que surgiu esse projeto. Ainda vou me inteirar dos detalhes, ver onde e quando me vacino, mas com certeza estarei lá na minha data”, disse.

Fernanda Silva, de 20 anos, recepcionista de um hotel da região central, ainda não tem certeza se vai tomar a vacina. “Na verdade, estou em dúvida e com um pouco de receio. Conheço pessoas que tomaram outra vacina, não a Coronavac, e tiveram reações. Vou conversar com meus familiares para decidir.” Uma colega recepcionista de 41 anos, que pediu para não ser identificada, também está em dúvida sobre tomar a vacina. “Acho que, no fim das contas, vou acabar tomando, mas tenho medo. A gente ouve tanta coisa.”

O motorista de aplicativo André Silveira, de 54 anos, vai se cadastrar para receber a vacina. “Eu ia me vacinar de qualquer jeito, pois tivemos dois casos de covid na família e um deles foi bastante grave. Agora surgiu essa oportunidade e não se fala em outra coisa na cidade. Fico feliz por Serrana ter sido escolhida, depois de tantas mortes que aconteceram aqui. Em casa, todos os adultos vão participar do projeto e garantir a vacina.”

Nesta segunda-feira, 8, foi iniciada uma campanha nas mídias e redes sociais reforçando que apenas moradores de Serrana podem participar do estudo. “Estamos empenhados em divulgar o projeto para que as pessoas saibam em qual cor está seu domicílio, que unidade de saúde deve procurar e em quais dias”, disse o prefeito. Segundo ele, líderes comunitários estão mobilizados para colaborar com o projeto. As vacinas destinadas ao projeto estão guardadas em local estratégico, com vigilância.

Greve de professores 

Tanto o governador quanto o secretário de Educação do Estado, Rossieli Soares, criticaram a greve proposta pelo Sindicato dos Professores contra a retomada presencial das aulas, que começou nesta segunda, 8, com o início do ano letivo de 2021. “Apesar da tentativa do sindicato de proibir a educação e os professores de estarem trabalhando, nitidamente ele fracassou. Os professores demonstraram compromisso absoluto e não tivemos nenhuma escola que tenha interrompido suas atividades por adesão à greve, exceto em casos pontuais”, afirmou Rossieli. 

De acordo com ele, os professores que aderirem à greve serão punidos com registro de falta na folha de pagamento. O secretário ainda reforçou que o País está há mais de 43 semanas sem aula e que “não dá para falarmos que educação não é prioridade”. Ainda nesta manhã, Rossieli já havia anunciado que os salários dos professores que não retornarem à escola serão descontados a partir de hoje. O governo também estuda acionar a Justiça contra a greve.

“Sem adesão, a greve proposta pelo Sindicato dos Professores não impediu a volta às aulas na rede estadual de educação”, disse Doria, afirmando que a retomada do ensino foi feita de forma “gradual e segura”. Neste primeiro dia de reabertura oficial das escolas, sete unidades foram fechadas por casos de contaminação do coronavírus.

Ainda na sexta, a administração João Doria recuou da obrigatoriedade de presença dos estudantes nas escolas públicas ou particulares do Estado durante a fase amarela do Plano SP no Estado. No último dia 13, uma resolução do Conselho Estadual de Educação havia estabelecido a obrigatoriedade de o aluno frequentar pelo menos 1/3 das aulas. Dias depois, Soares revogou essa obrigatoriedade nas fases vermelha e laranja, mas manteve nas demais etapas, até recuar também desta decisão na última semana. 

Ao todo, o Estado de São Paulo já tem 1.851.776 casos confirmados do coronavírus e 54.663 mortes pela doença.

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