Grupo radical da Somália pede que soropositivos façam atentados suicidas

Em meio a 25 dias de combates, milícia islâmica Al Shabab quer ajuda de 'pessoas sem futuro'

Efe

08 Setembro 2010 | 19h58

MOGADISCIO - A milícia radical islâmica Al Shabab convocou os portadores de HIV a promover atentados suicidas para derrubar o Governo Transitório da Somália, por considerá-los pessoas "sem futuro", em meio à sequência de 25 dias de combates incessantes na capital do país, Mogadiscio.

Em mensagem divulgada nesta quarta-feira, 8, em seu site, um dirigente não identificado do Al Shabab, aliado da rede terrorista Al Qaeda na Somália, anuncia: "Vocês, vítimas da aids, não têm futuro e esperam a morte. São prisioneiros condenados na cela da morte".

Por esse motivo, o dirigente radical islâmico pede aos soropositivos que usem seu tempo e vão com eles, que os prepararão para realizar ataques suicidas contra o Governo Federal Transitório da Somália e as tropas da União Africana que o apoiam.

"Vocês alcançarão o Paraíso, receberão a bênção de Deus e morrerão com honra", afirma o porta-voz do Al Shabab, organização que, com o respaldo de centenas de combatentes estrangeiros ligados à Al Qaeda, luta para derrubar o governo e criar na Somália um Estado muçulmano radical e seguidor da linha Wahabi.

Os últimos 25 dias de ofensiva ininterrupta do Al Shabab em Mogadíscio deixaram pelo menos 240 mortos e 500 feridos, provocaram a fuga de dezenas de milhares de pessoas e deixaram as ruas da cidade praticamente desertas, disseram nesta quarta fontes humanitárias.

O Al Shabab denominou a ofensiva como "O fim dos invasores", já que é voltada principalmente contra as tropas da Missão da União Africana na Somália (Amisom), que apoiam o governo do presidente Sharif Sheikh Ahmed, aprovado também pela comunidade internacional.

Para reforçar sua ofensiva, o anônimo dirigente do Al Shabab reivindica na mensagem pela internet que os homens "úteis", de 14 a 60 anos, deixem de fugir da cidade e se unam às milícias rebeldes.

"Todos os homens úteis são convidados a participar da jihad (guerra santa islâmica). Todo aquele que for encontrado fugindo será trazido de volta e treinado para pegar em armas contra os cruzados ugandenses e burundinenses", assinala o porta-voz radical, em referência aos soldados dos dois países - Uganda e Burundi - que formam as tropas da Amisom.

Ali Moussa Mohamud, diretor do Sistema Voluntário de Ambulâncias de Mogadíscio, ressaltou nesta quarta à Efe que, nos últimos dias, a proporção de vítimas civis foi muito menor, já que quase toda a população da região nordeste da cidade, onde se registraram os combates, se deslocou rumo às localidades vizinhas e deixou a área deserta.

Quase toda a população dos distritos de Bondhere, Abdilaziz e Shibis deixou seus lares e fugiu em direção aos arredores, disse Mohamud. "Os que morrem são quase todos pessoas que tomaram parte na luta. E as baixas civis se reduziram, porque 99% dos habitantes foram deslocados por causa da guerra", completou.

Nos últimos 25 dias, segundo Mohamud, "o número de mortos nos combates chegou a 242, inclusive oito vítimas desde a noite passada, e o número de feridos supera os 500".

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), por sua vez, assinalou na última terça-feira que a situação em Mogadíscio, imersa no caos após 19 anos de guerra civil, se deteriorou ainda mais, e 23 mil pessoas abandonaram a capital somali nas últimas semanas.

Melissa Fleming, porta-voz do Acnur, informou em Genebra que mais de 200 mil pessoas deixaram Mogadíscio no início deste ano e que, até a última terça, os mortos na cidade pela violência das últimas semanas eram pelo menos 230 e os feridos, 400.

Os somalis refugiados nos países vizinhos em 2010 já são quase 68 mil, chegando a 614 mil o número de refugiados originais da Somália no mundo, o número mais alto depois de Afeganistão e Iraque, comparou Melissa.

Enquanto isso, nos bastidores do Governo Federal Transitório, que não exerce controle efetivo sobre o território somali, surgiu um conflito político entre o presidente Ahmed e o primeiro-ministro, Omar Abdirashid Sharmarke, que discutem os termos de uma nova Constituição.

Desde 1991, quando foi derrubado o ditador Mohamed Siad Barre, o país vive imerso no caos, sem um governo efetivo e com o território dividido e controlado por senhores da guerra que lideram milícias tribais e grupos islâmicos radicais.

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