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Grupos antivacina mudam foco para coronavírus e divulgam informações falsas, revela análise da USP

A maior parte das postagens de dois grupos tinha problemas. Elas disseminavam teorias da conspiração, informações falsas, distorção e a sugestão de uso e comercialização de produtos e tratamentos sem comprovação científica

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 13h40
Atualizado 31 de março de 2020 | 20h26

SÃO PAULO - Dois grupos antivacina no Facebook mudaram o foco de suas publicações para a epidemia do novo coronavírus e têm divulgado informações falsas sobre a doença e seus tratamentos. É o que revela uma análise produzida pela União Pró-Vacina, um grupo criado por pesquisadores do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto para combater a desinformação sobre vacinas.

Eles avaliaram 213 postagens feitas entre 15 e 21 de março nos dois maiores grupos públicos brasileiros de conteúdo antivacina no Facebook, “O Lado Obscuro das Vacinas” e “Vacinas: O Maior Crime da História”, que atuam há 5 e 2 anos.

“Os métodos da desinformação continuam os mesmos: distorcer conteúdo científico e jornalístico, espalhar teorias da conspiração e até oferecer falsas curas usando produtos conhecidamente tóxicos para a saúde humana”, apontam os pesquisadores. 

“Entre as publicações, há insinuações de que o vírus seria uma ferramenta para instituir uma nova ordem mundial ou mesmo uma arma produzida pela China. Outras afirmam que a vacina da gripe seria a responsável pela disseminação da covid-19 e que a doença seria facilmente curada por meio da frequência do cobre ou de zappers, supostos antibióticos eletrônicos”, continuam.

As páginas na rede social estavam na mira dos pesquisadores desde o fim do ano passado, quando a União Pró-Vacina começou a funcionar. A equipe, multidisciplinar, conta com vários especialistas de saúde e comunicação. 

“Já tentamos dialogar, trabalhamos sempre com linguagem cordial, mas eles não aceitam. Qualquer manifestação contrária a deles é excluída”, disse ao Estado João Henrique Rafael, analista de comunicações do IEA e idealizador do projeto.

Os dois grupos, que em geral produzem 30 publicações por dia, aumentaram o ritmo de postagens no período analisado – no dia 21, chegou a 43. Durante a semana analisada, 65,3% dos posts (139) foram sobre coronavírus. O período, dizem os pesquisadores, coincide com o aumento de buscas no Google de informações sobre a doença.

“A gente sempre monitora o que eles estão falando, mas percebemos que algo estava estranho, que o tom tinha mudado. Na semana em que todo mundo estava buscando informações sobre coronavírus eles deram uma guinada”, diz. 

A equipe resolveu, então, analisar todas as postagens dos dois grupos naquela semana. “Virou um repositório de conteúdo problemático no meio da pandemia”, afirma Rafael.

Segundo os pesquisadores, 78,4% das postagens “apresentam sérios problemas, como a disseminação de teorias da conspiração, utilização de informações falsas e de afirmações sem evidências, a distorção de informações confiáveis, a sugestão de uso e até a comercialização de produtos e tratamentos que não possuem comprovação científica ou aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”.

Eles observaram que mesmo quando o conteúdo da postagem era verídico, os comentários distorciam ou desacreditam as fontes e os dados, “gerando uma nova interpretação deturpada para o conteúdo original”. As interações nessas publicações também foram o dobro do que a média observada nos posts tradicionais dos grupos.

Rafael deu como exemplo uma postagem que só compartilhava um link de uma notícia sobre o início da vacinação contra a gripe. “Era uma notícia real, mas logo já tinha comentário dizendo que era a vacina que tinha causado a nova infecção porque a epidemia do novo coronavírus no Japão começou depois da campanha de vacinação lá”, explica. “Um link real às vezes é só o começo, mas os comentários vão dar cara falsa para o conteúdo. O problema não está na informação compartilhada, mas na interpretação.”

Segundo a análise, a postagem com maior envolvimento (204 interações) abordou o uso do chamado “MMS na cura da covid-19”, ou solução mineral milagrosa, na sigla em inglês. “O produto é composto por dióxido de cloro e é semelhante à água sanitária usada como alvejante. Sua ingestão ou administração pelo reto pode causar lesões no intestino, vômito, diarréia, desidratação, insuficiência renal, anemia, entre outros problemas de saúde graves”, escreve o grupo.

Para Rafael, esses grupos têm atuado como uma “formação midiática inversa”, adotando a campanha do: “não acreditem em mais ninguém, só na gente”. Ele sugere que a mudança de tema ocorreu porque, com a ameaça do coronavírus, o “mundo está clamando por um vacina”. “Eles já estão atacando antes mesmo de ela surgir.”

O Estado não conseguiu contato com os administradores das páginas citadas no estado. Procurado pela reportagem, o Facebook não se manifestou até 19h30. 

A disseminação de informações falsas sobre o novo coronavírus não se restringe a grupos específicos de Facebook. Desde o início da pandemia, diversas postagens do tipo já circularam nas redes.  Entre elas, a teoria conspiratória sobre o vírus criado em laboratório para ser usado como arma biológica, a vinda do coronavírus ao Brasil por produtos importados da China e o chá de abacate (e até o uísque) para prevenir a infecção.

Veja algumas das mentiras mais comuns sobre o novo coronavírus que circularam nas redes sociais:

  • O novo coronavírus foi desenvolvido em laboratório por cientistas chineses que pretendiam usar o vírus como uma arma biológica
  • O novo coronavírus teria sido manipulado geneticamente e teria uma estrutura similar ao do vírus HIV, que causa a Aids.
  • Chá de abacate, hibisco, lança perfume e uísque seriam algumas das substâncias capazes de prevenir a infecção
  • Produtos importados da China estariam trazendo o vírus para o Brasil.
  • O papa Francisco está com coronavírus (O pontífice foi testado, com resultado negativo, para a doença)

Confira dicas para identificar notícias falsas:

  • ​Muitos sites de fake news têm nomes parecidos com sites de notícias. Avalie o endereço e verifique se a fonte é confiável
  • Sites de fake news costumam apresentar erros de português e uso exagerado de pontuação
  • Leia toda a notícia. Nem sempre o título condiz com as informações do texto
  • Duvide se você receber uma notícia bombástica que não está em outros sites de notícia
  • Recebeu algum  conteúdo suspeito pelo Whatsapp? Envie para o número do Estadão Verifica: (11) 99263-7900

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