Gravidade define a fila para transplante de fígado

Começa amanhã, às 11 horas, a contagem regressiva para entrar em vigor a nova ordem na fila de espera para transplantes de fígado - em vez de cronológico, o critério passará a ser por gravidade, conforme adiantou o Estado em 23 de março do ano passado. A portaria que vai regular a mudança, amplamente discutida há mais de um ano por uma câmara técnica montada pelo governo, será assinada amanhã pelo Ministro da Saúde, Agenor Álvares, na Universidade Federal de São Paulo. Depois da assinatura, as 23 centrais de transplantes brasileiras terão 30 dias para se adaptar. Significa que de 27 de junho em diante as 55 equipes médicas do País cadastradas no Sistema Nacional de Transplantes (SNT) serão obrigadas a mandar os resultados de exames de seus pacientes para as centrais estaduais. "Com os dados, o sistema é capaz de calcular automaticamente o grau de gravidade do paciente e recolocá-lo na fila", diz Roberto Schlindwein, coordenador do SNT. As informações enviadas pelas equipes são resultado do exame de sangue chamado Model for End-Stage Liver Disease (Meld), que avalia os níveis de creatinina, bilirrubina e INR (coagulação do sangue) e, com isso, prevê as chances de mortalidade do paciente nos próximos três meses. "Quem está na fila, já faz regularmente o exame. A diferença agora é que ele será usado para identificar os casos mais graves", diz Schlindwein. Com a mudança, os pacientes passarão a ter, em vez de um número na fila, o número do Meld. O teste tem uma escala de gravidade de 6 a 40. Quanto maior o número, mais grave é o caso. "A partir de 15, o paciente precisa de transplante", conta Schlindwein. "Abaixo disso, a indicação já não é tão efetiva." Das 7.005 pessoas à espera de um transplante de fígado no País, 61% têm índices abaixo de 15. Ou seja, não precisariam efetivamente de transplante. Casos graves, de 16 a 39, corresponde a 38%. Com 40, a 1%. E mais: de acordo com a Associação Brasileira dos Transplantados de Fígado e Portadores de Doença Hepáticas (Transpática), dos que morrem à espera de um fígado, 43% não ficaram nem seis meses na fila. "A porcentagem indica que casos graves não chegam a ser operados. Muita gente pode estar hoje na fila para reservar lugar, caso um dia precise", analisa Sidnei Moura Nehme, fundador e conselheiro da Transpática. Deficiências - Há argumentos contra os novos critérios para a fila, porém. Um dos motivos é a facilidade com que o exame pode ser alterado. "Os resultados podem ser facilmente modificados", alerta Márcio Dias de Almeida, médico da maior unidade de transplantes do País, a Unidade de Fígado, de São Paulo. "Se dermos diuréticos ou anticoagulantes, por exemplo, os índices do Meld aumentam. Teremos de contar com a honestidade dos profissionais." Há um mês, uma câmara técnica da Secretaria do Estado de São Paulo tentou brecar a decisão do governo federal, contestando a mudança nos critérios por meio de carta enviada ao próprio Ministério da Saúde - cerca de 50% dos transplantes são feitos no Estado. Um dos argumentos é que o critério de gravidade pode elevar o índice de mortalidade pós-operatória e, com isso, elevar o número de órgãos desperdiçados. "Quanto maior o Meld, mais debilitado está o paciente. Quanto mais debilitado o paciente, pior é o resultado do transplante e menores as chances de sobrevivência", explica Almeida, da Unidade de Fígado. "É claro que o critério cronológico não é perfeito. Mas o de gravidade é muito complexo." Na prática, a complexidade é total. O produtor de eventos Moisés Fruschein, de 35 anos, que tem hepatite B crônica, pode ser beneficiado com a mudança, por exemplo. Há um ano e meio na fila, ele agora ocupa o lugar de número 836. Hoje, ele tem um Meld 14, mas o índice já chegou a 28 - os exames são feitos de três em três meses e podem oscilar bastante. "Pelo critério cronológico, teria mais uns quatro anos de espera", conta ele. "Quando entrei na fila, me disseram que meu fígado poderia durar mais dois anos. Teoricamente, tenho mais seis meses de vida. Essa mudança representa uma esperança de vida para mim." A situação da esteticista Renata Machtns, de 36 anos, com cirrose, é outra. Há quatro anos na fila, ela hoje ocupa a 53ª colocação - e tem Meld 14, como Moisés. "Estou quase lá. Toda vez que toca o telefone acho que chegou a minha vez. Se a nova lei for aprovada, sei que vou pra trás", diz ela. "E estou bem fisicamente para passar por uma cirurgia de grande porte. Ao mesmo tempo, penso em quem está muito pior. É muito difícil pensar nisso." O fígado é um dos órgãos mais complexos do organismo porque executa muitas funções vitais. Ele tem como característica a capacidade de continuar funcionando mesmo quando lhe é retirado um pedaço e de se regenerar, voltando ao tamanho normal. É um dos órgãos que menos sofrem rejeição em transplantes. Basta a compatibilidade de sangue. Em 2005, foram feitos 838 transplantes de fígado no País. Em 2004, 825.

Agencia Estado,

25 de maio de 2006 | 11h16

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