EFE/EPA/ROBIN VAN LONKHUIJSEN
EFE/EPA/ROBIN VAN LONKHUIJSEN

Governo prevê usar testes rápidos e moleculares para coronavírus; entenda a diferença entre eles

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: Primeiro tipo de exame, o sorológico, rastreia a presença de anticorpos no organismo de quem foi infectado; segundo, chamado também de PCR, detecta material genético do vírus

Giovana Girardi e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - O Ministério da Saúde anunciou nesta terça-feira, 24, que pretende aplicar 22,9 milhões de exames para diagnosticar o novo coronavírus. A ideia é fazer a testagem em massa, estratégia adotada por países que conseguiram controlar a doença, como a Coreia do Sul, e indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A promessa do governo federal, no entanto, esbarra no limite da capacidade de produção da Fiocruz, principal laboratório público responsável por fornecer kits. O governo também conta com doações e compras no mercado internacional para atingir essa meta. 

No pacote da gestão Jair Bolsonaro, são previstos 14,9 testes moleculares, o PCR, e 8 milhões de testes ráídos, os sorológicos. Gustavo Campana, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial, sociedade científica que representa os médicos e os laboratórios de exames laboratoriais, explica que o PCR aponta se há infecção em tempo real, quando o vírus está em ação no corpo humano. Detecta o material genético do coronavírus e é o mais indicado para ver se uma pessoa num dado momento está contaminada.

Já o sorológico rastreia a presença de anticorpos que o corpo está produzindo em resposta à infecção. Em geral, captam dois tipos de anticorpos: o igm, que aparece alguns dias após a contaminação, quando já houve replicação viral considerável e o organismo começa a se defender; e o igg, que é o anticorpo que em geral aparece mais ao final e permanece para sempre, por causa da imunização adquirida.

“Não temos dados ainda para esse coronavírus de em qual momento exatamente aparece o igm. Usar esse exame para fazer o screening de pacientes que chegam doentes pode não ser tão adequado, pois pode ocorrer de eles estarem em um momento ainda com poucos anticorpos e o resultado dar negativo. Se der positivo, a informação é ótima. Mas se der negativo, não é conclusivo”, afirma Campana.

Ele diz, porém, que aplicando o teste dentro de uma janela relativamente segura – de 5 a 7 dias após uma possível contaminação, normalmente quando aparecem os sintomas –, a chance de confirmação é melhor. Por isso, ele recomenda que se faça uso desses exames especialmente em profissionais de saúde neste intervalo de tempo, a fim de protegê-los ou ter certeza para liberá-los ao trabalho.

O exame sorológico também é importante para a vigilância epidemiológica, para ajudar a mapear quantas pessoas foram infectadas e entender a dinâmica da doença. Conhecendo o histórico do paciente – alguém que entrou em contato com outra pessoa infectada uma semana antes, por exemplo –, o sorológico também pode ser aplicado, diz Campana. “Mas para fazer um diagnóstico em tempo real, tem de ser o PCR”, afirma.

Wilson Shcolnik, presidente da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), entidade que representa os maiores laboratórios privados do País, destaca ainda que a qualidade e o desempenho dos testes rápidos ainda não foram devidamente testados. "Têm uma alta especificidade, ou seja, quando diz que é positivo, são altas as chances de estar certo. O problema é a precisão. Como detecta a infecção só depois de alguns dias dos sintomas, se o paciente fizer muito precocemente, pode ter um resultado falso negativo e ficar com falsa sensação de segurança."

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