GABRIELA BILÓ / ESTADAO
O provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Antonio Penteado Mendonça. GABRIELA BILÓ / ESTADAO

Guerra contra o coronavírus: Santa Casa de SP recupera respiradores, constrói tendas e leitos de UTI

‘É olhar para o que aconteceu com a China, Itália e EUA para não ter dúvida de que vamos enfrentar um momento extremamente complicado na saúde pública brasileira’, avalia provedor da instituição

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 06h00

Desde que a covid-19 saiu da China, no início do ano, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo monitora a disseminação da doença. Por ser um hospital de ‘portas abertas’, ou seja, sem a necessidade de que o paciente passe em outra unidade de saúde antes, a preocupação de haver uma verdadeira corrida em busca de atendimento pelo novo coronavírus só crescia, como conta o provedor da Santa Casa, Antonio Penteado Mendonça

“Desde quando esta epidemia se espalhou pelo mundo saindo da China, nós estabelecemos contato com as secretarias de saúde do Estado e município de São Paulo porque somos um dos principais hospitais de atendimento do SUS na região metropolitana. Quem entra na Santa Casa é atendido. Ao contrário do que acontece no Hospital das Clínicas, onde a pessoa antes de entrar no pronto-socorro, a não ser que seja acidente, tem que passar em uma unidade de atendimento de saúde específica para determinar se é caso de internação, para nós não tem isso. A pessoa chega e entra”, explica.

Quando a covid-19 chegou ao Brasil, a Santa Casa imediatamente destinou 10 vagas de UTI especialmente para pacientes com a doença. “Nós montamos tendas para atender esse pessoal. Mas os casos que têm nos procurado são graves e estão demandando UTI. Este é um quadro muito sério. E nós não temos no País inteiro um número grande de UTIs quanto a pandemia pode vir a exigir da população”, avalia.

Neste momento, a instituição tem um projeto para mais 80 leitos de UTI no hospital de Santa Cecília (centro de São Paulo) e um projeto, se precisar complementar, para mais 150 UTIs específicas para o combate ao novo coronavírus tanto na unidade central quanto no hospital Santa Isabel. 

Além disso, a Santa Casa tem uma parceria com a prefeitura de São Paulo, na zona Norte, no bairro do Jaçanã. Lá, no Hospital São Luiz Gonzaga, mais 100 leitos foram disponibilizados para os pacientes com coronavírus e até 150 leitos no Hospital Dom Pedro Segundo, na mesma região.

Hoje, a Santa Casa tem capacidade para pouco mais de mil leitos para qualquer tipo de internação. Apesar de se prepararem antecipadamente, a velocidade com que a doença está se disseminando no Brasil chama atenção de Antonio Penteado Mendonça, provedor da instituição há três anos.

“No fim da semana passada, nós tínhamos duas pessoas internadas na UTI da Santa Casa pelo coronavírus. Hoje, nós já temos perto de 20. E, no Hospital Santa Isabel, nós tínhamos cinco pacientes. Hoje estamos perto de 11. É um avanço muito rápido em relação ao que vinha acontecendo”, contabiliza.

Nesta terça-feira, 31, o Banco Safra doou R$ 650 mil para a compra de aventais para os profissionais de saúde do local. Apesar disso, a Santa Casa ainda precisa de recursos para ampliar o atendimento. “A epidemia é, sem dúvida nenhuma, extremamente séria. É olhar para o que aconteceu com a China, a Itália, a Espanha e, principalmente com os Estados Unidos, para não ter nenhuma dúvida que nós vamos enfrentar um momento extremamente complicado na saúde pública brasileira”, prevê Antonio Penteado Mendonça.

Ele agradeceu o empenho dos sete mil profissionais de saúde que atuam na Santa Casa, os grandes empresários que estão fazendo doações e, sobretudo, a sociedade. “Tem muita gente grande colaborando, mas o principal é que a população está intensamente colaborando, de forma extremamente solidária, dentro de sua capacidade”.

Para contribuir com a Santa Casa de São Paulo na luta contra o novo coronavírus, basta acessar o site; clique aqui.

 

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É hora de usar máscara? Veja medidas para se proteger contra o coronavírus

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: Uso da máscara se tornou obrigatório no Estado de São Paulo nesta quinta-feira, 7

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 13h54
Atualizado 07 de maio de 2020 | 08h23

SÃO PAULO - Lavar as mãos e cobrir nariz e boca ao tossir e espirrar são medidas que ajudam a evitar a propagação do novo coronavírus, o Covid-19. Infectologistas ouvidos pelo Estado recomendaram ainda que a população não entre em pânico e que, em caso de doenças respiratórias, só busque atendimento médico se sintomas como febre, tosse e coriza persistirem. Nesta quinta-feira, 7, o uso de máscaras passou a ser obrigatório em todo o Estado de São Paulo

"Neste momento, é importante reforçar a necessidade de higienização das mãos, porque o vírus é transmitido pelo contato. O indivíduo que está tossindo ou espirrando vai contaminar superfícies ao usar o teclado, mouse, torneira. Todas as superfícies ficam contaminadas. O álcool ou a lavagem das mãos eliminam o vírus. As pessoas devem higienizar as mãos não só para se proteger do coronavírus, mas de outras infecções virais", explica Francisco Ivanildo Oliveira Júnior, gerente do Controle de Infecção Hospitalar do Sabará Hospital Infantil, que também é supervisor do ambulatório do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Oliveira Júnior diz que a avaliação dos casos confirmados e artigos científicos apontaram que, para a maioria dos pacientes, a doença não vai evoluir para quadros graves.

"Cerca de 80% dos casos têm formas leves. São pessoas que podem ser tratadas sem necessidade de internação. Esse caso consegue mostrar para a população dessa faceta da doença. A grande maioria das pessoas se recupera e tem quadros leves, que podem ser tratados em casa com o afastamento social para reduzir a possibilidade de contato com pessoas do trabalho e em situações sociais."

O restante corresponde a ocorrências graves, das quais 6% se referem aos casos muito graves - quando o paciente precisa ser internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Ele diz que, embora esse seja um aspecto positivo, tendo em vista que esses pacientes não evoluem para formas graves, essa característica facilita a propagação da doença.

"O lado ruim é que as pessoas que são pouco sintomáticas, normalmente, não ficam em casa, elas circulam e são as pessoas que têm o maior risco de transmitir a doença e causar surtos familiares, que têm sido muito descritos na China, ou vão para o trabalho, fazem compras. Além disso, tem uma porcentagem que ainda não sabemos quanto é, de pacientes que não manifestam nenhum sintoma, mas podem transmitir a doença."

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Coordenador do centro de infectologia do Hospital Sírio-Libanês e reitor da Faculdade de Medicina do ABC, o infectologista David Uip diz que as pessoas que apresentam sintomas leves de doenças respiratórias devem evitar sobrecarregar os hospitais.

"Se todo mundo que tossir ou espirrar for ao hospital, a gente vai ter um problema que não é possível de dar conta nem no Brasil nem no mundo. Quem estiver com sintomas leves, deve ficar em casa. Ao tossir ou espirrar, deve cobrir a boca e o nariz, de preferência, com lenço descartável."

Uip também explicou quando, com base nos sintomas, as pessoas devem buscar auxílio médico. "Se tiver uma febre que perdura, que não some em 24 ou 48 horas ou desaparece e reaparece, e desconforto respiratório."

O uso das máscaras passou a ser obrigatório no Estado de São Paulo nesta quinta-feira, 7, e a medida também já foi adotada em outros municípios brasileiros. A máscara, mesmo a caseira, segundo especialistas, é mais um item que ajuda na proteção contra a doença.

A infectologista Nancy Bellei, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, destaca que é importante que as instituições tenham um diálogo franco com a população e reforça que os hospitais devem receber os casos graves.

"É preciso ter seriedade na comunicação com a população. Tem de explicar o que é a doença, quais são os sinais de alerta, quando se deve ficar em casa." Leia a entrevista completa aqui.

Como evitar o coronavírus

De acordo com o Ministério da Saúde, medidas podem ser incorporadas no dia a dia para reduzir o risco de contaminação e transmissão do vírus.

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por, pelo menos, 20 segundos. Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes
  • Ficar em casa quando estiver doente
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência

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'Após esta pandemia, o mundo será diferente', diz médica que atua na Itália

Integrantes da Médicos Sem Fronteiras relatam colapso do sistema de saúde italiano e ajuda da comunidade para tratar infectados

Roberta Jansen/RIO, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 05h00

A médica Claudia Lodesani é coordenadora da Médicos Sem Fronteiras (MSF) para a emergência de Covid-19 na Itália, um dos países mais afetados pela pandemia. Ela conta como o sistema de saúde do país, apesar de ser extremamente desenvolvido, entrou em colapso rapidamente diante do grande número de casos de infecção pelo novo coronavírus. 

Segundo Claudia, boa parte dos médicos e enfermeiros está traumatizada porque nunca tinha lidado com uma situação assim. "Eles queriam falar sobre a crise, sobre o que estavam passando na linha de frente dessa emergência por duas ou três semanas. É algo que eles nunca tinham vivido antes."

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Chiara Lepora coordena os trabalhos da MSF em Lodi, cidade do norte da Itália que se tornou um dos epicentros da pandemia. A médica conta que todos os hospitais da região estão trabalhando no limite e é necessário tratar muitos pacientes em suas próprias casas. 

"Tem uma pequena padaria perto da entrada do hospital e eu estava conversando com a padeira. Ela abre todo dia às 5h para poder oferecer café e croissants à equipe médica que está saindo do plantão noturno. E me contou que muitos médicos e enfermeiros pegam o café, vão sentar numa mesa ali no cantinho e começam a chorar. Eles choram para que consigam tirar isso de dentro deles e possam ir para casa cuidar de sua família e não demonstrar o quanto é duro", diz Chiara.

Leia abaixo os dois depoimentos:

Claudia Lodesani:

"Antes, os serviços de saúde, tanto na Itália como na maior parte dos países europeus, eram focados no cuidado individual. Agora, eles têm que começar a pensar na saúde pública no contexto de uma epidemia. Fazer esse tipo de mudança é difícil para qualquer sistema de saúde. Eles precisam mudar a forma de pensar e agir, uma completa mudança de abordagem. Além disso, um fator comum nas epidemias é o número alto de pacientes que chegam aos hospitais ao mesmo tempo. Isso pode ter um impacto negativo mesmo nos sistemas de saúde de países desenvolvidos que não estão acostumados a lidar com esse número de pacientes.

Quando chegamos a Lodi, no norte da Itália, ficou imediatamente claro como muitos médicos e funcionários da área de saúde estavam traumatizados. Eles queriam falar sobre a crise, sobre o que estavam passando na linha de frente dessa emergência por duas ou três semanas. É algo que eles nunca tinham vivido antes. Eles estavam chocados pela velocidade com que tudo aconteceu.

Fomos capazes de ouvir e entender porque sabemos como é isso. Poder falar, chorar em frente de pessoas que entendem pelo que estás passando é muito importante. Te ajuda a perceber que  não estás sozinho e te dá forças para continuares trabalhando.

O primeiro trabalho a fazer no combate a uma epidemia como essa é proteger quem está na linha de frente. Sem eles, não podemos responder à epidemia. Milhares deles estão ficando doentes em vários países afetados. Mantê-los em segurança e livres da infecção é chave. O passo seguinte é perceber que, embora os hospitais sejam vitais na resposta, o atendimento em casa é muito importante. Numa epidemia, não dá para focar apenas no tratamento hospitalar. Clínicos gerais e médicos de família têm também um papel vital. É preciso levar em conta toda a comunidade.

Eu trabalho para os Médicos Sem Fronteiras há 18 anos. Para mim, uma das maiores dificuldades desta crise é ver o sofrimento dos idosos. Nos hospitais, a maioria dos pacientes é idosa. Nos lugares em que já trabalhei com MSF, a maior parte dos pacientes era de crianças e jovens. Para mim, pessoalmente, há algo muito dramático na forma como as pessoas mais velhas são atingidas pela Covid19. Quando você chega numa unidade e é confrontado por oitenta, cem pessoas muito idosas, muito frágeis, é muito triste. Eles estão isolados de suas famílias, enquanto enfrentam a doença. Isso me afetou muito. Essa pandemia nos deixará afetados de formas diferentes, o mundo todo será muito diferente."

Chiara Lepora:

"Temos um grupo de cerca de 25 pessoas trabalhando aqui na região da Lombardia. O sistema de saúde aqui é muito avançado, mas o vírus ultrapassou todas as tentativas de lidar como crescente número de casos. Os hospitais estão no limite. Na emergência do hospital de Lodi temos agora 80 leitos. Mas mesmo com todos esses leitos extra, a única maneira de recebermos um novo paciente é se algum outro se recuperar ou morrer.

Nosso principal trabalho é oferecer apoio à equipe médica dentro dos hospitais, fazendo todo o necessário para que médicos e enfermeiros se mantenham saudáveis. Se eles ficarem doentes, não haverá ninguém para tratar dos pacientes. Nós temos muita experiência na prevenção de infecção por conta de todas as epidemias que já enfrentamos pelo mundo. Estamos aqui para ajudar a criar caminhos e processos dentro dos hospitais para garantir que a equipe esteja protegida.

Fora dos hospitais, estamos trabalhando nas comunidades, com médicos de família, para ajudar a cuidar das pessoas em suas casas e também nos asilos de idosos. Como todos os hospitais já atingiram sua capacidade, não há escolha a não ser tratar pessoas com sintomas menos graves em suas casas.

Todo mundo aqui está trabalhando além de seus limites. É impressionante ver as pessoas trabalhando o tempo todo, tentando se adaptar, tentando aprender, tentando colaborar para salvar o máximo possível de vidas, tudo isso diante de tantas mortes.

Tem uma pequena padaria perto da entrada do hospital e Lodi e ontem eu estava conversando com a padeira. Ela abre todo dia às 5h da manhã para poder oferecer café e croissants à equipe médica que está saindo do plantão noturno. Ela me contou que muitos médicos e enfermeiros pegam o café, vão sentar numa mesa ali no cantinho e começam a chorar. Eles choram para que consigam tirar isso de dentro deles e possam ir para casa cuidar de sua família e não demonstrar o quanto é duro.

Numa crise como essa, em que as necessidades são tantas, escolhas muito duras têm que ser feitas. Como Médicos sem Fronteira, nós sabemos disso muito bem, por conta das situações críticas que enfrentamos em todo o mundo."

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