Aloisio Mauricio
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Grupos católicos pedem volta das missas; padre diz que hora é de prudência

Em vídeo publicado nas redes sociais, grupo angaria assinaturas para petição pedindo a volta das celebrações; manifestações semelhantes acontecem em outro países

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2020 | 15h00

SOROCABA – No auge da pandemia do novo coronavírus, grupos que se identificam como católicos estão usando as redes sociais para pedir a volta das missas nas igrejas.

As celebrações presenciais estão suspensas desde início de março em atendimento às regras de isolamento social editadas pelo Ministério da Saúde e acatadas pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão máximo da Igreja Católica no País.

Um dos grupos usou a página Sou Católico Brasil para angariar assinaturas em uma petição dirigida aos "bispos do Brasil" pedindo a volta das celebrações. “O que pode ser mais essencial para nós? Por favor, devolvam-nos as santas missas”, dizem os jovens em vídeo.

A mobilização teria se iniciado no dia 19 de abril, na Áustria, espalhando-se pelo mundo. Manifestações semelhantes acontecem no Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.

No vídeo gravado pelo grupo brasileiro, 18 jovens se revezam nas falas, como num jogral, pedindo a volta das missas. “Queridos bispos do Brasil, sabemos que são tempos difíceis, mas nós temos um pedido; por favor, devolvam-nos as santas missas!” Eles afirmam que já foi permitida a abertura de pequenas lojas e até lojas que vendem produtos essenciais estão abertas desde o início da pandemia. “O que pode ser mais essencial para nós do que as santas missas? O papa Francisco disse: a Igreja é concreta, não pode permanecer virtual.”

Os jovens se dizem dispostos a arrecadar máscaras, produtos de higiene e luvas e permanecer nas portas das igrejas para assegurar que os fiéis guardem distância entre si. “Limparemos os bancos, faremos que as igrejas sejam mais seguras do que qualquer supermercado.” A reportagem entrou em contato com o ‘Sou Católico Brasil’, mas não tinha obtido retorno até a noite desta quinta-feira, 30.

O padre Junior Vasconcelos do Amaral, da paróquia de Nossa Senhora do Guadalupe, em Belo Horizonte (MG), reagiu pedindo prudência aos fiéis. “Não repliquem tais notícias tendenciosas, sem antes refletir as circunstâncias atuais que estamos vivendo. A vida é dom de Deus e merece ser preservada”, postou na página da paróquia.

À reportagem, ele disse que tomou conhecimento da mobilização em grupos de WhatsApp dos paroquianos. “Recebi mensagens de alguns leigos que nos perguntaram quando iríamos voltar com as missas. O grupo, me parece, está ligado a uma ala mais conservadora que tem feito críticas aos bispos e à CNBB. As missas não nos foram tiradas, são rezadas sem a presença corporal dos fiéis.”

Segundo ele, cada diocese toma sua decisão porque os bispos têm autonomia, mas todos sabem que devem seguir as orientações das autoridades da saúde. “Enquanto o Ministério da Saúde não reabrir, não vamos querer que a igreja seja um local de contaminação. A prudência é uma característica da Igreja, que tem um compromisso com a vida.”

O argumento de que o comércio está sendo relaxado não pode ser levado em conta, segundo ele. “A igreja não é um comércio. É uma serva que leva a palavra de Deus e a eucaristia e, nesse sentido, as missas transmitidas atualizam os mistérios da palavra de Deus.”

Padre Junior conta que esteve em supermercados de Belo Horizonte e Uberlândia e observou que há grande movimento, inclusive de pessoas sem máscara, mesmo com o risco de pegar o vírus. “É um risco que não queremos para a igreja, que tem muitos fiéis idosos. Eu mesmo, como padre, estou em grupo de risco, pois sou diabético. Quando as autoridades da saúde disserem que podemos voltar à nova normalidade, nós voltaremos a celebrar missas com todos os cuidados. Não podemos abrir só para os que têm saúde, discriminando os demais.”

Sem se referir ao movimento pela volta das missas, a CNBB reforçou a necessidade de manter o isolamento social devido ao crescimento dos casos e mortes pela covid-19.

“Recomendamos atenção e consideração irrestrita às orientações dos especialistas de saúde e autoridades competentes. As indicações sobre o modo como celebrar a fé cabem aos bispos de cada diocese. Todas as normas visam à proteção das pessoas, buscando evitar a contaminação e preservar a vida”, informou.

A centenária tradição dos devotos da arquidiocese de São Paulo, de peregrinarem até Aparecida, no interior, para visitarem a imagem da padroeira do Brasil, será feita neste domingo, 3, sem a participação dos peregrinos. O evento, que costuma reunir 20 mil pessoas, terá só as presenças do arcebispo e dos bispos auxiliares.

“Todos na Arquidiocese, clero, religiosos e povo, poderão unir-se a essa celebração, ficando em casa”, recomendou o arcebispo d. Odilo Pedro Scherer. A missa será transmitida pela TV Aparecida.

RECUO

Os grupos que defendem a volta das missas afirmam que a arquidiocese de Florianópolis (SC) liberou a volta dos fiéis às igrejas. No último dia 21, o arcebispo d. Wilson Tadeu Jönck publicou recomendação para que as missas e outras celebrações fossem retomadas, com lotação máxima de 30% da capacidade da igreja.

Foi proposto que os fiéis usassem máscaras e guardassem distância de 1,5 m entre si. Não poderiam participar pessoas dos grupos de risco e com sintomas. O arcebispo seguiu portaria da Secretaria da Saúde do Estado que afrouxou as regras do isolamento.

Nesta quarta, 30, em carta aos fiéis, d. Wilson revisou sua posição anterior, recomendando que os fiéis continuem assistindo as missas à distância.

“A pandemia impede de ir até a igreja para celebrar. É tempo de reforçar a prática da oração em casa. O evangelho diz que onde dois ou mais se reunirem em seu nome, Ele (Deus) estará no meio deles. Na união da família em torno da pessoa de Cristo se renova e fortalece a fé. E quando o tempo de quarentena terminar, haveremos de nos reunir todos na nossa igreja e celebrar a primeira comunhão das nossas crianças e a crisma dos nossos jovens”, escreveu.

Na terça-feira, 28, o arquidiocese de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, publicou decreto permitindo a reabertura das igrejas para as orações dos fiéis, sem a celebração de missas. A medida havia se baseado em decreto da prefeitura que flexibilizava algumas atividades interrompidas pela pandemia.

O decreto municipal, no entanto, foi suspenso pela justiça. Nesta quarta, 29, o arcebispo d. Moacir Silva, publicou novo decreto anulando o anterior. Com isso, foram revogados a abertura das igrejas e o atendimento de fiéis pelos padres.

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