GABRIELA BILO/ESTADAO
GABRIELA BILO/ESTADAO

Governo do AM sugere abrir valas no interior por falta de oxigênio; Justiça obriga envio do gás

A orientação é citada pelo Ministério Público Estadual, que entrou com uma ação civil pública neste sábado, 16, para obrigar o Estado a enviar oxigênio para o município de Itacoatiara, a 269 quilômetros de Manaus

Liege Albuquerque  e João Prata, Especial para o Estadão

16 de janeiro de 2021 | 15h48
Atualizado 20 de janeiro de 2021 | 20h19

MANAUS - O governo do Amazonas orientou uma prefeitura do interior do Estado a abrir valas para enterrar seus mortos por não ter previsão de chegada de cilindros de oxigênio em nenhuma cidade do interior.  Esta orientação foi citada pelo Ministério Público Estadual, que entrou com uma ação civil pública neste sábado, 16, para obrigar o Estado a enviar oxigênio para o município de Itacoatiara, a 269 quilômetros de Manaus. A Justiça acatou o pedido.

"Se o Estado não enviar o oxigênio ao hospital local de Itacoatiara-AM em quantidade suficiente, como já comprovado, teremos a morte de pelo menos 77 pessoas simultaneamente por insuficiência respiratória, devido à falta do material", afirmou o juiz Rafael Almeida Cró Brito. O prazo dado foi de 12 horas e a multa é de R$ 20 mil por hora de descumprimento.

Segundo o MP, o secretário de Interior da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), Cássio Espírito Santo, chegou a oferecer câmaras frigoríficas ao prefeito da cidade, Mario Jorge Abrahim, orientando a abrir valas no cemitério local, uma vez que não há previsão para o fornecimento de oxigênio para o município. 

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde disse que o “governo está empreendendo todos os esforços, com auxílio do governo federal, para equacionar as dificuldades encontradas na logística de abastecimento de oxigênio nas unidades de saúde da rede estadual da capital e interior”. Afirmou também que “as equipes de saúde estão monitorando os níveis de abastecimento em todas as unidades para suprir de imediato aquelas que entram em estado mais crítico”, mas não disse quando atenderia à decisão da Justiça.

A secretaria afirmou ainda que a empresa responsável pelo serviço sinalizou “não conseguir suprir as necessidades da rede com a produção local em virtude da demanda atual pelo produto e as crescentes internações na rede pública de saúde”

Dos 61 municípios do interior, apenas 11 têm hospitais e os outros contam somente com postos de saúde. Nenhum dos hospitais do interior tem leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). De acordo com a promotora de Itacoatiara, Marcelle Arruda, neste sábado havia mais de 70 pacientes com covid-19 no Hospital José Mendes, o único da cidade, recebendo oxigênio. 

“Ontem (sexta) quatro foram a óbito porque faltou oxigênio e tememos que todos possam morrer entre hoje (sábado) e amanhã (domingo) se não chegar oxigênio”, disse. A demanda atual é de 150 cilindros por dia. Metade disso está sendo usada hoje, o resto está vazio. 

Rogéria Lima, médica e secretária de Saúde de Itacoatiara, afirmou no fim da tarde deste sábado, que o número de mortos já tinha subido para sete. “Estamos lutando aqui para manter as pessoas vivas. Somos uma cidade com população de cem mil pessoas, polo para outros cinco municípios do interior. Nosso hospital, o José Mendes, tem 93 leitos para covid. Não temos estrutura para UTI. Estamos lotados. Temos um caminhão tanque com capacidade para 350 metros cúbicos de oxigênio. Desde o dia 13 não é abastecido”, relatou.

Segundo ela, um tanque desses dura normalmente 24 horas. O último tinha acabado na noite de sexta. O governo do Estado mandou 40 cilindros na manhã de sexta e outros 50 foram doados por empresários, mas já tinham acabado neste sábado. 

“Estamos fazendo um verdadeiro milagre. Temos tomado todo cuidado para evitar qualquer desperdício. Com os pacientes que não estão tão grave, temos feito fisioterapia respiratória. Aqui na região não tem cilindro para comprar. Ficamos a 266 quilômetros de Manaus. Um caminhão de oxigênio vai demorar seis horas para chegar até aqui. Mas a distribuição tem ficado na capital e nas proximidades, não tem chegado até aqui”, disse.

Rogéria explicou o prefeito está tentando comprar uma usina de oxigênio, mas a expectativa é que leve uns dez dias para construir e deve custar em torno de R$ 500 mil, recurso que ela diz que a cidade não tem. “Mas também não aguentamos mais ver os pacientes sofrendo. Estamos há 48 horas sem dormir. São enfermeiros, médicos e fisioterapeutas incansáveis. Nossa missão é salvar vidas. Nossa população é muito carente financeiramente. O aluguel só do conteúdo do cilindro é R$ 250. Uma bala (cilindro) custa em torno de R$ 5 mil aqui no Amazonas”, disse.

“Estou em desespero. Os pacientes chegam com saturação de 40 (o normal é 100). Estou com uma grávida de 21 semanas, com covid, aguardando há dois dias a remoção por causa da gravidez de alto risco. Temos observado muitos óbitos de bebês em gestantes com covid. Muito triste.” Ela disse que ela mesma teve covid, na primeira onda da doença no Estado, em maio.

“Peguei tentando salvar meu pai que estava na UTI. Mas foi em maio, ainda havia oxigênio e consegui ser transferida para Manaus. Fiquei um mês sem trabalhar porque não conseguia andar. É uma doença terrível. Nunca vi nada igual. Não estou procurando culpados, estou buscando soluções. Quero que Itacoatiara e todo o interior receba oxigênio. Ninguém merece morrer querendo respirar.”

 

Pedido de urgência

De acordo com a promotora Marcelle, todas as promotorias das comarcas do interior estão entrando com ações do mesmo tipo. “É urgente que parte das doações ou compra de oxigênio do governo do Estado seja para o interior também. Há seres humanos morrendo aqui e sem esperança alguma”, complementou a promotora Lilian Almeida, de Macapuru, município a 100 quilômetros de Manaus. Segundo ela, a demanda diária atual é de 160 cilindros por dia, e neste sábado só havia 44. 

Em Parintins, município a 466 quilômetros de Manaus, a situação era parecida. Na sexta, o prefeito da cidade anunciou que amanhã devem começar a chegar equipamentos da Alemanha comprados pela prefeitura para montar uma usina de oxigênio, que será feita no único hospital público da cidade, Jofre Cohen. 

A irmã do comerciante Julio Pereira, de Parintins, está internada há cinco dias no Jofre. “Estão revezando o cilindro de oxigênio nela, não dá para nada, é desesperador. A gente vê a campanha ‘Ore por Manaus’, mas é para orar pelo Amazonas, a vida do interiorano não vale menos”, disse.

“Sabemos que o que está chegando do governo federal ou de doações não é suficiente nem para Manaus, mas é preciso dividir com o interior”, afirmou a promotora de Parintins, Marina Campos Maciel. Segundo ela, na sexta havia 90 pessoas internadas por covid precisando de oxigênio no hospital local, neste sábado eram 104. “Cinco foram entubadas, e nem UTI temos. Para essas, um segundo sem oxigênio é morte imediata.”

Marina pretendia entrar ainda neste sábado com uma ação civil pública pedindo, além de oxigênio, prioridade para a remoção de pacientes para a capital, para de lá também tentarem ir para outros Estados onde há oxigênio. “Enfrentamos duas filas: para o paciente ser transferido para Manaus, que não tem oxigênio, para de lá ser transferido para outro Estado, mas nunca o interior é prioridade”.

Em Iranduba, município a de Manaus, no hospital Hilda Freire, também único local, improvisaram respiradores caseiros com aparelhos de inalação e água, segundo uma enfermeira. “Estamos há 15 horas sem oxigênio para 80 pessoas, a população está trazendo seus aparelhos de inalação para tentar ajudar”. Segundo ela, além de oxigênio estão faltando EPIs, e kits de manômetro e fluxômetro para os respiradores.

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