Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Há mais de 70 anos no País, Alcoólicos Anônimos traça perfil inédito de quem quer parar de beber

Levantamento aponta que 87% dos membros são homens, 85% têm mais de 41 anos e 56% começaram a beber entre 13 e 17 anos

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Sexo: masculino. Estado civil: casado. Faixa etária: mais de 41 anos. Idade que começou a beber: entre os 13 e 17 anos. Esse é o perfil de quem está querendo parar de beber no País, segundo um levantamento inédito realizado pelo Alcoólicos Anônimos (A.A.), que tem mais de 70 anos de atividade no Brasil. Entre julho e novembro do ano passado, a entidade ouviu 5.828 dos seus mais de 50 mil membros e mapeou ainda as conquistas de quem luta contra a dependência: 29% estão sóbrios há mais de 20 anos e 68% dos entrevistados não tiveram recaídas.

"O inventário já é feito nos Estados Unidos desde a década de 1960. Na comemoração dos 70 anos no Brasil, em 2017, criamos uma série de ações e uma delas foi pensar na pesquisa com os membros. Foram feitas 26 perguntas e o levantamento traz essa riqueza no sentido de falar das pessoas em recuperação", afirma Camila Ribeiro de Sene, presidente da Junta Nacional de Serviços Gerais de A.A. do Brasil.

A entidade conta com mais de 4 mil grupos e realiza 11 mil reuniões por semana em todo o País. "As salas de A.A. têm desde recém-chegados a pessoas que estão há mais de 20 anos sem beber. Há pessoas que reduzem riscos de comorbidade e de violência física e doméstica ligados ao abuso de álcool. Os grupos atendem o membro, o familiar e o profissional de saúde."

Segundo a pesquisa, 87% dos membros do Alcoólicos Anônimos são homens, 62% são casados ou estão em união estável, 32% são aposentados e 43% foram motivados a procurar ajuda nos grupos por pressão de familiares. Problemas de saúde (34%) e no trabalho (27%), ideias suicidas (13%) e problemas judiciais (6%) foram outras razões apresentadas.

O programa conta com 12 passos, que têm forte ligação com a questão espiritual, mas o primeiro deles é reconhecer a dependência. "A pessoa que deseja parar de beber pode frequentar as reuniões. Não existe taxa nem cadastro. E o que acontece nos grupos? Troca de experiências, partilha de esperanças e de como lidar com a doença. Mostrar o que deu certo e, só por hoje, conseguir se manter sóbrio e distante do álcool", explica Camila, que é psicóloga e atua há 15 anos como voluntária do projeto.

Quando estava no final da adolescência, o aposentado Adalberto, de 74 anos, começou a ter as suas primeiras experiências com o álcool. "Fazia uso de bebidas leves para me enturmar. Fui me sentindo bem e me desinibindo. E fui dando sequência devagar. A história de chegar até a derrota, até precisar do A.A., demorou mais. A doença vai lentamente dominando a pessoa, até a hora que se instala a dependência química."

Após beber durante dez anos, ele começou a sentir a necessidade de ingerir bebidas alcoólicas assim que acordava. "Vieram os conselhos de amigos e parentes, porque todo mundo quer ajudar. As perdas foram aparecendo. Fui perdendo amigos, empregos, tendo perdas materiais, deixando de adquirir bens. Eu fui para o A.A. com 38 anos, mas não parei de beber."

O aposentado temia ser internado e as reuniões do grupo foram o caminho que ele escolheu para tentar dar fim à necessidade de consumir bebidas alcoólicas. O irmão, que também tinha problemas com álcool, já era um membro do A.A. e o apoiou. "Depois de mais dois anos bebendo, a derrota aumentou, a separação veio e meu irmão me socorreu. Depois de algumas reuniões, caí na real e resolvi aceitar a ajuda. Consegui evitar o primeiro gole só por 24 horas, só por hoje."

Já são 34 anos e dois meses sem recaídas. Há 17 anos, ele está em um novo relacionamento e conheceu a esposa no grupo. "Ela tem um parente com problema de alcoolismo e foi justamente lá, que tem uma sala para reunião dos familiares, que a gente se conheceu. Ela estava sem compromisso e eu também."

Bebida na infância

Entre as memórias de quando tinha 5 ou 6 anos, o aposentado Antônio, de 63 anos, consegue recuperar "golinhos de cachaça" que experimentou. "Eu me senti muito bem." Aos 12 anos, precisou de atendimento médico após tomar as sobras de copos de vinho em uma festa. "Com 15, 16 anos, comecei com o hábito de beber nos finais de semana. O uso diário e contínuo começou de 17 para 18 anos e foi até os 36 anos."

A dependência fez com que ele não conseguisse terminar o curso de História ao fazer faculdade e perdesse oportunidades no banco onde trabalhou. Fases importantes de sua vida também passaram sem que ele estivesse sóbrio. "Casei alcoolizado e, quando minha filha nasceu, fiquei bebendo por uma semana, durante a licença paternidade."

A primeira vez que resolveu parar de beber foi ao ser diagnosticado com hepatomegalia, um aumento do fígado. Ele frequentou um dos grupos do A.A. dos 36 aos 51 anos. Sem recaídas. Nesse período, a vida mudou. Não só se formou em História, como fez uma especialização em Administração. As promoções na empresa vieram.

Ateu, ele diz que o caráter espiritual da entidade não foi uma barreira. "Fala muito em poder superior. Como ateu, não acredito, mas não tive dificuldade nenhuma, porque todo mundo respeita. Minha dificuldade foi de ser honesto comigo, que é a raiz do programa, o que faz funcionar."

Ele diz que não tinha internalizado o propósito do programa e achava que, como já tinha informações sobre o tema, seu problema estava resolvido.

"Com 51 anos, estava em Paris com a minha mulher. Era a minha primeira viagem internacional e achava que podia segurar uma tacinha de vinho. No segundo dia, tomei duas. No terceiro, resolvi comemorar e fiquei cinco anos bebendo. O que eu não tinha perdido, perdi da segunda vez. Fui aposentado compulsoriamente, comecei a beber diariamente, logo pela manhã, e comecei a perder o controle da vida."

Antônio, que também tinha problemas com drogas, voltou a participar dos encontros aos 56 anos, mas ainda sem seguir os princípios do grupo. "Eu não era uma pessoa que tinha feito os passos, não tinha nenhum afilhado, porque, no grupo, tem sempre uma pessoa experiente que é o seu padrinho. Nunca ninguém tinha sentido confiança. Até os 60 anos, fiquei com o mesmo comportamento. Voltei a fumar maconha, não reconhecia que eu tinha dependência em drogas."

Aos 60 anos, ele resolveu mudar. "Hoje, tenho medalhas, que são meus afilhados, que eu ajudo e eles me ajudam.  Estou há seis anos em abstinência contínua do álcool e um ano limpo de maconha."

Aposentado há sete anos, ele diz que também está mais produtivo. "Corro de quatro a cinco quilômetros todos os dias, faço caminhadas e alongamento. Tenho duas hérnias de disco e, há muitos anos, não tenho dor." No ano passado, fez um curso de astronomia. Consigo identificar as estrelas. Quando olho para elas, eu sinto duas coisas: a imensidão e a beleza do universo e a nossa insignificância como seres. Sinto uma integração. Minha espiritualidade vem daí, não é mística, mas muito real e prática."

Doença grave

Desde o dia 18, é celebrada a Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, entre 2010 e2016, houve uma redução no número de brasileiros que preenchiam os critérios para abuso ou dependência de álcool, passando de 5,6% para 4,2%. Mas o porcentual ainda é considerado preocupante.

Presidente executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), o médico psiquiatra Arthur Guerra diz que a dependência do álcool é uma doença grave e de difícil tratamento. "É uma doença crônica e não temos um tratamento que seja padrão, considerado o mais eficiente para tratar a doença no mundo inteiro. Isso porque não se trata de um tipo de alcoolismo, mas diversos tipos, pois são pessoas com personalidades diferentes e com uso diferente da bebida."

Guerra diz que estudos apontam que o A.A. é um grupo que traz resultados expressivos. "Uma das diretrizes é a abstinência. A pessoa fica melhor, mas não curada. A cura seria se ela pudesse voltar a beber socialmente, mas ela consegue ter trabalho, família, vida sexual, amigos. Consegue fazer o que todo mundo faz."

O psiquiatra diz que outro fator que ajuda os pacientes é o anonimato. "Eles trabalham de forma anônima e com o conceito de 'só hoje'. A meta não é nunca mais beber ou não beber até o carnaval ou durante o ano de 2019. É evitar a todo custo o primeiro gole", completa.

Mulheres e o álcool

O novo levantamento do A.A. mostra que o número de mulheres que participam das reuniões ainda é pequeno: elas representam 13% dos membros. Uma administradora de 47 anos que entrou no grupo há 11 meses diz que a vergonha e o fato de que muitas mulheres bebem quando estão sozinhas são fatores que contribuem para isso.

"As mulheres bebem sozinhas. Tem donas de casa nos grupos, mulheres que começaram a beber depois que os filhos se casaram e saíram de casa. As famílias não sabem e demora mais tempo para alguém perceber. Elas começam a ir (para as reuniões) quando alcançam um grau alto na bebida."

Ela, que nunca gostou de álcool, começou a beber depois dos 40 anos. "Tomava uma dose para relaxar e dormir, porque moro sozinha. Não sei como perdi o controle. A situação se agravou há dois ou três anos, quando bebia todas as noites."

A administradora diz que não chegou a ter perdas, mas já estava começando a trabalhar irritada e atordoada. " Se eu continuasse bebendo, as coisas iriam piorar."

A família descobriu dois meses antes de ela começar a participar das reuniões por orientação da mãe. Desde então, ela perdeu peso e, há um mês, parou de fumar. "Eu emagreci 15 kg, mas falo que perdi 15 litros. Hoje, sou secretária do grupo, mas parar de beber é muito difícil."

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