Governo vai coibir abusos de bancos de cordão umbilical

Armazenagem de células para grávidas varia de R$ 4 mil a R$ 5 mil; ministério regulará propaganda

Fabiana Cimieri,

08 de outubro de 2007 | 18h25

O Ministério da Saúde irá regular a propaganda e coibir abusos cometidos pelos bancos privados de sangue do cordão umbilical, avisou nesta segunda-feira o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, durante a inauguração do novo banco de armazenamento de células-tronco do cordão no Instituto Nacional do Câncer (Inca). "A posição (do ministério) é de regular. Vamos coibir abusos e garantir que eles se insiram dentro de uma estrutura nacional vinculada à perspectiva de saúde pública", afirmou Temporão, acrescentando que, atualmente, não existem nenhuma comprovação científica do uso terapêutico dessas células. "Quando você coleta e estoca no banco privado, aposta numa única hipótese, não comprovada cientificamente, de que, no futuro, esse sangue pode ser usado pelo seu filho. Poderá se transformar numa possibilidade ou não. Mas isso tem um custo. As pessoas tem que pagar pela coleta e estocagem ao longo dos anos", completou ele. O armazenamento de células do cordão umbilical passou a ser um item indispensável do enxoval das grávidas que podem pagar entre R$ 4 mil e R$ 5 mil pela coleta do material e de R$ 500 a R$ 1 mil por ano para mantê-lo congelado em nitrogênio líquido a uma temperatura de - 200 ºC. Ao contrário do que afirmam a propaganda dessas empresas - que prometem uma alternativa terapêutica segura para a cura de uma infinidade de doenças genéticas - a comunidade científica internacional não recomenda o armazenamento do sangue do cordão em bancos privados. Alguns países, como a França e a Espanha, proíbem sua existência. Hoje em dia, a única utilidade do sangue do cordão é em transplantes de medula óssea. Mesmo nesses casos, o material não pode ser usado pela própria criança porque a predisposição à doença já estaria em seu material genético desde a placenta. Em tese, um irmão saudável poderia doar para o que está doente, mas os bancos privados são regulados por uma norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária que só permite o uso autólogo, ou seja, no próprio paciente. "O ministro tem razão, existem abusos. Adoraríamos ver um aperto na legislação. Têm empresas brasileiras que em seus panfletos dizem que fazem expansão de células, coisa que no mundo inteiro ninguém faz", disse Roberto Waddington, presidente da CordVida, que tem sede em São Paulo e é um dos dois bancos que realizam a coleta em todo o território nacional. Para Waddington, além de regular a propaganda, o Ministério da Saúde deveria flexibilizar a norma que proíbe que as células troncos armazenadas em bancos privados sejam transplantadas para outros pacientes. Ele citou o caso de um recém-nascido de Porto Alegre, que era compatível com o irmão de 3 anos, portador de leucemia. "Tivemos que negociar uma autorização especial com a Anvisa, foi difícil, mas conseguimos", contou. Ele também contestou afirmação de que a armazenagem não passa de uma aposta no futuro. "O maior banco privado do mundo, o CordBlood, já realizou 15 transplantes autólogos desde 2004, inclusive 9 em caráter experimental para tratar casos de diabetes do tipo 1 e paralisia facial." Para o diretor do Centro de Transplantes de Medula Óssea do Inca, Luís Fernando Bouzas, ex-diretor da CordVida no Brasil, "os bancos privados não têm nesse momento um embasamento científico para continuarem existindo". Em sua opinião, o problema não é as pessoas congelarem o sangue do cordão dos seus filhos, mas sim o fato de serem influenciadas pela propaganda enganosa: "É uma aposta no futuro. Quer congelar? Congele. Mas não há comprovação de que no futuro poderão regenerar tecidos. Os estudos nesse sentido estão sendo feito com células hematopoéticas (células tronco da medula óssea, e não do cordão umbilical)", avisa. Bouzas não aceita operar pacientes que recebam material hematológico de bancos privados. "O transplante é quase 100% feito pela rede pública. Se tiver algum problema na armazenagem ou aquele material tiver contaminado, quem vai responder por isso?". O material estocado nos bancos públicos podem ser utilizados por qualquer pessoa, desde que haja compatibilidade. O Banco de Sangue do Cordão Umbilical e Placentário do Inca, inaugurado ontem, teve a capacidade ampliada de 3.000 para 10.000 bolsas. O investimento, de R$ 4 milhões, foi do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. O projeto faz parte do plano de expansão da rede BrasilCord, que reúne os bancos públicos de sangue do cordão umbilical. Além do Inca, já estão em funcionamento uma unidade do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e os hemocentros da Unicamp, em Campinas, e em Ribeirão Preto. Nos próximos três anos, estão previstas a instalação de mais oito unidades (Ceará, Pernambuco, Pará, Distrito federal, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais), totalizando uma capacidade de armazenagem de 50 mil bolsas. "É mais importante a qualidade desse material, preservando o protocolo de coleta e as diversidades étnicas e raciais de cada região do que a quantidade", concluiu Bouzas.

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