Thaíse Rocha
Thaíse Rocha

Governo volta a decretar fechamento de bares e balneários em Manaus após aumento de casos

Infecções na capital amazonense cresceram 55% no início de setembro. Governo diz que alta não está relacionada ao retorno das aulas presenciais e vê ligação com aglomerações clandestinas

Thaíse Rocha, Especial para o Estadão

24 de setembro de 2020 | 20h45

   

MANAUS - Com o aumento de casos de covid-19 em Manaus, o governo do Amazonas voltou a decretar o fechamento de bares, casas de show, balneários, flutuantes e acesso a praias de recreação na capital amazonense. A determinação começa a vigorar a partir desta quinta-feira, 24, e valerá por 30 dias.

Segundo dados epidemiológicos da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), apesar da redução de 29,4% nas internações pelo novo coronavírus no Estado, Manaus apresentou alta de 55,9% no número de casos no período de 6 a 12 de setembro. No último dia 23 de setembro, foram registrados 726 casos confirmados, com 199 internações (82 na rede privada e 117 na pública). Já no dia 23 de agosto, foram confirmados 246 casos com 181 internações (38 na rede privada e 143 na pública).

Em coletiva à imprensa, o governador Wilson Lima (PSC) afirmou que o aumento de casos não está relacionado ao retorno das aulas presenciais, e sim com as aglomerações causadas por eventos clandestinos que vem ocorrendo com frequência. 

“A gente tem observado nos últimos dias uma tendência de aumento de casos de covid e essa tendência de aumento é resultado de aglomerações que todos nós temos acompanhado nas redes sociais. Não é o retorno das aulas, do ano letivo, que está promovendo esse aumento da covid na capital, e tem um grupo que fica querendo que o governo do Estado não abra as escolas, mas que deixe a balada aberta, que deixe o balneário aberto", disse Lima. 

"Nós não podemos punir o aluno público, que já tem um defasagem histórica em relação ao ensino privado”, destacou ele, ressaltando que o retorno das aulas presenciais para o ensino fundamental está programado para o dia 30 de setembro. Até o momento, apenas o ensino médio está presencial.

Nesta semana, um estudo divulgado na plataforma medRxiv sugeriu que Manaus pode ter atingido a imunidade de rebanho. A análise mostrou que quando a cidade estava no pico da epidemia de covid-19, em meados de maio, cerca de 46% da população local já havia contraído o Sars-CoV-2. Após um mês, o porcentual de infectados teria atingido 65% e, nos dois meses seguintes, teria se estabilizado em torno de 66%. Segundo os autores, essa taxa “excepcionalmente alta” pode indicar que essa imunidade coletiva tenha contribuído significativamente para determinar o tamanho final da epidemia na capital amazonense.

O que fecha em Manaus com a decisão do governo

A suspensão se aplica aos estabelecimentos que não estejam registrados como restaurante na classificação principal do CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas). Eles poderão funcionar até 22h, sem música ao vivo. Já os demais fecharão totalmente, funcionando apenas o sistema de delivery.

Além disso, também serão suspensas a realização de eventos em casas noturnas, casas de show, e imóveis usados para o mesmo fim como: sítios, casas, chácaras, associações e clubes. Casamentos e aniversários, convenções comerciais e feira de exposição poderão ser realizadas, desde que respeite as medidas de prevenção. Em caso de descumprimento, a multa diária será de R$ 50 mil. Caso haja incidência, o valor cobrado será o dobro.

Thiago Santana, dono do bar e restaurante Ferrugem, acredita que a medida é necessária, mas que comprometerá o orçamento do local. O estabelecimento funciona há 11 anos na capital e teve redução de 80% na folha durante o fechamento total. Despesas foram “enxugadas” para que o quadro de funcionários permanecesse o mesmo.  

“É complicado porque nós temos funcionários, temos contas para pagar, mas é necessário. Eu fui pego de surpresa, mas já estou procurando outras alternativas, como fornecimento de quentinha e essas coisas, para manter minha equipe aqui e não sei nem o que esperar. Por enquanto são apenas 30 dias", lamentou. "Vou aproveitar pra dar férias a funcionários que já estão vencendo, vou procurar alternativas de fornecimento de refeições direcionadas para setores que estarão trabalhando. Não sei o que vai acontecer, está ficando difícil”. 

Já para Ana Claudia Soares, prioritária do tradicional Bar do Armando, que já funciona há 58 anos, o fechamento de bares não é uma solução definitiva para o aumento de casos e que outras ações deveriam ser tomadas também. “Agora que já tem meses com essa retomada, vem esse fechamento, como se os bares de Manaus fossem os grandes responsáveis pela disseminação do vírus. E a gente vê que os ônibus estão superlotados, ninguém fecha ônibus, ninguém vê fiscalização em ônibus e fica por isso mesmo, por quê? Por que só bar? Por que restaurante? Por que que os restaurantes tem que fechar dez horas da noite? Por que não pode fechar meia noite? O vírus só ataca a partir de 10h01 da noite? No nosso entendimento não tem lógica nisso. Muito complicado, uma perseguição aos donos de bares, como se nós fossemos bandidos, nós fossemos os causadores do caos”, criticou.

De acordo com a Central Integrada de Fiscalização (CIF) da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), 658 estabelecimentos foram fiscalizados para verificar o cumprimento das medidas de prevenção da covid-19. Destes, 177 foram notificados ou autuados, e 150 fechados, principalmente por aglomeração. Também houve a interdição de 45 estabelecimentos.

'Responsabilidade do cidadão é fundamental', diz especialista

Segundo o chefe do departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Prof. Dr. Alexandre Naime Barbosa, o fato da população não seguir as regras para flexibilização contribui para o aumento de casos e que o Estado está tomando as medidas corretas para conter o avanço do vírus. “O governo está tentando impedir no que ele pode para que a população não aglomere. Agora, convenhamos, existe uma parte que cabe ao governo, mas ele não consegue fiscalizar tudo nem é da responsabilidade dele", avaliou. 

De acordo com Barbosa, é preciso destacar a falta de cidadania no combate à covid-19. "É uma empatia, é pensar no bem comum. Essa responsabilidade do cidadão é fundamental no controle da pandemia; a fiscalização do Estado vai até certo ponto, não se pode embutir ao Estado todas as ações de controle. E o que está acontecendo é culpa da população de não entender e não seguir a flexibilização. A doença continua fazendo vítimas."

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